Eles querem unir o prazer da carne ao prazer sem carnes (no prato)

Pedro Garcia e Catarina Trindade são as caras do projecto Carne, Só Viva. Querem trazer para a discussão sobre o vegetarianismo uma pitada de humor e descontracção.

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Depois de mais de dez anos de vegetarianismo, Pedro Garcia já perdeu conta às perguntas, aos comentários jocosos, aos incitamentos para voltar a sentir o sabor da carne. Qualquer refeição com alguém novo, não-vegetariano, e mais cedo ou mais tarde o inevitável processo repetia-se: a comida ficava a esfriar no prato, enquanto ele tentava responder ao bombardeamento de julgamentos em forma de interrogação. Até que um dia saiu-lhe simplesmente: “Olha, para mim, carne, só viva.” O inesperado da resposta fez as gargalhadas soltarem-se e, de repente, o ambiente ficou mais leve. “A conversa já não fluiu tanto pela parte alimentar mas pela brincadeira”, recorda. 

É essa pitada de humor e de descontracção que Pedro e a namorada, Catarina Trindade, querem trazer para a discussão sobre o vegetarianismo (e não só). Em Abril do ano passado, lançaram o projecto Carne, Só Viva, uma “plataforma multidisciplinar dos prazeres da carne e dos prazeres sem carne”, resumem. A ideia é explorar as temáticas da alimentação e do exotismo e da sensorialidade através da ilustração, da fotografia, da escrita e da partilha de receitas. Mas também de marmitas recheadas para o almoço (que comercializam através da Eat me) e, no futuro, de workshops e da partilha de conteúdos e produtos de outras marcas ou associações nas plataformas do projecto. “Também gostávamos de lançar uma revista ou uma fanzine e, definitivamente, um livro.”

Sempre com humor e amor. “Queríamos ver uma abordagem diferente à nossa alimentação porque sentimos que não nos identificamos com a forma como essa comunicação é muitas vezes feita”, conta Catarina, de 27 anos. “É agressiva, julgadora, muito de apontar o dedo e de excluir e nós achamos que não é assim que vamos conseguir mudar quem quer que seja, porque a resposta vai ser agressiva e defensiva”, argumentam. Para eles, a solução passa por dar o exemplo e conquistar as pessoas pelo humor, pela arte, pelo erotismo e, claro, pelo estômago. “E dando espaço às pessoas para se interessarem sem sermos nós a tentar enfiar-lhes isso. Queremos que elas também se sintam entusiasmadas por aderir”, conclui Pedro, 35 anos. Entre as ilustrações que adornam cadernos, t-shirts e aventais, convivem legumes, frutas, corpos nus e órgãos genitais, quase sempre acompanhados por jogos de palavras e apontamentos com a cor criada para o projecto: um irónico rosa carne. Numa das serigrafias, alinham-se três peitos femininos com diferentes tons de pele. “Cru, médio e bem passado”, lê-se por baixo, em inglês.

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O vegetarianismo entrou nas vidas de Pedro e de Catarina em alturas diferentes — ele não come carne nem peixe há mais de dez anos, ela há dois anos e meio — mas pela mesma porta: o método DeRose. Foi lá que se conheceram, em 2014, na escola do Chiado (entretanto encerrada). Pedro, hoje formador no novo centro, aberto em São Sebastião, explica o conceito: “É uma metodologia de desenvolvimento pessoal que aborda muito a expansão da consciência e do mundo que nos rodeia para, depois, dar-nos ferramentas para sermos mais activos na mudança desse mundo.”
“Para nós, o vegetarianismo é uma questão de valores, de opção, não de gosto”, contam.

Pedro adorava um bom bife, pelava-se por frango assado. Catarina era doida por ensopado de borrego. O respeito pelos animais, primeiro, as preocupações com o meio ambiente e com a saúde pessoal, depois, ditaram o fim do consumo. De repente, comer já não era só “meter à boca” ingredientes, mas um momento em que pensavam sobre tudo o que o gesto implicava. A vaca que entretanto Catarina desenhou em tops e sacos de pano deixou de ser “le dîner”. A decisão, garantem, não foi difícil. Mas não douram o prato a açúcar. “Dá trabalho e se calhar até é um pequeno acto de coragem largar todas as convenções e valores que tinhas e substituíres por outros”, assume Catarina. Para ela, que desde os tempos da faculdade tinha blogues sobre comida e “jurava por aquilo”, foi como “desacreditar-se” e “escolher pôr de parte toda uma área da vida”. Sair da zona de conforto para encontrar adiante outro tipo de conforto, porventura mais profundo.

Catarina é o principal motor do projecto. Em 2016, despediu-se da agência de design de marcas onde trabalhava para se dedicar a 100% ao Carne, Só Viva. São dela as ilustrações, as receitas, a maioria dos textos. “Formei-me em design de comunicação na Faculdade de Belas Artes, em Lisboa, e paralelamente à universidade fui desenvolvendo um interesse muito grande pela alimentação”, recorda. “Sempre escrevi muito, por isso os blogues serviam quase como terapia e cozinhar sempre foi um refúgio muito grande para mim.” Durante um ano, ainda passou pela área da restauração para perceber se o futuro seria por aí. “Descobri que ter um restaurante era mais gestão e menos tempo na cozinha, por isso desisti”, ri-se. Hoje, prepara kits semanais de refeições vegetarianas por encomenda e tem um serviço de catering para eventos de pequena e média dimensão. 

Mas porquê aliar comida e erotismo? Porque são duas áreas da vida que dão prazer. Porque querem quebrar tabus e questionar convenções. E porque as questões da alimentação e do corpo estão tantas vezes interligadas. Controlamos um através do outro e vice-versa. “Porque é que as pessoas têm tantos problemas e complexos com o próprio corpo?”, questiona Pedro. Para Catarina, são dimensões inseparáveis. Apaixonou-se pela cozinha quando quis controlar o (excesso) de peso. Ao ponto de cair no espectro contrário, juntando a isso uma depressão. No blogue, aflora os distúrbios alimentares do passado para mostrar que é possível chegar onde está hoje. Os demónios exorcizados uma vez mais (também) através da comida. E nas ilustrações, os corpos nus assumem formas curvilíneas, têm pregas nas ancas. “Tento ir buscar diferentes corpos, até para fazer brincadeiras com a alimentação.” No desenho de uma rapariga de costas escreveu, uma vez mais em inglês: “O tipo de gordura boa”.

“A informação está toda por aí, mas às vezes a forma como dizemos as coisas pode fazer a diferença, pode tocar alguém”, acredita. “Somos feitos das nossas experiências. Se calhar não seria o que sou hoje nem teria este projecto se não tivesse passado por tudo isto.”