Sexo, verdades e vídeo: Touch Me Not é vencedor-surpresa de Berlim

Num palmarés muito diplomático e numa cerimónia em que Bill Murray subiu ao palco para dizer “Ich bin ein Berliner Hund”, são as primeiras obras que saem vencedoras

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Obra sopbre a deriva populista na Polónia arrebata o Prémio Especial do Júri em Berlim EPA
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Urso de Ouro para Touch Me Not, primeira longa da romena Adina Pintilie hannibal hanschke/reuters

Pelo meio de um palmarés surpreendente (e nem sempre pelas melhores razões) o Urso de Ouro de Berlim 2018 foi para um dos melhores filmes que o festival mostrou este ano. Touch Me Not, primeira longa da romena Adina Pintilie, sai da 68ª edição da Berlinale com o prémio máximo do júri e com o prémio da Melhor Primeira Obra. Os seus dois galardões empatam Touch Me Not com Las Herederas, primeira longa do paraguaio Marcelo Martinessi, que acumulou o Urso de Prata para Melhor Actriz (Ana Brun) e o prémio Alfred H. Bauer para “filme que abre novas portas ao cinema”.

Aqui entre nós, parte significativa da competição abria mais novas portas criativas do que Las Herederas. Mas um palmarés é um exercício delicado de diplomacia, e se há ausências de bradar aos céus no geral o júri presidido pelo realizador alemão Tom Tykwer – e do qual faziam igualmente parte Cécile de France, Adele Romanski, Stephanie Zacharek, Chema Prado e Ryuichi Sakamoto - não esteve muito mal. Excepto no que diz respeito ao Prémio Especial do Júri, atribuído a Mug da polaca Malgorzata Szumowska, cineasta habitué do certame que já vencera em 2015 o prémio de melhor realização, filme patudo, pretensioso e vistoso sobre a deriva xenofóbica da Polónia.

Fora isso, algum do melhor cinema que se viu em Berlim está no palmarés. A começar por Touch Me Not, objecto desafiador que destoa no concurso de Berlim por ser agressivamente não linear e formalmente experimental: nem documentário nem ficção, acompanhando actores e terapeutas que representam versões de si mesmos perante uma câmara sempre presente, o filme de Adina Pintilie quer encetar um diálogo com o espectador sobre o modo como parecemos ter vergonha do nosso corpo e como precisamos de reaprender a senti-lo e, nesse processo, a olhar e a compreender o outro, abraçando a nossa sexualidade como parte inteira da nossa identidade. 

Touch Me Not (que foi adquirido para Portugal pela Leopardo Filmes) fez a “dobradinha” do Urso de Ouro com o prémio de Melhor Primeira Obra, enquanto o mais convencional mas muito interessante Las Herederas, drama à sombra de Lucrecia Martel onde acompanhamos o reacordar para a vida de uma mulher deprimida e literalmente sufocada pela relação em que vive há anos, deu a Ana Brun um merecido prémio de Melhor Actriz e recebeu o galardão que homenageia Alfred H. Bauer, primeiro director do certame. O melhor actor desta edição foi, numa escolha inesperada, o francês Anthony Bajon, viciado em reabilitação num mosteiro em La Prière de Cedric Kahn. 

O prémio de Melhor Realizador coube ao americano Wes Anderson - nominalmente pela animação Ilha dos Cães, apresentada em abertura oficial do festival e que chegará às nossas salas em Abril, mas na verdade premiando o seu universo visual consistente e metódico. Anderson enviou para receber o prémio em seu nome o actor Bill Murray, uma das vozes do filme. Murray agradeceu dizendo “nunca pensei ir para o trabalho para ser um cão e regressar a casa com um urso” e parafraseou a célebre fase de John F. Kennedy: “Ich bin ein Berliner Hund”. Os prémios de Argumento e de Contribuição Artística tiveram qualquer coisa de “prémios de consolação” a filmes que mereciam mais - o primeiro foi para Museo, o delicioso filme de golpe/adeus à adolescência em tom Godard/Buster Keaton do mexicano Alonso Ruizpalacios; o segundo para Elena Okopnaya pelo trabalho de cenografia e figurinos do excelente Dovlatov do russo Alexei German Jr. 

Noutros prémios, o melhor documentário (atribuído por um júri que incluia a portuguesa Cíntia Gil, directora do Doclisboa) foi The Waldheim Waltz, da austríaca Ruth Beckermann (Forum), que usa exclusivamente imagens de arquivo para meditar sobre a revelação em 1986 do passado nazi do antigo chanceler austríaco Kurt Waldheim e a sua defesa de um populismo demagógico e xenófobo. Nas curtas-metragens, o júri (que incluía o português Diogo Costa Amarante, vencedor 2017 com Cidade Pequena) premiou o documentário The Men Behind the Wall, onde a israelita Ines Moldavsky usa a aplicação de encontros Tinder para se encontrar com palestinianos do “outro lado do muro” da Margem Ocidental. Portugal ficou de fora do palmarés das curtas – mas houve melhores longas (como Transit de Christian Petzold ou Season of the Devil de Lav Diaz) que também ficaram de fora. Os festivais são mesmo assim. E Berlim 2018 até nem foi dos piores.

 

Palmarés

Longas-metragens

Urso de Ouro – Touch Me Not de Adina Pintilie 

Prémio Especial do Júri – Mug de Malgorzata Szumowska

Realizador – Wes Anderson por Ilha dos Cães

Actriz – Ana Brun em Las Herederas de Marcelo Martinessi

Actor – Anthony Bajon em La Prière de Cedric Kahn

Argumento – Manuel Alcalá e Alonso Ruizpalacios por Museo

Contribuição Artística – Elena Okopnaya pela cenografia e figurinos de Dovlatov de Alexei German Jr.

Prémio Alfred H. Bauer – Las Herederas

Primeira Obra – Touch Me Not

Documentário – The Waldheim Waltz de Ruth Beckermann

Curtas-metragens

Urso de Ouro - The Men Behind the Wall de Ines Moldavsky

Urso de Prata – Imfura de Samuel Ishimwe