Editorial

As armas e a democracia

O negócio das armas é uma consequência da degradação democrática dos Estados Unidos. E não serão os jovens activistas a salvá-lo.

Mais um massacre, mais um apelo à contenção da venda de armas nos Estados Unidos. Não valerá a pena ter grande esperança, os massacres de inocentes vão continuar a acontecer. O debate não pretende ter um módico de seriedade porque não se conseguem ultrapassar os argumentos falaciosos que não querem discutir políticas, mas sim emoções.

Se o debate fosse sério, haveria muito caminho para fazer antes de chegar a uma mirífica proibição das armas – poder-se-ia começar por exigir medidas eficientes de avaliação do estado mental dos requerentes, implementar um registo nacional que determine quantas armas tem cada pessoa, limitar o tipo de arma que se pode adquirir e a forma como isso se faz. Mas tudo isto iria limitar o mega-negócio do armamento.

O verdadeiro problema não é a defesa das armas. O verdadeiro problema é a distorção democrática que se vive nos Estados Unidos nos últimos quarenta anos, em que o dinheiro compra quem concorre às eleições e mantém os eleitos na completa dependência dos lobbies que atiram dinheiro para cima do sistema político. É neste cenário que medram os interesses de defesa das armas – que são um negócio e não podem nunca ser confundidos com patriotismo. Esta história já se verificou com as tabaqueiras, com as petrolíferas e com as empresas de telecomunicações, e ainda acontecem também com as financeiras.

O outro drama que contamina os Estados Unidos, e que depende tanto do sistema mediático como do político, tem a ver a desvalorização da ciência e do rigor. O corolário da sociedade do espetáculo é o que trata todos os argumentos por igual e dá legitimidade e espaço público a quem não debater ideias mas apenas ganhar a guerra das emoções. É tão idiota defender que a terra é plana como afirmar que não são as armas que matam – mas os autores destes discursos passeiam-se alegremente pelas televisões, pelas rádios e pelas câmaras legislativas enquanto representantes eleitos. Alguns serão cínicos ao ponto de ter noção das barbaridades que dizem, outros repetem acefalamente o que lhes mandam dizer. E esta galáxia é chefiada por Donald Trump, o analfabeto funcional que despreza os briefings de inteligência das agências secretas mais poderosas do mundo e prefere ser informado pelo talk-show matinal da Fox. Com muitos americanos a preferir viver na sua bolha de realidade alternativa e o cenário político completamente partido, o debate é impossível e os consensos são altamente improváveis – pelo que não valerá muito a pena ter grande esperança numa reforma legislativa a curto prazo.