O Macrobiótico não é um bicho-papão

Um restaurante, uma padaria e uma mercearia — e uma frutaria ali ao lado que tem tudo a ver com esta história. O Bonfim está a mudar.

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As prateleiras da mercearia Nelson Garrido
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A rua do Bonfim está a mudar Nelson Garrido

Há uma frutaria no início da Rua do Bonfim que tem tudo a ver com esta história. Lá dentro, no meio dos frescos, somos recebidos por Arnaldo e Arminda Simões. “A frutaria não tem nome”, responde Arnaldo. “Nunca tive tempo para dar um nome”, justifica o pai de Joana, que na porta ao lado acaba de inaugurar um espaço onde coloca em prática muito do que aprendeu quando era pequenina. Tem nome. Chama-se O Macrobiótico. “Às vezes as pessoas acham que a macrobiótica é assim uma coisa muito complicada, que é um regime. E nós gostamos de dizer às pessoas que isto não é nenhuma dieta, que isto é uma forma cuidada de estar na vida e de procurar os melhores produtos”, explica Joana Simões, que acredita que devemos consumir “os frutos e os legumes da época” e “aquilo que é produzido localmente”.

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O Macrobiótico é um espaço concentrado Nelson Garrido

A Rua do Bonfim, como a cidade, também está a mudar. Nesta parte oriental, entre altas chaminés de estabelecimentos fabris, ilhas e palacetes (e o Suribachi, instituição macrobiótica há 40 anos no número 134), aos poucos a artéria vai perdendo o seu tom enfarruscado, emergindo invulgares painéis de azulejos e fachadas tons pastel — e o símbolo AL porta sim, porta sim.

Quem vem do Campo 24 de Agosto, o três-em-um (restaurante, padaria e mercearia) fica ali à esquerda, logo a seguir à frutaria sem nome. “Uma das coisas que os meus pais me incentivaram foi tentar sempre perceber quais são as necessidades do cliente e de que forma é que podemos pensar na nossa saúde e ajudar as pessoas que estão à nossa volta”, lembra Joana, com a palavra “sustentabilidade” na ponta da língua — já contactou a vizinha Junta de Freguesia para desenvolver workshops de formação “para mostrar às pessoas como fazer uma alimentação mais saudável e para mostrar que não é nada transcendente”.

Joana nasceu no Bonfim, deu a volta ao país numa empresa de transportes e logística e decidiu “voltar às origens”. “Queria fazer algo diferente, algo mais”, explica à Fugas a proprietária, que, “por questões de saúde que a medicina tradicional não conseguiu resolver”, deu de caras com a medicina natural. “Consegui evitar cirurgias e percebi que através da alimentação podemos encontrar a cura e também a prevenção. Dá que pensar.” Voltou ao Bonfim com o Curso Anual de Culinária no Instituto Macrobiótico.

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Joana nasceu no Bonfim e voltou às origens Nelson Garrido

Teve a sorte (e a persistência) de encontrar um edifício bastante degradado que lhe diz algo em termos sentimentais (a senhora Arminda começou a trabalhar aos dez anos numa confeitaria que existia neste espaço) e de ter trabalhado em conjunto com o proprietário, que também é construtor (e cujos filhos, vegetarianos, são agora moradores do edifício). Juntos (e com a ajuda do arquitecto Sérgio Barbosa) revelaram as paredes de pedra e trabalharam os tectos (frutas e legumes em gesso da autoria da artista Iva Viana), mostrando que “é possível aprender com o passado e aproveitar o conhecimento da actualidade, juntando o melhor de dois mundos”.

O espaço, não muito grande, é concentrado. Lá cabe uma masseira (onde descansam os pães da padeira Andreia com uma “massa mãe a evitar aqueles fermentos e aqueles químicos todos”) e um antigo móvel de mercearia (comprado numa loja de antiguidades de Santarém) que recupera a sua antiga função: algas marinhas, kuzu, sumo concentrado, esparguete e penne de milho, enchidos, miso de cevada, compotas, condimentos (do Cantinho das Aromáticas), farinhas, etc, etc, etc. “Se gostarem da comida, podem levar para casa grande parte dos produtos, à excepção dos frescos.”

Sensaborão, aqui não

O menu do dia (inclui sopa, prato principal e bebida, por aproximadamente 10 euros; serviço de jantar vai realizar-se excepcionalmente e mediante marcação) antecipa um creme verde (de bróculos, nabiças, abóbora, batata doce e cebola), um empadão de lentilhas com batata doce, rolinhos de couve com alga hiziki e pickles de rabanete e um kenten de pêra (com base de ágar-ágar, produto extraído das algas marinhas e usado em substituição da gelatina animal) com praliné de avelãs e fios de casca de laranja.

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Na macrobiótica não há alimentos proibidos, mas aqui todas as opções são vegan, dando-se preferência ao uso de cereais integrais, legumes e leguminosas, privilegiando-se as estações do ano e os ciclos produtivos. “O objectivo”, avisa O Macrobiótico “é aliar boa comida e boas escolhas: mais consonantes com a natureza — e com a natureza do nosso próprio corpo”.

“Não fazemos a comida macrobiótica como se fazia há 30 anos, muito fechada”, sublinha a chef Raquel Rocha, especializada em culinária macrobiótica, com formação do Instituto Português de Macrobiótica e experiência adquirida em Espanha, onde trabalhou no SHA Wellness Clinic. “Faço como se fosse sempre para mim, comida saborosa super-equilibrada com um toque, uma decoração, um requinte.” As suas receitas, com muitos temperos e muitas ervas, com óleos e azeites biológicos, seguem a teoria das cinco transformações (fogo, árvore, solo, água e metal), cinco elementos que convivem no prato. “Mais saudável não pode ser. Tens lá tudo. O teu corpo entra em equilíbrio. O resto vem por acréscimo.”

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O pão da Andreia Nelson Garrido