Especialistas defendem estratégia global para a Baixa

Colocação de azulejos nas fachadas da Praça da Figueira é vista como medida "desarticulada" e "casuística" que não valoriza a Baixa como um todo nem contribui para resolver os problemas locais.

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Colocação de azulejos na Praça da Figueira é uma ideia que remonta a 2001 Sebastião Almeida
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João Paulo Martins, co-autor do projecto com Daciano da Costa, explicou as diferentes opções para cada fachada Sebastião Almeida
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O projecto prevê que cada quarteirão tenha azulejos diferentes Sebastião Almeida
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Uma das críticas à câmara é que esta intervenção não está integrada numa visão mais global Sebastião Almeida
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Nuno Vassallo e Silva, ex-DGPC, questionou a oportunidade do projecto Sebastião Almeida
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A reunião concluiu com o pedido generalizado de um plano integrado de toda a Baixa Sebastião Almeida

O súbito aparecimento de azulejos na fachada do quarteirão da Suíça, na lisboeta Praça da Figueira, é encarado com perplexidade por alguns arquitectos e historiadores. Um grupo de especialistas esteve reunido esta quarta-feira e do encontro saíram mais dúvidas do que certezas. Os presentes questionaram a relevância da intervenção e foram unânimes a defender a existência de um plano global para a Baixa, em vez de operações isoladas.

No primeiro andar da Confeitaria Nacional, com vista para os azulejos, a vereação do PSD promoveu um pequeno-almoço de debate em torno do projecto de Daciano da Costa. Esse projecto, desenhado em 2001 e reavivado pela câmara municipal no fim de 2017, prevê que todas as fachadas da praça sejam revestidas a azulejos. Os primeiros, azuis e brancos, já estão num dos topos.

“Começou-se por este sem explicar tudo o resto”, lamentou João Paulo Martins, co-autor do projecto. O arquitecto explicou que a ideia sempre foi ter os quarteirões diferenciados entre si: nuns aplicar-se-iam azulejos azuis e brancos, criando um efeito dégradé; noutros, os azulejos seriam todos azuis; no quarteirão da Suíça, ficou desenhado – e cumpriu-se – que os azulejos seriam mais claros, sobretudo brancos.

“O projecto tinha este pressuposto: é necessário fazer alguma coisa na Praça da Figueira”, lembrou João Paulo Martins. O atelier de Daciano foi convidado pelo executivo de João Soares, em 1999, a apresentar uma proposta de intervenção quando “estava já a decorrer a construção do parque de estacionamento subterrâneo”, disse. “Foi isso que foi encomendado, um chão para a praça. Mas lá no atelier percebeu-se que um chão não chegava”, acrescentou. Isto porque a praça foi durante muito tempo ocupada por um mercado em ferro e “as fachadas foram sendo concebidas ao longo do tempo com uma perspectiva que nós hoje não temos”, uma vez que o mercado desapareceu.

Daí surgiu a pergunta “como fazer disto uma unidade?” e a resposta veio na forma de azulejos. João Paulo Martins, que se desvinculou do atelier de Daciano em 2002, afirmou que “desde 1999 tem havido debate público sobre esta questão” e que “não houve nada escondido”. Ainda assim, não põe as mãos no fogo pelo que agora foi feito.

Em 2004, um parecer identificou o tipo de azulejos e procedimentos necessários para garantir que as paredes dos prédios continuariam a “respirar”. Com base nisso, a câmara, então liderada por Carmona Rodrigues, disse que os azulejos produzidos em 2001 não serviam. Mas a autarquia disse ao PÚBLICO na semana passada que as peças agora aplicadas são precisamente as que foram dadas como inaptas há 14 anos. “Não sei até que ponto se respeitaram os condicionalismos técnicos”, disse João Paulo Martins. “Se me perguntarem se o resultado que aqui está era o que eu tinha na minha cabeça há 18 anos”, começou – mas não concluiu a frase.

Para João Rodeia, ex-presidente da Ordem dos Arquitectos e do Instituto Português do Património Arquitectónico (Ippar), esta intervenção “é casuística” porque a Baixa vale “pelo seu todo”. “Eu preferiria que houvesse uma visão mais global”, defendeu. E lembrou que existe uma candidatura desta zona a Património da UNESCO. “Sabendo que a avaliação das candidaturas é matéria sensível, eu pergunto-me se a continuação de intervenções casuísticas não põe em causa a inscrição da Baixa na lista de património.”

Nuno Vassallo e Silva, ex-director-geral do Património Cultural, questionou: “Qual a oportunidade desta intervenção em 2018? Em 1999, a Baixa vivia uma decadência tremenda. Em 2018 o panorama não é o mesmo”, disse. “Ver esta intervenção desarticulada de toda a Baixa parece-me algo preocupante. Não sei se este projecto hoje terá o lugar ou a justificação que tinha há 18 anos.”

Xana Campos, do fórum de discussão Arquitectura PERTO, manifestou-se “chocada” com o revestimento e lançou várias questões. “Porque é que há este tipo de intervenção? Qual é a razão? Expliquem-me lá qual é a ideia, a vantagem. A unidade não se consegue por o revestimento ser todo o mesmo.”

Já o arquitecto Victor Lopes dos Santos criticou o facto de a câmara impor aos proprietários a utilização de azulejos nas fachadas da praça, sobretudo sem um plano mais integrado. “Preocupa-me estarmos a fazer uma intervenção de redesenho de um espaço sem saber o que se pode fazer para o revitalizar. De que é que vale uma pessoa pintar os prédios, pô-los de cara lavada, se ninguém os vai utilizar?”

Por fim, todos defenderam a criação de uma estrutura própria para pensar a Baixa como um todo – algo que João Pedro Costa, vereador do PSD, se comprometeu a propor na câmara.

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