Bolsas europeias acompanham EUA na nova vaga de desvalorizações

Os principais índices europeus fecharam com perdas entre 1% e 2%, depois das vincada desvalorização da véspera registada em Wall Street. Os analistas falam em correcção de expectativas em relação à inflação e taxas de juro nos EUA

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LUSA/FRANCK ROBICHON

As bolsas norte-americanas continuam a pregar sustos globais aos investidores em acções. Depos de mais uma sessão fortemente negativa em Nova Iorque, esta quinta-feira, o dia seguinte na Ásia e Europa voltou a encher-se de vermelho nos quadros das bolsas das duas regiões. 

Nas bolsas asiáticas o dia foi de desvalorizações em torno dos dois pontos percentuais e a tendência alastrou-se ao Japão, Hong Kong e Coreia do Sul, tendo mesmo atirado o mercado chinês para o seu valor mais baixo nos últimos dois anos. 

A manhã na Europa pintou-se de tons semelhantes, com as perdas a verificarem-se em torno dos 1,5% na generalidade dos índices, com o PSI-20 a acompanhar em Lisboa os sinais que vão sendo dados a partir de Londres, Frankfurt ou Madrid. Todos renovam os níveis mais baixos do ano, alguns rompendo mínimo de cinco meses, outros de 10 meses. E a tendência acabou por manter-se no fecho da sessão, perante o dia volátil que se foi observando Nova Iorque, entre recuperações ligeiras e novas quedas para mínimos de três meses.

Em termos globais, o índice MSCI que agrega as principais acções de todo o mundo terminou a sessão com o pior registo semanal desde 2011, colocando a perda de valor das acções cotadas, globalmente, em cinco biliões (trillions, em inglês) de dólares (quatro biliões de euros)

No epicentro deste movimento de correcção bolsista - que andavam a negociar em valores historicamente altos em todo o mundo durante sucessivos meses - estão os Estados Unidos. Depois de uma desvalorização abrupta e vincada no arranque da semana que accionou várias campainhas de alarme nas salas de mercados de todo o mundo, esta quinta-feira foi marcada por nova perda de mais de 1000 pontos no principal índice bolsista de Nova Iorque, o Dow Jones, repetindo o mesmo comportamento negativo em apenas quatro dias. O seu congénere S&P 500, mais abrangente em termos de empresas, perdeu tudo o que tinha acumulado de positivo este ano, fechou no valor mais baixo de dois meses e está a caminho da pior semana desde 2011. 

Os investidores continuam a recolher os ganhos acumulados ao longo de vários meses de valorizações, perante os sinais de uma possível inversão do ciclo de taxas de juro por parte da Reserva Federal (Fed), num contexto de subida da inflação, que ameaça limitar o desempenho das empresas norte-americanas e condicionar o poder de compra dos consumidores. 

Neste contexto, a subida das taxas de juro das obrigações dos Estados Unidos, em conjunto com um leilão de títulos mais fraco do estimado, reforçou a postura de cautela dos investidores e analistas, perante a possibilidade de a Fed subir até quatro vezes a taxa de financiamento de referência.

A acelerar o dramatismo das perdas estão ainda outros factores menos orgânicos. Por um lado, grande parte da negociação de títulos em Wall Street é automática ou tecnológica actualmente, feita através de algoritmos de venda accionados assim que os preços descem a determinado nível, o que agudiza as trajectórias descendentes como a que se verificou esta semana. 

Por outro lado, a sessão de segunda-feira destapou uma nova realidade financeira nas bolsas norte-americanas: os produtos de volatilidade, que mais não são que pacotes de investimento apostados na estabilidade da negociação. Quando o mercado vive momentos de agitação e volatilidade, com movimentos muito pronunciados para cima e para baixo, como o que está a viver esta semana, vários bancos foram forçados a liquidar estes produtos (que perderem imediatamente valor), despejando ainda mais volatilidade no mercado. Isto é, acentuando a tendência descendente que já se verificava. 

Estes dois movimentos "artificiais" - negociação automática e investimentos (derivados) na volatilidade - apenas tornaram mais dramática uma tendência de correcção que se baseia em convicções dos investidores sobre a evolução dos sinais económicos e que alastrou a todo mundo.

Texto actualizado às 19h com fecho da Europa