Tudo sobre Maria Ribeiro

A actriz e escritora brasileira integra com Gregorio Duvivier e Xico Sá o projecto Você é o Que Lê?, que quer tirar a literatura do pedestal. É um sucesso no Brasil e virá este ano para Portugal.

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Maria Ribeiro lembra-se perfeitamente do dia em que voltou da escola “sabendo ler”. Nunca se esquece do prazer que teve quando, pela primeira vez, chegou a casa e conseguiu decifrar uma frase inteira no seu caderno de Português.

A actriz brasileira, que conhecemos dos filmes Tropa de Elite, de José Padilha, ou da telenovela Império, que passou na SIC, sempre adorou ler. Mas durante as sessões do projecto Você É o Que Lê?, “um bate-papo sobre literatura bastante descontraído” — que já passou por várias cidades do Brasil e chegará a Portugal ainda este ano —, em que participa com o escritor brasileiro Xico Sá e com o actor e humorista Gregorio Duvivier, apercebeu-se de que os colegas já leram mais do que ela em 42 anos de vida.

Sentada no hall de um hotel de Lisboa, a actriz e escritora tem uma explicação para isso. “Fui mãe [pela primeira vez] com 27 anos e pela segunda vez aos 34. Sou feliz, gosto de ser mãe, sou controladora e protectora e quero que os meus filhos sejam caras legais. Quero que leiam, que conversem... É um trabalho incrível, mas toma um tempo imenso”, confessa.

Agora que os filhos estão crescidos (o mais velho tem 14 anos), já disse aos colegas: “Quero ver quem é que vai ler mais!” É que Gregorio Duvivier foi pai há um mês e Xico Sá há dez . “Mas eles leram mais do que eu também, porque sou totalmente dispersa. Não é à toa que faço Tudo, uma websérie estreada na Hysteria — uma plataforma de conteúdos on-line criada e produzida por mulheres. Estou aqui falando com você e, ao mesmo tempo, estou tentando ver de onde é esse seu casaco...”

Dispersão à parte, foi com o objectivo de “tirar da literatura a conotação de intelectual e de inacessível” que a advogada brasileira Evelyne Lessa teve a ideia de criar Você É o Que Lê?, o projecto em que Gregorio Duvivier, Xico Sá e Maria Ribeiro interagem com a plateia durante uma conversa em palco e se servem do seu papel de pessoas públicas da área do entretenimento para aproximar o público do universo da leitura.

A advogada, que nasceu em Salvador, na Bahia, onde se realizou a primeira destas sessões em 2016, sentia falta no Brasil de um contacto menos formal com os autores. “Não havia nada que desse uma continuidade ao que costuma ser o lançamento de um livro. A vontade veio até de algo meio egoísta, de fazer uma coisa que eu gostaria de ver”, explica Evelyne Lessa. O seu trabalho ajudou-a na concretização da ideia, porque alguns clientes mostraram-se interessados em patrocinar o projecto.

Na maior parte das sessões são cobrados bilhetes, mas já se fizeram outras de entrada livre em que distribuíram livros pelas comunidades. “Não imaginava que fosse esse sucesso. Lotamos salas para duas mil pessoas ao domingo pela manhã, por exemplo. A ideia era fazer um único bate-papo em 2016 em Salvador, mas fui indo. Não parámos de ter pedidos na agenda e foi dando certo.”

Você É o Que Lê? em Portugal?

Evelyne Lessa cresceu numa família próxima de Jorge Amado e por isso sempre teve interesse por autores portugueses. Tinha o sonho de conseguir fazer alguma coisa em Portugal e está a organizar a vinda de Você É o Que Lê? Para já, a ideia é realizar o evento em Lisboa e talvez em Óbidos, por altura do festival literário que ali decorre. Já tem um patrocínio brasileiro, só falta conciliar a agenda dos três participantes. Poderá ser no Verão ou em Outubro, o local ainda não está definido. E o evento poderá ter convidados portugueses, à imagem do que acontece nas sessões Você É o Que Lê? no Brasil; na última quinta-feira, o escritor e jornalista Zuenir Ventura, de 86 anos, apareceu na única livraria que está a funcionar na Rocinha, Rio de Janeiro, a Garagem das Letras.

“A ideia é o projecto virar também um canal do YouTube, porque é um sucesso absoluto”, conta Maria Ribeiro, que recorda a sessão em Capão Redondo, uma periferia de São Paulo, com o poeta Sérgio Vaz. “Ele contou que no início, quando começou a dizer para a molecada que era poeta, respondiam que poesia era coisa de veado e chata. ‘Vocês não curtem Racionais [uma banda de rap importante no Brasil]?’, contrapôs. A garotada começou a recitar a canção Negro drama e ele explicou: ‘Então, isso é poesia!’”

O objectivo do Você É o Que Lê? é tirar a literatura do pedestal. “Somos três figuras pop, da televisão, das redes sociais, e as pessoas percebem que não existe essa coisa de gostar de literatura e não gostar do Instagram. Gostamos de alta e de baixa literatura, gostamos do Twitter. Muitas pessoas dizem que foram assistir à sessão por o Duvivier ser [do colectivo] Porta dos Fundos ou por eu ter sido do Saia Justa, do Canal GNT, mas acrescentam que saíram de lá com vontade de ler O Apanhador no Campo de Centeio [À Espera no Centeio, de J. D. Salinger, na tradução portuguesa]”.

Também se fala de política nas sessões, claro. “Está barra pesada no Brasil e somos os três de esquerda. Eles são mais petistas do que eu, defendo o Lula mas non troppo. Não consigo ter messias. Falamos muito de política, porque não tem como não falar. O Brasil é um país onde a escravidão não acabou, todo o mundo tem empregado que dorme [interno]. É o retrato de Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert. Às vezes não é falar de política através dos políticos como [o prefeito do Rio de Janeiro] Marcelo Crivella, mas é perguntar: ‘Você estimula a pessoa que trabalha na sua casa a ler?’, ‘Você sabe onde ela mora?’, ‘Você sabe se os filhos dela estão na escola?’”, explica Maria Ribeiro.

A autora, que se licenciou em Jornalismo e escreve crónicas para o jornal O Globo e para a revista TPM, tem publicado em Portugal o livro de crónicas Trinta e Oito e Meio (Tinta da China). O seu próximo livro sairá no Brasil em Março, pela Planeta. Chamava-se 40 Cartas e Um Email Que Eu nunca Mandei, mas mudou de nome para Tudo Que Eu sempre Quis Dizer mas só Consegui Escrevendo quando ali integrou SMS e mensagens de WhatsApp. Liga o livro ao projecto Você É o Que Lê? porque muitas vezes nesses eventos as pessoas perguntam-lhe: “Como é que faço para escrever?” E ela responde: “Mande WhatsApps incríveis. Quer paquerar uma pessoa? Fique cinco horas pensando em três frases do WhatsApp e mande aquelas três frases com humor, com inteligência, com nem sei o quê.” Acredita realmente nisso.

A capa de Tudo Que Eu sempre Quis Dizer mas só Consegui Escrevendo é de Mallu Magalhães, que vive em Portugal. Em breve vai ser lançado um vídeo da canção Navegador, do último disco da cantoraVem, que filmaram em São Paulo. Não é a estreia de Maria Ribeiro na realização: filmou uma curta-metragem, 25, e é autora de dois documentários, Domingos (2011), sobre o dramaturgo, realizador e actor Domingos Oliveira, e Los Hermanos — Esse É só o Começo do Fim da Nossa Vida (2015), que acompanha uma tournée da banda brasileira.

Abaixo o “esquerdomacho”

No ano passado, Maria Ribeiro recebeu o prémio de melhor actriz no 45.º Festival de Cinema de Gramado pela sua interpretação em Como Nossos Pais, de Laís Bodansky. O filme abrirá, a 27 de Fevereiro, em Lisboa, o FestIn — Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa.

Maria interpreta Rosa, uma mulher que queria ser dramaturga, mas se perde nos papéis de filha e de mãe. Tenta escrever uma peça de teatro em que transposta para a actualidade A Casa de Bonecas, peça do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, cuja protagonista, Nora, sai de casa do marido.

“É uma mulher que está entrando no segundo tempo da vida, com pais vivos e com filhas pequenas. É completamente oprimida por dar conta desses pais que já estão começando a precisar dela, e por dar conta das filhas. O marido parece ser superlegal, é um cara que cuida dos índios na Amazónia — personagem do género de homem que Marcelo Rubens Paiva definiu como o “esquerdomacho” —, só que é ela que cuida das filhas full time. A partir de uma revelação no início do filme de que o pai não é o pai — isso está no trailer, não é spoiler —, Rosa entra numa crise de identidade.”

A actriz acredita que há uma revolução em curso no cinema brasileiro, ao mesmo tempo que se discute a questão do feminismo e do assédio sexual no resto do mundo. “Essas rixas entre francesas e americanas é o mínimo diante do que tem de grande nessa história. O que importa realmente é a necessidade de se lutar por salários melhores, de se ter uma equação mais justa na educação dos filhos e no cinema; sinto que temos de ter mais mulheres, porque precisamos de nos ver representadas. Há pouco tempo, eu não conseguia ver nenhum filme onde dissesse: estou ali”, nota Maria Ribeiro.

Houve quem comparasse Como Nossos Pais a Aquariuso filme de Kleber Mendonça Filho. “Acho Como Nossos Pais político de outra maneira. Tem uma protagonista de 40 anos e é como se a minha mãe no filme fosse a personagem de Sónia Braga. Era de esquerda, ouvia as músicas certas, lia os livros certos, e mesmo assim ela reproduzia o machismo comigo.”

Maria Ribeiro gosta muito do filme, porque o considera especial, um tipo de cinema que não existia no Brasil. “Ou havia o filme de arte para cem pessoas ou as comédias ligeiras que fazem muito sucesso. Como Nossos Pais está entrando numa seara de cinema argentino, é um filme de classe média que não precisa de ser sobre miséria, sobre violência, sobre esse Brasil para exportação, porque tem um Brasil no cinema que quase que pega bem [no exterior]. Como Nossos Pais poder-se-ia passar em qualquer lugar, tanto que se estreou na secção Panorama no Festival de Berlim.”

Aquilo em que se acredita

Desde Novembro que no Brasil existe a plataforma Hysteria (Tudo por Elas), cuja premissa é tratar de assuntos femininos, e na qual só trabalham mulheres. Além do site, têm um canal no YouTube e parcerias com a televisão. É um braço da Conspiração Filmes, uma produtora brasileira bem instalada no mercado.

“Vamos brigar para ocupar espaço”, diz Maria Ribeiro. Ali trabalham mulheres de todas as idades, e a artista foi convidada para fazer um programa, o que quisesse. “Brinco que tinha de ter o respeito dos meus filhos, por isso tinha de ir para o YouTube: fazer filme... já nada disso importa. Eles só vêem YouTube e televisão no celular. E os seus ídolos são youtubers.

Mais a sério, Maria queria desafiar a Internet — provar que para ter sucesso naquele meio não é necessário falar muito alto, ter milhões de imagens e de emojis a pular no ecrã. Por isso criou Tudo, realizado por Isabel Nascimento Silva, em que o texto é improviso, coisas que escreve sozinha ou com a ajuda da jornalista Cristina Fibe, quando os assuntos são mais hard news.

“Será que dá, na Internet, para fazer um programa que seja o mínimo que você precisa saber sobre todos os assuntos? Eu não quero ser uma pessoa de moda, mas quero ser também. Eu não quero ser uma pessoa de literatura, mas quero ser também. Eu não quero ser uma pessoa de política, mas quero ser também. Quero poder fazer o que estou afim. Um dia sou profunda, um dia sou superficial. Um dia quero ir no museu, outro na loja Zadig et Voltaire”, explica.

As filmagens da websérie realizam-se em casa da actriz. “É superbaixo orçamento, superguerrilha. Faz-se num dia e vou gravando toda a semana algumas coisas no celular, pois tento trazer temas quentes.”

Por que se chama Tudo? “Porque no fundo é sobre nada. Foi feito em cima de uma frase do Millôr Fernandes que está no episódio-piloto — a ‘capacidade de saber cada vez mais sobre cada vez menos, até saber tudo sobre nada’. Um pouco isso que se vive actualmente: você dá um Google.”