Marcelo Crivella vai acabar com o Carnaval do Rio?

O bispo evangélico que lidera o município do Rio de Janeiro cortou para metade os subsídios das escolas de samba, alegando que precisa de dinheiro as merendas das crianças nas creches. Mas a explicação não cola, e a maior festa da cidade pode estar em perigo.

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As escolas de samba ameaçam não desfilar em 2018 António Lacerda/EPA

Duas perguntas ficaram por responder, após o anúncio de um corte, para metade, do valor dos subsídios pagos pelo município do Rio de Janeiro às escolas de samba da cidade – uma decisão surpreendente, mas não totalmente inesperada, do autarca Marcelo Crivella, e que já fez rebentar uma guerra com a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), a organização que organiza o desfile de Carnaval no Sambódromo carioca e representa as agremiações que todos os anos ocupam a famosa passarela da Avenida Marquês de Sapucaí. 

A primeira pergunta é óbvia, e tem a ver com o que vai acontecer ao Carnaval de 2018: está irremediavelmente comprometido, como sugerem as escolas de samba? A segunda, talvez mais insondável, diz respeito à motivação de Crivella, o líder municipal que é sobrinho do fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e ele próprio ex-missionário e bispo licenciado daquele culto evangélico. Até que ponto as suas convicções religiosas estão a interferir na gestão da cidade e a prejudicar o interesse público? 

A decisão de Marcelo Crivella de reduzir o dinheiro público para o Carnaval foi anunciada no âmbito de um processo que o próprio descreveu como um “remanejamento” (sic) de verbas do orçamento municipal para 2018. Os 24 milhões de reais (cerca de 6,5 milhões de euros) da subvenção paga pela autarquia às escolas de samba que actuam no Carnaval será reduzida para metade, para que o governo municipal possa aumentar os gastos com a alimentação e o material escolar das 15 mil crianças que frequentam as 158 creches públicas do Rio de Janeiro. “O valor que é pago hoje é muito pouco, até para comprar iogurte”, explicou Crivella, que prometeu aumentar o “subsídio” diário por criança de dez para vinte reais (5€).

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Marcelo Crivella diz que não pode voltar atrás na sua devisão Ueslei Marcelino/REUTERS

“Vivemos restrições orçamentais”, sublinhou o presidente da câmara, acrescentando que o mesmo procedimento de realocação de verbas abrangerá outros contratos da administração municipal. Lembrando que a cidade se debate com uma difícil crise financeira, colocou a questão como uma escolha entre o uso dos recursos “para uma festa de três dias ou durante os 365 dias do ano”. 

"Demagógico e ingénuo"

Ao telefone com o PÚBLICO, o jornalista brasileiro Aydano André Motta, especialista em Carnaval e administração pública, desmonta a argumentação de Crivella: “Populista, demagógica e até um pouco ingénua”, considera. Não só porque o montante atribuído ao Carnaval é relativamente pequeno no orçamento municipal — “é uma quantia ridícula na gestão da prefeitura da segunda maior cidade do Brasil”, diz — mas sobretudo por fazer depender dele o apoio alimentar às crianças, “que tem de ser prioridade absoluta”.

“Mas a argumentação que ele usou, um dilema entre a festa do pecado e a comida das crianças, é bem o tipo de política que ele quer fazer, e do político que ele quer continuar a ser, que é ligado ao mundo neopentecostal”, nota Aydano André Motta.

Depois de se fazer eleger com promessas de uma postura tolerante com a festa, demonizada pela IURD (por causa das forças religiosas afro-ameríndias, o candomblé e o umbanda, que estão na origem do Carnaval), Marcelo Crivella começou a tratá-la com distanciamento e até hostilidade. O jornalista não tem dúvidas de que “ele tem um projecto de esvaziar tanto quanto possível, e até mesmo de destruir, o Carnaval carioca, por causa da agenda religiosa a que ele está ligado”.

Na sequência do anúncio do corte de verbas, as escolas de samba do chamado grupo especial (uma espécie de primeira divisão do Carnaval carioca) anunciaram a suspensão de todos os preparativos para a festa do próximo ano, que já estão em marcha. “A prevalecer a decisão [de redução em 50% do apoio financeiro para a produção dos Desfiles de Carnaval], ficarão inviabilizadas as apresentações das escolas de samba no Carnaval de 2018”, resumiu em comunicado a Liesa, que aguarda uma audiência urgente com o presidente do município para “encontrar uma solução para o problema, tendo em vista a gravidade dos factos”.

“A Liesa chamou o prefeito para a briga”, interpreta o historiador Luiz Antonio Simas, colunista e autor de várias obras sobre as escolas de samba do Brasil. “Ao dizer que não haverá desfile, a liga manda um recado para a rede hoteleira, para as empresas de turismo, para as cervejarias, para a maior rede golpista de comunicação do país [TV Globo] e para outras empresas que lucram com os quatro dias de sambódromo. A estratégia é ter o capital ao seu lado pois o poder económico irá sentir um impacto negativo nos seus cofres. É uma jogada inteligente, sim, pois tensiona seus parceiros”, escreveu na sua página de Facebook.

Impacto económico

O impacto económico do Carnaval do Rio de Janeiro não é despiciendo. Este ano, o evento atraiu mais de um milhão de turistas, e de acordo com os números avançados pela Secretaria de Turismo, Riotur, as receitas municipais com a festa ascenderam a três mil milhões de reais (805 milhões de euros). Crivella, que ainda não atendeu o pedido da Liesa para reunir, já garantiu que a decisão não tem volta, por causa da recessão que o Rio atravessa. “Eu não posso voltar atrás, eu sou premido pelas circunstâncias. Ainda estou em regime de corte de despesas”, justificou, lembrando que a subvenção municipal às escolas de samba “teve um aumento num momento de euforia, mas que deu no que deu – olha agora a crise com que a cidade se debate”.

Como explica Aydano André Motta, é indisputável que as escolas de samba “precisam do dinheiro” para apoiar a produção do desfile carnavalesco nos actuais moldes de espectacularidade, isto é com carros alegóricos repletos de efeitos especiais. Os dois milhões de reais (537 mil euros) que cada uma das escolas do grupo especial recebe a título de subvenção pública representam cerca de um terço do orçamento das agremiações, que em média é de 6,5 milhões de reais: ao dinheiro municipal adiciona-se outra parcela de dois milhões do contrato com a TV Globo para a transmissão televisiva, e outros 2,5 milhões resultantes dos bilhetes do Sambódromo, das vendas das músicas do samba-enredo e restantes produtos de cada escola.

Algumas têm ainda outros patrocínios, cujos montantes não costumam ser divulgados – a falta de transparência da contabilidade das escolas, e o reconhecimento tácito dos negócios obscuros dos seus “chefões”, quase sempre impunes, prejudica a sua pretensão ao dinheiro público. “Danado é que o Bispo [Marcelo Crivella] tem a faca e o queijo na mão para cobrar da Liesa esclarecimentos acerca de problemas concretos na organização dos desfiles do grupo especial”, observa o professor de História, Luiz Anselmo, que está a investigar o financiamento do Carnaval das grandes escolas de samba cariocas, num artigo publicado no blogue Amenidades.

À lista dos problemas verificados no Carnaval deste ano (quatro acidentes com carros alegóricos que fizeram dezenas de feridos e motivaram muitos protestos contra a Liesa), acresce a questão da falta de transparência na aplicação dos recursos financeiros do Carnaval e a sua ancestral ligação ao universo do ilegal “jogo do bicho”. Mas, prossegue Anselmo, “desde a criação da Liesa, nunca foi política de cervejarias, empresas de fast-food, emissoras de TV, bancos e outras grandes empresas vetarem a realização de negócios com uma entidade cuja direcção possui forte influência dos chefes da contravenção do Rio”.

“A fraqueza política para a Liesa é exactamente a falta de transparência. Esse cenário de incompetência e de má gestão das escolas dá argumentos para a diminuição da subvenção. Na minha opinião devia ser o oposto, o que a prefeitura devia fazer era aumentar o orçamento das escolas de samba cobrando contrapartidas, por exemplo que garantissem uma actividade turística contínua e não apenas na temporada alta do Verão”, diz Aydano André Motta. “O comando do Carnaval tem mil pecados, mas a discussão neste momento já está para lá disso. Agora o problema é a sobrevivência dessa festa que não é só lazer e turismo, mas que é cultura e faz parte da identidade do povo carioca. Crivella está querendo virar as costas para isso de um jeito dissimulado”, reforça.

Projecto IURD

Segundo Luiz Antonio Simas, “a prefeitura precisa reconhecer a relevância cultural do Carnaval” e também a importância das escolas de samba. “Elas são a mais impressionante invenção carioca inscrita no tempo e espaço da cidade; expressões vivas dos dramas, dilemas e maneiras de inventar a vida como possibilidade de alegria e beleza da nossa gente”, escreveu no Globo.

Ou seja, para todos estes especialistas e analistas, não colhe a tese de que o chefe da autarquia pretende promover uma “moralização” financeira com a “limpeza” das contas do Carnaval. E sendo assim, só sobra outra explicação para o embate de Marcelo Crivella contra as escolas de samba: o projecto de poder da IURD, e o seu combate a toda e qualquer manifestação que considera profana e “diabólica”.

A posição do líder municipal sobre o tema do Carnaval foi sempre ambígua – afinal, Crivella é a favor ou contra? Ao longo da campanha eleitoral, Crivella esforçou-se por rebater o que designou como “preconceito” contra a sua fé, cantando sambas em público e dando todo o tipo de garantias aos presidentes das escolas, de manutenção do apoio financeiro e do estabelecimento de “parcerias”, para garantir o apoio da Liesa (o seu rival, Marcelo Freixo, prometia uma investigação às contas do Carnaval).

“Não vou de maneira nenhuma ser um prefeito arrogante, senhor das próprias ideias. O Carnaval vai ser respeitado”, garantia à TV Globo no Verão do ano passado, marcando uma fronteira inviolável entre a religião e a política. Mas em Fevereiro, Crivella não participou num único momento do Carnaval: não ofereceu as chaves da cidade ao Rei Momo, como é de praxe, nem marcou presença no Sambódromo, alegando que seria demagogia.

No contexto da promoção do projecto político da IURD, “o esvaziamento do Carnaval não é facto isolado”, entende Luiz Antonio Simas. “Sobrou pràs escolas de samba. Tá sobrando prò funk, vai sobrar prò Carnaval de rua. 'Tá sobrando pra quem aposta na diversidade e defende a expressão soberana das minorias”, diz o seu Facebook, numa referência à revisão da lei que enquadra os eventos de rua ou a depreciação dos órgãos responsáveis pela defesa das minorias. “Tudo tem a ver com a componente religiosa. Por exemplo, ele recusa dar dinheiro para a agenda LGBT”, concorda Aydano André Motta, lembrando o anunciado corte do patrocínio municipal para a marcha do orgulho gay do Rio de Janeiro, em Dezembro.

Apesar de acreditar que “está tudo em risco”, o jornalista estima que o Rio não vai deixar de encher no Carnaval de 2018, até porque os chamados blocos de rua – mais de 400, entre oficiais e não oficiais – já arrastam multidões muito maiores do que o desfile do Sambódromo. “O Bloco da Preta [Gil], a filha de Gilberto Gil, teve 500 mil pessoas; no Cordão da Bola Preta, que é o mais antigo e o maior do Rio, foram mais de um milhão de pessoas”, diz.