EUA apostam em armas nucleares pequenas para enfrentar a Rússia

Nova doutrina nuclear dos EUA prevê que a resposta à modernização de Moscovo passe por armamento que se possa usar no campo de batalha.

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General Joe Dunford com a tripulação de um B52, um bombardeiro capaz de lançar bombas nucleares Dominique A. Pineiro/Departamento de Defesa EUA

Os Estados Unidos vão investir na produção de bombas nucleares de potência mais reduzida, em resposta à estratégia de modernização do armamento nuclear táctico – que na verdade não está abrangido por nenhum dos tratados contra a proliferação de armas atómicas assinados nas últimas décadas – que dizem estar a ser utilizada pela Rússia.

Este objectivo, contido no documento que traça a estratégia nuclear dos EUA para os próximos anos, divulgado sexta-feira à noite, é a mais recente demonstração da nova postura norte-americana face à Rússia, retomando a ideia da competição entre as grandes potências, e também o seu posicionamento numa altura em que enfrenta o desafio crescente da Coreia do Norte nuclear.

Uma ideia forte da nova doutrina nuclear dos EUA é a de que desde a última avaliação, de 2010, a Rússia expandiu e modernizou as suas armas não estratégicas (ou tácticas, quer isto dizer concebidas para serem usadas no campo de batalha, contra alvos apenas militares), anexou a Crimeia e tem já operacional um míssil que viola os termos do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio (INF), assinado em 1987. O relatório afirma ainda, pela primeira vez publicamente, que a Rússia está a desenvolver um torpedo hipersónico nuclear lançado a partir de submarino.

Estas armas não estão abrangidas pelos termos dos acordos START – estes destinam-se a limitar o número e o uso de armas usadas para objectivos estratégicos, como ameaçar a infra-estrutura industrial de um adversário, ou a estrutura de comando, impedindo-o de conduzir a guerra mas a um nível bastante mais elevado do que o campo de batalha.

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O documento agora revelado pelo Pentágono visa a estratégia de modernização nuclear de Moscovo, à qual os EUA pretendem responder com as chamadas miniarmas nuclares. “A Rússia acredita que usar armas nucleares de forma limitada, provavelmente armas de potência mais reduzida, lhes poderá garantir uma posição de vantagem sobre os EUA. Essa ideia baseia-se na percepção de Moscovo de que pode ser vantajoso ter um maior número e variedade de sistemas não estratégicos numa crise e em situações de conflito”, lê-se.

“Os EUA não estão a lançar uma corrida às armas, estamos a responder a uma iniciativa russa”, afirmou Greg Weaver, vice-director de Capacidade Estratégica no Pentágono, citado pela Reuters.

Em Moscovo, o conteúdo da nova doutrina nuclear norte-americana foi visto com profundo desagrado. “Mesmo passando só os olhos pelo documento, é possível ver o tom confrontacional e anti-Rússia”, diz um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros divulgado pela agência Tass. “Lamentamos que os EUA usem a Rússia para justificar uma política de aumento maciço das armas nucleares.”

Especialistas em dissuasão nuclear norte-americanos frisam os problemas de apostar em armas nucleares para o campo de batalha. “Se pusermos bombas atómicas em mísseis de cruzeiro, como é que os russos vão saber se são convencionais ou nucleares?”, interrogou Jon Wolfsthal, especialista em controlo de armamento que aconselhou Barack Obama, em declarações à Reuters.

“Está a surgir uma desconexão perigosa entre os impactos horríveis do uso, ainda que limitado, das armas atómicas e a intenção de as usar, manifestada cada vez mais por líderes mundiais, num leque de cenários cada vez mais vasto”, avisou o analista Richard Clarke num artigo no Washington Post. “Se isto continua, o risco de que uma arma nuclear seja usada pela primeira vez em 70 anos – deliberadamente ou por acidente – vai aumentar.”