Crítica

A liberdade de imprensa é filme de época

Um gesto político de Spielberg — a silhueta de Nixon em The Post “é” Donald Trump —, algo que lhe escapou no seu tempo? Para se pôr de acordo com este tempo, hoje, ele utiliza o cinema dos 70s. Isto é, continua em dificuldades expressivas perante o “real” e atrapalha-se para forjar uma voz.

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The Post, pastiche do cinema paranóico dos 70s

Foi durante a Admnistração Nixon (1969-1974) que Spielberg, miúdo deslumbrado à procura de oportunidade por entre as ruínas do studio system, preparou a invenção do blockbuster (Tubarão). Enquanto o cinema americano era tomado pelas sombras, pela desconfiança irreversível das instituições, e se enchia de personagens cheias de malaise, não abrandando a solidão e a autodestruição, Spielberg estava ailleurs, olhava para o céu. As trevas do director de fotografia Gordon Willis engoliam Jane Fonda, Robert Redford ou Warren Beatty no canto de cisne do cinema adulto norte-americano — e foi o fim de uma certa aventura do espectador pelo mainstream. Mas a luz de Vilmos Zsigmond era um bálsamo para o homem-criança iluminado. Isto é: enquanto desfilavam Klute (1971), A Última Testemunha (1974) e Os Homens do Presidente (1976) — a “trilogia paranóica” de Alan J. Pakula —, e o cinema adulto norte-americano chegava ao fim com a demissão de Nixon, preparavam-se, anunciavam-se, Encontros Imediatos de Terceiro Grau (1977). Foi a estocada final, a oficialização triunfante de Spielberg e do espectáculo, o início do domínio daquilo que, por comparação com o que terminara, era encarado como “infantilização”  — sejamos claros ... Encontros Imediatos é uma obra-prima.

Não é de espantar, então, que no ciclo que a Cinemateca dedica em Fevereiro às personagens em crise dos 70s, o ciclo American Way of Life, não haja um título de Spielberg para amostra. E é irónico que precisamente nesta altura Spielberg chegue às salas com The Post, filme sobre um “episódio” da relação entre Nixon e a imprensa, concretamente as decisões, dúvidas e medos que enfrentaram Kay Graham (Meryl Streep) e Ben Bradlee (Tom Hanks) — proprietária e director do Washington Post, respectivamente — perante a publicação dos “papéis do Pentágono”, o relatório “classificado” sobre a intervenção no Vietname que provava que, de Truman a Nixon, todos tinham mentido.

Spielberg, enfim, protagonizando um gesto político — a silhueta de Nixon em The Post “é” Donald Trump —, algo que lhe escapou no seu tempo? Sim e não. Para se pôr de acordo com este tempo, hoje, utiliza o cinema dos 70s. Isto é, continua em dificuldades expressivas perante o “real” e atrapalha-se para forjar uma voz — há tanto de calculado e de forçado nas personagens, nos intérpretes e nas situações, que se falam de episódios reais denunciam sempre um  artifício. A política, a liberdade de imprensa, em The Post são um filme de época. Não só porque se passa nos 70s. Também porque é feito à maneira de.... pastiche do “cinema paranóico” (como se levasse à letra, mas sem ironia alguma, a declaração de Bob Woodward e de Carl Bernstein, os jornalistas que ajudaram a derrubar Nixon, quando disseram que Os Homens do Presidente, o último grande filme idealista sobre o jornalismo, passara a a ser a sua própria memória do Watergate). A última sequência de The Post, ensaiando uma síntese do início de Os Homens do Presidente, faz figura de outing (é por isso que até é a sequência mais libertadora, quase lúdica?) de um filme que afinal só se conseguiu posicionar reconstituindo —  a luz e as sombras de Gordon Willis como adereços que se vestem ou adaptam, os maneirismos de Jason Robards, intérprete da figura Ben Bradlee no filme de Pakula, à espreita como cábula de Tom Hanks...