Opinião

A Memoshoá, um projecto pioneiro

Será importante ainda hoje, 73 anos depois, “ensinar” o Holocausto?

Comemoramos hoje a libertação do Campo de Auschwitz-Birkenau a 27 de Janeiro de 1945 pelas forças soviéticas. Dado o seu carácter de símbolo do genocídio nazi, as Nações Unidas decidiram consagrar esta data como o Dia Internacional de Memória das Vitimas do Holocausto evocada em todos os parlamentos europeus, incluindo o de Portugal.

É pois sobre Portugal que irei falar nesta crónica: não sobre os refugiados do nazismo, nem sobre a política de Salazar, mas mais simplesmente a propósito um projecto português que tem hoje dez anos de vida. O seu nome é Associação Memória e Ensino do Holocausto – Memoshoá e foi fundado no seguimento de um seminário de formação em 2008 de perto de 30 professores portugueses na Escola Internacional do Yad Vashem, Instituto Nacional para a Memória e Educação do Holocausto em Jerusalém. Desde então esta formação tem lugar regularmente todos os anos, tendo abrangido até hoje uma média de 200 professores do ensino básico e secundário, de todo o território nacional e de todas as áreas de ensino, com especial incidência na disciplina de História.

Após esse seminário inicial, um grupo de professores decidiu organizar-se para dar seguimento a esse trabalho de formação dirigido aos professores, mulheres e homens em contacto diário e directo com jovens e adolescentes. Nasceu assim a Memoshoá, cuja principal função é contribuir para o ensino, conhecimento e investigação do Holocausto, através de acções de sensibilização, reflexão e formação, nacionais e internacionais. É ainda hoje a única instituição a nível nacional vocacionada para esta temática.

Actualmente verifica-se um interesse crescente sobre o Holocausto, bem patente na tradução e publicação de numerosos livros sobre o tema, na filmografia e nos media. Com cerca de 20 anos de atraso em relação à maioria dos países da Europa, hoje o interesse pelo tema é evidente. Mas não era assim há dez anos, principalmente nas escolas: nos manuais escolares, o tema era praticamente inexistente ou muito vago, tal como na formação académica dos professores de História. Incluir o estudo do Holocausto nas aulas de História ou eventualmente de Filosofia dependia quase exclusivamente da vontade e do interesse do docente.

Portugal não foi ocupado por Hitler durante a II Grande Guerra, nem sofreu as consequências directas do Holocausto no seu solo. Mas esta feliz circunstância histórica leva a que, praticamente, apenas a população judaica em Portugal tenha laços afectivos, memórias concretas e uma relação pessoal com as vítimas do genocídio nazi. Com efeito, quantos jovens em Portugal poderão dizer: “O meu avô contou-me...”? Obviamente bem poucos. Talvez por estas razões o Holocausto nunca foi objecto de debate público em Portugal como o foi, embora tardiamente, nos países ocupados pelo nazismo.

Assim, para a maioria esmagadora dos alunos o Holocausto era, e para muitos ainda é, um acontecimento de que ouviram falar na televisão, através de um ou outro filme, ou pela leitura do Diário de Anne Frank e pouco mais. Dito de outra forma, um acontecimento abstracto, visto frequentemente quase como ficção.

Mas hoje as coisas mudaram: o próprio Ministério da Educação desenvolveu os currículos escolares nesse âmbito, alguns manuais escolares também, o acesso das escolas e das suas bibliotecas a filmes e livros, especialmente diários de sobreviventes, aumentou significativamente, acompanhando o interesse do público. E, neste âmbito, o contributo da Memoshoá tem sido decisivo: para além de uma colaboração estreita com o Ministério da Educação através de um Protocolo de Cooperação assinado, e com a IHRA – International Holocaust Remembrance Alliance, nomeadamente com a sua representação em Portugal, a Memoshoá tem trabalhado desde a sua fundação com organizações internacionais congéneres de molde a poder beneficiar da sua experiência e também a transmitir a sua própria. Foram assim assinados protocolos de colaboração com a Escola Internacional do Yad Vashem e com o Mémorial de la Shoah com sede em Paris. Para além do intercâmbio pedagógico fundamental relativo ao ensino do Holocausto, o objectivo visa também o conhecimento e a reflexão sobre os diferentes contextos históricos nacionais e europeus.

Contando quase exclusivamente com o esforço e empenho voluntário de numerosos professores espalhados pelo país, a Memoshoá organiza anualmente seminários de formação nacionais e internacionais, um dos quais, denominado “Seminários sobre Rodas”, consiste em viagens de estudo percorrendo a Europa nos passos da Shoah, permitindo conhecer de perto a realidade do genocídio nazi. Recentemente, a associação criou um novo projecto, “A minha escola vai a Auschwitz”, organizando e guiando grupos de alunos e respectivos professores com esse fim.

Mas o foco da sua acção são os projectos das e nas escolas. Um exemplo da relevância destes projectos foi recentemente demonstrado pelo resultado do concurso nacional levado a cabo pela Memoshoá com o apoio do Ministério da Educação sob o tema “Contar o Holocausto”. Nele participaram 150 escolas do ensino básico e secundário de todo o país, continente e ilhas, num total de 743 alunos e 253 professores envolvidos de áreas tão diversas como História, Português, Artes, Filosofia, Geografia, Psicologia, Área de Integração, Moral, entre outras. O número de trabalhos enviados a concurso atingiu os 293, nos mais variados formatos e suportes: banda desenhada, quadros, esculturas, diários, poemas, website, videojogos, vídeos, peças de teatro, textos de ficção, ensaios... Muitos destes trabalhos revelaram uma grande qualidade, mas o mais importante é o facto de os alunos participantes terem trabalhado o tema durante meses, investigando e transformando o conhecimento adquirido numa obra.

Será importante ainda hoje, 73 anos depois, “ensinar” o Holocausto? Na verdade, como referiu Imre Kertész no seu discurso de atribuição do prémio Nobel em 2002: “O problema de Auschwitz não é o de saber se devemos manter a sua memória ou metê-la numa gaveta da História. O verdadeiro problema de Auschwitz é a sua própria existência e, mesmo com a melhor vontade do mundo, ou com a pior, nada podemos fazer para mudar isso.”

Não é fácil ensinar o Holocausto. Mas não é possível fazer de conta que Auschwitz não existiu. Infelizmente Auschwitz tornou-se, pela negativa, património da humanidade. E ensinar o Holocausto significa em primeiro lugar estudar e conhecer o que foi o genocídio nazi. Não há conhecimento através de slogans ou proclamações por mais bem-intencionadas que sejam. Por outro lado, num mundo pós-Holocausto e apesar da criação das Nações Unidas e da aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, os massacres e genocídios continuam. Na própria Europa, os sinais ameaçadores ensombram de novo o horizonte.

Assim, estudar o genocídio nazi naquilo que ele tem de único é indispensável, mas tão importante é procurar estabelecer análises comparativas de forma a conseguir reconhecer nas tragédias actuais algo da terrível continuidade que levou um regime a arrogar-se o direito de ditar o extermínio de todo um povo. No entanto, só se pode comparar o que se conhece e a ignorância é um terreno fértil para todo o tipo de ideias feitas, incluindo as falsas analogias ditadas por motivos politico-ideológicos. E essas, sim, existem infelizmente em abundancia...

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