Christian Petzold, Isabelle Huppert e Gus van Sant: Berlim começa a desenhar-se

Quinze longas-metragens estão já seleccionadas para a competição da 68.ª Berlinale, que decorre de 15 a 25 de Fevereiro e terá três curtas portuguesas em liça para o Urso de Ouro.

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Paula Beer, e Franz Rogowski em Transit © Schramm Film / Christan Schulz

Christian Petzold, o realizador alemão de Barbara e Phoenix, é o nome mais sonante das novas presenças na competição do Festival de Berlim, que decorrerá de 15 a 25 de Fevereiro próximo e abrirá com o novo filme de Wes Anderson, a animação Ilha dos Cães. Petzold apresentará em estreia mundial Transit, que rodou em Marselha e actualiza para os nossos dias o romance de Anna Seghers sobre os refugiados durante a Segunda Guerra Mundial, mas sem a presença da sua habitual “musa” Nina Hoss. São as mais recentes notícias do venerando festival alemão, que receberá este ano três curtas portuguesas na competição Berlinale Shorts, assinadas por João Salaviza e Ricardo Alves Jr. (Russa), João Viana (Madness) e David Pinheiro Vicente (Onde o Verão Vai).

O júri da 68.ª Berlinale, presidido por Tom Tykwer (realizador de Corre, Lola, Corre ou Cloud Atlas), tem para já 15 filmes a concurso, entre estreias mundiais e internacionais. Para lá de Transit, os mais aguardados são Don’t Worry, He Won’t Go Far on Foot, com o qual Gus van Sant procura “redimir-se” da recepção desastrosa a The Sea of Trees, dirigindo Joaquin Phoenix numa biografia do cartoonista quadriplégico John Callahan; e Eva, filme em que o veterano francês Benoît Jacquot dirige Isabelle Huppert como “mulher fatal” numa adaptação do romance homónimo de James Hadley Chase.

Também a concurso estará a italiana Laura Bispuri, cuja primeira longa de ficção, Virgem Prometida, causou sensação na Berlinale de 2015; o seu novo filme, sobre uma jovem presa entre a mãe biológica e a mãe adoptiva, chama-se Figlia Mia e tem de novo Alba Rohrwacher no elenco, ao lado de Valeria Golino. Da Rússia chega Alexei German Jr. com Dovlatov, biografia do escritor dissidente russo Serguei Dovlatov. Uma das surpresas da competição do certame é o regresso do alemão Philip Gröning, autor do documentário sobre a vida num convento cartuxo, O Grande Silêncio; o cineasta mostra agora uma ficção sobre o incesto, Mein Bruder heisst Robert und ist ein Idiot. A presença alemã a concurso, aliás, é bastante forte este ano, com quatro títulos entre os 15: para além de Gröning e Petzold, haverá filmes de Thomas Stuber (In den Gängen), Emily Atef (3 Tage in Quiberon).

O festival recebe também habitués como a polaca Malgorzata Szumowska (premiada com o Urso de realização em 2015 por Body), com Twarz, e o iraniano Mani Haghighi, com The Pig. Apresentam-se ainda a concurso as primeiras longas-metragens do paraguaio Marcelo Martinessi (Las Herederas) e da romena Adina Pintilie (Touch Me Not), bem como Damsel, um quase-western da dupla americana David e Nathan Zellner com Robert Pattinson e Mia Wasikowska, e The Real Estate, um filme híbrido entre a ficção e o documentário assinado a meias pelos suecos Måns Månsson e Axel Peterson. Fora de concurso estarão Black 47, sobre a Grande Fome irlandesa de 1847, de Lance Daly, e Eldorado, o novo documentário do suíço Markus Imhoof, autor de Abelhas e Homens.

Na secção paralela Panorama, destaque para o novo documentário do sueco Göran Hugo Olsson, autor de Black Power 1967-1975, A Respeito da Violência: That Summer, sobre o Verão de 1972 na comunidade artística nova-iorquina dos Hamptons, recorrendo a material de arquivo inédito. Receber-se-ão três documentários brasileiros — Zentralflughafen THF, em que o brasileiro radicado em Berlim Karim Aïnouz (Madame Satã) acompanha os refugiados instalados no aeroporto desactivado de Tempelhof; Ex-Pajé de Luiz Bolognesi, sobre a resistência ao desaparecimento de uma cultura amazónica, e Bixa Travesty de Claudia Priscilla e Kiko Goifman, sobre a artista transgénero Linn da Quebrada – e o novo filme do japonês Kiyoshi Kurosawa, que com Yocho regressa ao seu território do fantástico.

A Berlinale foi no final de 2017 alvo de um abaixo-assinado de 79 cineastas alemães solicitando um “novo rumo” para o certame, por considerarem estar Berlim a deixar-se ficar para trás em termos de escolhas ao longo dos últimos anos, e apelando a uma renovação e maior transparência do processo de selecção dos filmes. Dieter Kosslick, o actual director do certame, está em funções desde 2001 e abandonará o cargo após a edição de 2019, no termo do seu contrato com o Ministério da Cultura alemão; um novo director, ainda por anunciar, assumirá a direcção da Berlinale a tempo do 70.º aniversário, em 2020.