No aniversário da revolução, Governo tunisino anuncia reformas sociais para acalmar a população

Os protestos voltaram às ruas da Tunísia no início do ano por causa da subida dos preços que torna a vida da população cada vez mais insustentável.

Manifestação que assinala o sétimo aniversário da queda de Ben Ali, em Tunes
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Manifestação que assinala o sétimo aniversário da queda de Ben Ali, em Tunes EPA/MOHAMED MESSARA

A avenida Habib Bourguiba, no centro de Tunes, voltou este domingo a encher-se de bandeiras vermelhas e brancas, lembrando os tempos de contestação de 2011, que deram origem à primeira das “Primaveras Árabes”. No dia em se assinalou o sétimo aniversário da queda do ditador Ben Ali, o Governo tentou acalmar uma população cada vez mais desencantada e de bolsos vazios.

As novas medidas de aumento das prestações sociais surgem para tentar pôr fim a uma onda de protestos contra a subida generalizada dos preços. “Só alcançámos a liberdade de expressão depois da revolução de 2011, mas iremos continuar nas ruas até ganharmos os nossos direitos económicos, tal como temos hoje a nossa liberdade.” O sentimento dominante era resumido desta forma por Fouad, um docente universitário casado com uma professora que diz sofrer para conseguir gerir o salário até ao fim do mês, como explicou à Reuters.

Há mais de uma semana que várias cidades tunisinas têm sido palco de manifestações contra as políticas económicas do Governo, que entraram em vigor no início do ano. Algumas das acções de protesto tornaram-se violentas, transformando-se em autênticos motins – quase 800 pessoas foram detidas, acusadas de vandalismo, diz o Ministério do Interior.

O Governo tem tentado descrever as manifestações como acções organizadas pela oposição, culpando sobretudo a Frente Popular, de esquerda, de fomentar a violência. Há relatos de pessoas que incendiaram viaturas policiais e ataques a lojas e centros comerciais. Em Thala, perto da fronteira com a Argélia, o Exército foi chamado a intervir na sequência de ataques contra os escritórios da polícia.

Mas o próprio Executivo – uma coligação entre o Nidaa Tounès, que junta elementos do antigo regime e democratas, e o Ennahda, partido islamita moderado a caminho da secularização – parece reconhecer razão de ser aos protestos que têm tomado conta do país. Este domingo, como forma de tentar acalmar os ânimos, foi anunciado um conjunto de medidas de cariz social, que incluem um aumento das prestações sociais no valor de 170 milhões de dinares (57 milhões de euros). A medida irá abranger 250 mil famílias, garantiu o ministro dos Assuntos Sociais, Mohamed Trabelsi.

Com o mesmo intuito, o Presidente Beji Essebsi fez este domingo a sua primeira visita oficial ao bairro de Ettadhamen, um dos mais pobres da capital, onde também ocorreram vários protestos.

O preço da democracia

Resta saber se as iniciativas governamentais serão suficientes para restabelecer a confiança da população. Os protestos foram motivados pela subida dos preços dos combustíveis e de outros bens de consumo, para além do aumento dos impostos sobre os automóveis, telecomunicações e a Internet, previstos no orçamento. Estas medidas surgem num contexto de profunda crise económica na Tunísia, que parece estar a suportar sozinha os custos da democratização.

Depois da instabilidade causada pelos protestos de 2011 veio o terrorismo, que acabou por enterrar ainda mais o turismo, um sector crucial para a economia local. O desemprego é elevado, especialmente entre os jovens licenciados (30%), a inflação está nos 6%, com tendência para subir, a dívida pública atinge os 70% do PIB e a economia está estagnada. Em 2015, o Fundo Monetário Internacional interveio com um empréstimo de 2,4 mil milhões de euros e pede agora a aplicação de “medidas urgentes” para a redução do défice, levando o analista Béligh Nabli, do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, a questionar: “Teria o Governo alguma escolha?”

Com a revolução de 2011, os sindicatos ganharam finalmente o direito a fazer-se ouvir, depois de décadas de repressão, e os líderes democráticos passaram a “comprar a paz social”, diz ao Le Monde o analista do International Crisis Group, Michael Ayari. Foi assim que a massa salarial da função pública mais que duplicou entre nos últimos oito anos, provocando a subida acentuada da dívida.