Resposta a Catherine Deneuve: "Os porcos e os seus aliados estão inquietos?"

"Assim que a igualdade avança um milímetro sequer, almas bondosas alertam-nos imediatamente para o facto de que arriscamos cair em excesso", apontam.

LUSA/GUILLAUME HORCAJUELO
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LUSA/GUILLAUME HORCAJUELO

Numa carta aberta, publicada na terça-feira pelo Le Monde, personalidades como Catherine Deneuve defenderam que “a violação é um crime", mas que "o flirt insistente ou inconveniente não é um delito, nem o galanteio é uma agressão machista", classificado o movimento #MeToo como uma espécie de "puritanismo". Agora, várias feministas francesas responderam, num texto publicado no site Franceinfotv.

Assinado por 30 activistas, a primeira subscritora é a feminista Caroline De Haas. O texto critica fortemente os argumentos defendidos por Deneuve e tantas outras personalidades. "Esta carta é um pouco como o colega constrangedor ou o tio irritante que não percebe o que se está a passar", defendem as activistas francesas. "Assim que a igualdade avança um milímetro sequer, almas bondosas alertam-nos imediatamente para o facto de que arriscamos cair em excesso", aponta ainda num tom sarcástico, alertando que todos os dias em França acontecem "centenas" de casos de assédio sexual e violação.

"Os porcos e os seus aliados estão inquietos?", questionam em provocação. "É normal. O seu mundo velho está em vias de desaparecer – muito devagar, demasiado devagar, mas inexoravelmente. Algumas reminiscências poeirentas não mudarão nada, ainda que publicadas no Le Monde".

Em relação à questão do flirt, respondem: "As signatárias da carta confundem deliberadamente a relação de sedução, com base no respeito e prazer, com a violência".

Com o título Defendemos a Liberdade de Importunar, Indispensável à Liberdade Sexual, a carta aberta agora criticada foi assinada por cerca de 100 mulheres, entre escritoras, artistas e académicas. No seguimento do escândalo de assédio sexual de Hollywood – que despoletou a denúncia de inúmeros casos, como o de Kevin Spacey –, estas defendem que "aquilo que começou como algo que dá liberdade às mulheres para falar alto se tornou o oposto" e que agora "intimidamos pessoas a falar correctamente" e "gritamos com aqueles que não se metem na linha". Falavam inclusivamente de uma "caça às bruxas".

Outras personalidades, como a actriz Asia Argento – que acusou Harvey Weinstein de a ter assediado sexualmente, na década de 1990 – expressaram também a sua opinião relativamente à carta aberta. "Catherine Deneuve e outras mulheres francesas contam ao mundo como a sua misoginia interiorizada as lobotomizou de forma irreversível", escreve no Twitter.  A ex-ministra francesa da Igualdade, Laurence Rossignol, usou a mesma plataforma para condenar a carta, falando da "estranha angústia de já não existir sem o olhar e o desejo dos homens que leva as mulheres inteligentes a escrever grandes disparates".

Notícia corrigida: Asia Argento e não Asia Argentina como estava escrito