Opinião

Fogo, fúria, raiva e vazio

O problema, agora, é que nem Santana nem Rio querem confundir-se com a herança do anterior líder mas, ao mesmo tempo, não sabem como desembaraçar-se dela.

Enquanto as camadas mais pobres e jovens da população iraniana se levantavam, num movimento sem líderes, contra a tirania religiosa que provoca o empobrecimento insustentável do país, mas sem vislumbrarem, para já, uma saída e uma resposta consequentes para a sua raiva, podíamos encontrar, noutras latitudes, exemplos de uma tendência crescente através do mundo: em maior ou menor grau, com mais ou menos turbulência, vivemos uma era de inquietante vazio político. Um desses exemplos traduz-se na polémica levantada pelo livro Fire and Fury: Inside the Trump White House, do jornalista Michael Wolff. O outro é a crise de liderança em que se encontra o (ainda) maior partido português, agora em foco depois do primeiro debate entre os dois candidatos à presidência do PSD, Rui Rio e Santana Lopes. São meras coincidências temporais, é certo, mas cada uma delas ilustra, à respectiva escala, situações desse vazio político que se vai avolumando no mundo contemporâneo.

Não se antevê, no Irão, uma alternativa ao actual regime face ao tumulto quase sem precedentes em que se encontra o Médio Oriente. Já a Casa Branca, que tem sido até hoje a principal sede política do poder internacional, parece ter-se convertido num autêntico manicómio, em que o presidente Trump se vê enredado no frenesim esquizofrénico das disputas com antigos ou actuais colaboradores mais próximos, mas sem que também aí se vislumbre uma porta de saída nos tempos mais próximos. Finalmente, o psicodrama doméstico da futura liderança social-democrata parece prenunciar um desequilíbrio grave do nosso sistema político, tendo em conta o centro de gravidade ocupado pelo PSD. Aliás, como mostrou a recente controvérsia sobre o financiamento partidário, os sintomas de desorientação que corroem a nossa democracia ameaçam alastrar, por mais pedidos de reinvenção que faça o presidente Marcelo.

O primeiro debate entre Rui Rio e Santana Lopes destacou-se pela predominância das quezílias pessoais – onde Santana saiu favorecido – sobre as ideias ou projectos políticos, em que os candidatos se neutralizaram mutuamente na vacuidade. Nada disto é propriamente original nos nossos debates políticos e basta lembrar aquele que opôs António Costa a António José Seguro para concluir que os azedos choques de personalidades tendem infelizmente a triunfar sobre a substância política dos confrontos. Só que o problema, agora, é o esvaziamento ideológico e programático do principal partido de oposição, com o "flou" do pensamento político a ser mascarado pelas características pessoais dos candidatos (ou aquilo que presumimos acerca deles, tendo em conta os seus percursos passados e as marcas das respectivas personalidades: um Santana errático mas mais empático e cosmopolita versus um Rio aparentemente mais firme mas de perfil autocrático e provinciano).

Como já aqui referi, o PSD tem um velho problema de identidade que herdou do seu código genético dos tempos de Sá Carneiro: querer ser um partido social-democrata mas sendo, no fundo, um partido liberal de centro-direita. Não por acaso, o próprio Santana tem reivindicado a hibridez da sigla PPD/PSD, sublinhando com isso a dupla personalidade do partido. Ora, essa hibridez é partilhada, embora não claramente assumida, pela maioria dos seus militantes e dirigentes – tendo ficado definitivamente marcada na ideologia e na acção política pelo consulado de Passos Coelho. O problema, agora, é que nem Santana nem Rio querem confundir-se com a herança do anterior líder mas, ao mesmo tempo, não sabem como desembaraçar-se dela. Daí o vazio político que ambos enfrentam numa disputa que tenderá a fazer sobressair, como vimos, os conflitos pessoais.