Peña Nieto deixou o México afundar-se na violência do narcotráfico

Em 2017 a taxa de homicídios bateu o recorde histórico, devido à fragmentação dos cartéis, que beneficiou da cultura de impunidade e corrupção.

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Protesto contra a nova Lei de Segurança Interna, que militariza a luta contra o crime Carlos Jasso/REUTERS

Com uma média de 80 mortes por dia, ou 2400 por mês, o México atingiu no ano de 2017 o número recorde de homicídios desde que esses números começaram a ser coligidos, há 20 anos. Até ao final de Novembro, foram assassinadas 26.573 pessoas – uma contabilidade negra à qual terá de se adicionar ainda os valores do mês de Dezembro. Espera-se o total anual ultrapassa os 27.199 mortos registados em 2011, o ano mais sangrento da guerra contra o narcotráfico.

Os números a todos os títulos extraordinários da violência no México (mais de 200 mil mortos, cerca de 30 mil desaparecidos desde 2006) põem em causa a política de segurança seguida pelo Presidente Enrique Peña Nieto. Foi eleito em 2012 com a promessa de pôr termo ao derramamento de sangue provocado pela guerra aberta pelo seu antecessor, Felipe Calderón, que mobilizou o Exército para combater os cartéis da droga. No auge do conflito entre os militares e os traficantes, em 2011, a taxa de homicídio do México fixou-se nos 19,4 por 100 mil habitantes.

A taxa de homicídio, calculada pelo site Animal Politico com base no número de investigações abertas pelas autoridades mexicanas por suspeita desse crime, desde o início do ano, está nos 18,7 por 100 mil pessoas – já é superior ao anterior recorde de 17,8 casos por 100 mil pessoas de 2011.

Os números oficiais do Ministério do Interior até ao início de Dezembro fazem crer que 2017 ficará na história do México como o mais violento de sempre. O número de vítimas de homicídio entre Janeiro e Novembro representa um aumento de 27% face ao período homólogo do ano passado. 

Como uma nação em guerra

“Decapitados os grandes cartéis, a atomização de grupos de crime organizado provocou uma nova lógica violenta, protagonizada por uma galáxia de pequenas células autónomas que, além do mais, estenderam a actividade das suas redes a outro tipo de delitos: extorsão, roubos, tráfico de seres humanos”, escrevia o jornal El País, num texto sobre 2017, “o mais violento dos últimos 20 anos” no México.

Para o analista do International Crisis Group Froylán Enciso, “a subida da taxa de homicídios no México é um reflexo das políticas de segurança mal concebidas, da fragmentação e competitividade das organizações criminosas e da diversificação das actividades ilegais desses grupos. E tudo isso é sustentado por uma cultura de corrupção e impunidade, de alianças entre criminosos e dirigentes políticos ou funcionários públicos, e por um contexto de profunda disparidade política e económica entre a elite nacional e a maioria da população”.

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Presidente Peña Nieto: a subida da taxa de homicídios no México é um reflexo das políticas de segurança mal concebidas, dizem analistas Edgard Garrido/REUTERS

Além dos homicídios associados ao narcotráfico, também aumentaram os registos de mortes atribuídas a violência doméstica ou contra mulheres (mais de 1500 processos foram abertos por feminicídio este ano). Aliás, de forma geral, o México experimentou uma “intensificação” da criminalidade em 2017: o número de roubos violentos cresceu 37,5%, as agressões com arma de fogo aumentaram 37% e os crimes de extorsão subiram 10%.

“Os novos grupos conseguem maiores lucros com raptos e extorsão, que são crimes que não exigem a logística necessária para o tráfico de droga”, notou ao The Guardian o professor do Centre for Teaching and Research in Economics, Brian Phillips.

Apesar de outros países latino-americanos, como a Venezuela ou o Brasil, terem taxas de homicídio superiores à do México, o londrino International Institute for Strategic Studies classificou o país como o segundo mais violento do mundo, atrás da Síria e à frente do Afeganistão, Iémen e outras nações em guerra.

Na ausência de El Chapo

É verdade que durante o seu mandato, Enrique Peña Nieto – que já não será candidato nas próximas presidenciais de 2018 – coleccionou importantes vitórias contra os grandes cartéis da droga. A acção mais espectacular foi a detenção e extradição de Joaquín El Chapo Guzmán, o chefe do poderoso cartel Sinaloa. Mas a aposta na eliminação das lideranças dos grupos criminosos não contribuiu para a sua erradicação, antes levou à sua divisão em facções mais brutais – e, como sublinham vários analistas, conduziu ao agravamento da corrupção nas instituições do Estado.

fragmentação dos grandes cartéis do narcotráfico após a detenção de algumas das suas principais figuras e dispersão do crime organizado é apontada como a grande causa para este acréscimo da taxa de homicídio a nível nacional. O estado de Jalisco, na costa Oeste do México, é uma das regiões onde a taxa de homicídio mais cresceu em 2017: por dia, há mais de cinco homicídios, uma “novidade” que pode ter a ver com a actividade do Jalisco Nova Geração, o mais recente (e mais perigoso) grupo de narcotraficantes mexicanos. 

Outros pontos do país onde a taxa de homicídios disparou foram os estados mais turísticos de ambas as costas mexicanas: Baja California Sur, onde se situa a estância balnear de Los Cabos (mais 223%), e Quintana Roo, onde ficam as conhecidas praias de Cancún e Playa del Carmen (mais 108%).

Os estados onde o número de mortes violentas registou a subida mais dramática foram aqueles onde se instalaram os novos grupos. Em Colima, na costa do Pacífico, os homicídios em 2017 aumentaram 368% face a 2015. É aí que se está a travar a guerra que opõe o velho cartel Sinaloa ao mais recente grupo Jalisco Nova Geração, especializado na produção e tráfico de drogas sintéticas (meta-anfetaminas) e que foi a organização criminosa que mais cresceu no México, “aproveitando” a luta pela liderança do cartel Sinaloa entre os filhos de El Chapo e um dos seus homens de mão, Dámaso El Licenciado López.

Militarização

Num sinal de que a sua estratégia contra o narcotráfico não resultou, o Presidente mexicano acabou por adoptar a receita de Calderón, fazendo aprovar uma nova lei de segurança interna que formaliza a militarização da segurança pública, estendendo definitivamente ao Exército as funções das forças policiais no combate aos traficantes. “Em muitas partes do país, os confrontos entre membros de diferentes grupos armados tornaram-se um acontecimento quotidiano”, justificou Peña Nieto.

Mas a nova lei mereceu críticas do alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad Al-Hussein, que lembrou que “muitas violações e abusos desses direitos continuam a ser cometidos no México, tanto por agentes estatais como por outros actores”.

Andrés Manuel López Obrador, o líder do Morena (esquerda) que lidera as sondagens para a votação presidencial, não descarta a possibilidade de dialogar com representantes dos grupos criminosos para acordar uma amnistia que permita reduzir a violência. “Precisamos de dialogar e precisamos de nos esforçar para acabar com esta guerra e garantir a paz. As coisas não podem continuar como estão”, disse o candidato da num comício no estado de Hidalgo, segundo o jornal La Reforma. López Obrador não explicou em concreto qual seria a sua proposta de amnistia – uma ideia que dois terços dos mexicanos desaprovam.

Os homicídios remetem também para a esfera política, como demonstram as mortes violentas de três políticos de Jalisco em três semanas consecutivas. Os três homens exerciam cargos públicos e eram candidatos nas eleições do próximo mês de Julho em três localidades vizinhas, próximas do conhecido ponto turístico de Puerto Vallarta.

Saúl Galindo, deputado do Partido da Revolução Democrática, de centro-esquerda, e candidato a líder da autarquia de Tomatlán, foi abatido a tiro na última quinta-feira. A 9 de Dezembro, fora morto Miguel García González, coordenador do Morena. As autoridades não deram explicações sobre os crimes – no México, a taxa de homicídios que permanecem por esclarecer é de 96%.

O corpo do ambientalista Salvador Magaña, coordenador político do partido Movimento Cidadão, foi encontrado na véspera de Natal, abandonado numa borda de estrada, com vários golpes e punhaladas. Em Novembro, o activista tinha denunciado nas redes sociais um alegado esquema de compra de votos pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI), do Presidente Enrique Peña Nieto.