Filho de “El Chapo” alvo de rapto que reacende guerra entre cartéis mexicanos

Seis pessoas sequestradas em restaurante de Puerto Vallarta estavam ligadas ao narcotráfico, dizem as autoridades, que temem uma nova espiral de violência.

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O restaurante de luxo La Leche, em Puerto Vallarta, onde aconteceu o rapto AFP

Ivan Guzmán, filho do narcotraficante Joaquín “El Chapo” Guzmán, recapturado pela polícia mexicana no início de 2016, depois de ter fugido da prisão através de um túnel, pode estar entre as seis pessoas raptadas num luxuoso restaurante da estância turística de Puerto Vallarta na madrugada de terça-feira, no que está a ser investigado como um acto de guerra entre cartéis de tráfico de droga.

Determinar a identidade das pessoas sequestradas está a ser difícil, apesar de os carros de luxo que usaram terem sido deixados à porta, porque usavam identificações falsas. Ainda assim, as autoridades determinaram que três delas são do estado de Sinaloa, dois de Nayarit e uma de Jalisco, o estado onde fica Puerto Vallarta. Dez outras pessoas, entre as quais nove mulheres, acompanhavam o grupo mas não foram raptadas.

Os sequestradores entraram no restaurante La Leche, todo decorado em tons de branco, com uma sala privada chamada “La Nata”, já depois da hora de fecho, para lá da meia-noite. Raptaram o que parecem ser líderes criminosos e os seus guarda-costas – ninguém apresentou queixa à polícia pelo rapto, assegurou o procurador-geral do estado de Jalisco, Eduardo Almaguer. A investigação centra-se sobre “grupos criminosos que têm actuado recentemente em Jalisco”, explicou, sem identificar nenhum cartel.

No entanto, vários media mexicanos noticiam que os raptados estarão ligados ao cartel de Sinaloa – aquele a que pertence “El Chapo”. Nenhum deles era um simples turista.

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"El Chapo" Guzman, na altura da prisão, em Janeiro de 2016 Henry Romero/REUTERS

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Recentemente, a violência relacionada com o narcotráfico voltou a subir no México. Em Maio, foram abertas 1716 investigações por homicídio, a nível nacional – mais 212 casos do que no mês anterior, noticiou o El País espanhol, embora estes números não reflictam com precisão a realidade. “Em 21 dos 32 estados houve um aumento dos casos”, disse a este jornal Alejandro Hope, um analista de segurança da Cidade do México.

Tanto assim é que, no início do mês, foi anunciado o regresso dos militares para fazer a segurança a Ciudad Juárez – palco de uma guerra entre cartéis rivais, o de Sinaloa e Juárez, e da política dura do anterior Presidente, Felipe Calderón – que fez com que já fosse considerada a considerada a cidade mais violenta do mundo. Teme-se uma nova guerra entre cartéis, por causa do colapso do de Sinaloa.

Fraqueza de Sinaloa

Um dos focos de aumento da violência foi o estado de Jalisco – entre Abril e Maio, passou de 82 para 120 casos de homicídio investigados pelas autoridades. É sempre o enfraquecimento do cartel de Sinaloa, a principal estrutura criminosa do México, após a prisão de "El Chapo", que é apontada como origem desta nova explosão de violência. Enquanto "El Chapo" aguarda extradição para os EUA numa prisão de Ciudad Juárez, outros chefes do cartel lutam entre si pela supremacia.

A mãe de Joaquín “El Chapo” Guzmán teve de ser levada de sua casa recentemente, por se recear que estivesse em perigo, como vítima colateral nesta guerra. E agora, o filho de “El Chapo”, Ivan Archivaldo Guzmán, que assumiu o controlo de parte dos negócios do pai – considerado “o mais icónico traficante de droga dos tempos modernos” – pode ter sido raptado no âmbito da guerra. Segundo a Associated Press, o jovem Guzmán tem irritado aliados do seu próprio pai.

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Rapto encomendado por ex-amigos ou obra de novos inimigos: a nova força emergente no mundo do narcrotráfico é o cartel Jalisco Nueva Generación, que se está a expandir rapidamente também para outros estados, ocupando espaços deixados vagos por outras organizações criminosas, e está a fazer ligações internacionais, diz o El País, de forma a ser considerado o mais perigoso cartel mexicano da actualidade.

“O cartel de Sinaloa está muito enfraquecido e os Cavaleiros Templários foram praticamente desmantelados. O grupo de Jalisco foi ocupando os vazios geográficos na zona de fronteira entre Michoacán e Jalisco, e estão a instalar laboratórios de metanfetaminas provenientes da Ásia”, disse ao diário espanhol Raúl Benítez Manaut, especialista em temas de segurança.

Segundo vários analistas mexicanos, as suspeitas sobre a autoria do rapto concentram-se numa empresa de segurança, denominada Segmex, cuja actividade criminosa foi revelada em Março, quando foi detido o líder de um grupo que trabalhava com o cartel de Jalisco, diz o blog V Poder. O que oferecia era emprego como segurança, o que na verdade fazia era recrutar homens de mão para o cartel, que recebiam treino com armas de fogo em Puerto Vallarta.