Reportagem

Um Natal com Marcelo: “Não tenham medo de dizer afecto. Ou amor”

Em Pedrógão, no primeiro Natal depois de tudo, Marcelo foi o pastor. Quis olhar para a frente e “recriar a vida”. Mas ainda foi das almas que acabou a tratar.

Fotogaleria
LUSA/PAULO NOVAIS
Fotogaleria
LUSA/PAULO NOVAIS
Fotogaleria
LUSA/PAULO NOVAIS
Fotogaleria
LUSA/PAULO NOVAIS

Os discursos passavam e a pequena Bárbara não largava a mão do Presidente. Filha de um dos familiares das vítimas de Pedrógão, a miúda de sete anos, de pele branquinha e cabelos louros, percorria os olhos azuis pela sala, pacientemente, reconfortada. Mas então chegou a vez do Presidente falar - e o Presidente levou a pequena consigo.

Acontece que as mãos de Marcelo também falam. E à medida que se mexiam com as palavras, as da pequena Bárbara voavam com as dele. Sem interromper o discurso, percebendo subitamente que tinha a pequena agarrada aos seus dedos, Marcelo pousou as duas mãos na cabeça dela. E Bárbara sorriu, deliciada, de cabeça voltada para ele.

“A minha presença aqui traduz a presença de todos os portugueses. Todos me pediram para estar presente - mesmo os que não me pediram. Ainda ontem à noite me disseram no Barreiro: ‘leve um abraço’”. E Marcelo levou (à letra). Beijos e abraços. E os afectos: “Não tenham medo de dizer afecto. Ou amor”, disse o chefe de Estado.

“Não esquecerei o que vivemos. Não parecem seis meses, parecem uma eternidade para quem os viveu”. A tragédia deixou marcas - nas casas, algumas já recuperadas; nas florestas, ainda pretas até ao horizonte nos deixar ver; e nas almas, sabe-se lá até quando, até onde. “É uma saudade muito dolorosa”, reconhecia Marcelo, depois de andar passo a passo a distribuir uma palavra por cada familiar, por cada vítima presente.

“Hoje é o dia de agradecer ao sr. Presidente”, disse Nádia Piazza, repetindo a palavra que só não estranhamos naquele sotaque brasileiro. “Ele tem o que de mais rico e nobre uma pessoa pode dar: o amor”.

Numa sala pequena mas cheia, com lágrimas de dor e sorrisos de muita esperança, Marcelo deu força e uma determinação para o futuro. Bastaram três palavras: “Recriar a vida”. Aparentemente, nunca tinham estado tantas pessoas em Nodeirinho como neste Natal. Com o Presidente, com os familiares das vítimas, com os convidados, com os jornalistas. A tentar recriar a vida.

Não deixar as coisas vazias

Por esta altura, a dos discursos, já Marcelo tinha plantado um sobreiro no quintal da nova casa. Pegando numa pá, deitando terra para preencher o buraco, e depois dando essa mesma pá ao próximo. Nem o bispo escapou: “O D. Virgílio está ali! Venha de lá dar o seu contributo!”

Em Nodeirinho houve um Presidente a tentar tapar o vazio. Ora olhando os envelopes mal dobrados com as contas de um homem de 72 anos, a quem faltaram 1400 euros de apoio. Ora fazendo rir uma senhora, já bem acima dos 80 anos de vida. Ora distribuindo aquela atenção: “Não a quero é triste. Há bocado estava triste”.

O primeiro Natal depois de tudo só podia ser triste. E os jornalistas perguntavam a Nádia Piazza, a mulher que perdeu um filho de cinco anos na EN236-1: “O que é que lhe vai pela alma?”. E Nádia, a mulher que teve a força de juntar as famílias das vítimas e lançar um projecto que vai preparar 25 aldeias do país para dar resposta a catástrofes destas, respondia assim: “Vai tudo e não vai nada. É Natal, temos que respeitar o tempo das coisas. É um dia muito vazio, e nós tentamos, estando juntos, não deixar as coisas vazias.” E chorava.

No primeiro dia da sua nova vida, Nádia não deixou pedra sobre pedra: criticou o Governo, criticou os poderes públicos e prometeu “ser uma voz incómoda”. Ela que deixou governantes e autarcas pendurados, à espera de um convite para inaugurar a sua sede - e para a oportunidade de uma foto com o Presidente.

Seguir o apóstolo

Um dos que não receberam o postal foi Tomás Correia. O presidente do Montepio, agora eleito presidente da Assembleia Municipal de Pedrógão Grande, nas listas do PS, foi mesmo assim o primeiro a aparecer na etapa de Natal do Presidente da República. Eram 10h30 quando apareceu na Igreja Matriz, no centro da vila. A essa hora, ainda antes dos sinos tocarem durante cinco minutos para chamar para a missa, só havia gente naquele café que não mudou de nome: “Tudo na brasa”.

Mas estava frio o dia de Natal em Pedrógão. E só aqueceu na hora marcada, às 11h30, quando a Igreja se encheu para cantar em uníssono a missa. Na alegria e na tristeza ou, como dizia o bispo de Coimbra, para lutar contra as “trevas interiores”. A tradição demorou uma hora. E acabou com meia vila junto do altar. Um beijo ao Jesus, dois ao Presidente - ou um passou-bem, consoante o género. E sempre com muitos “obrigados” à mistura.

A saída demorou-se, porque Marcelo, também ali, não quis deixar ninguém sem uma palavra. “As pessoas são muito calorosas”, dizia depois aos jornalistas, quando deixou o apelo que tinha guardado para marcar os noticiários: “Na próxima Primavera, no próximo Verão, é importante as pessoas virem cá. Assim contribuem para esta mudança, para reconstruir o futuro. Isso dá calor a quem cá está, mexe com a economia, mexe com a sociedade”. Fazer como ele, portanto: “Sobretudo em 2018. Porque, engrenando no próximo ano, já engrenou”.

Mas houve quem se antecipasse ao pedido. Se o Presidente vai de Lisboa para Pedrógão celebrar o Natal, porque não fazer caminho de Famalicão até lá? “Achávamos que devíamos vir cá hoje”, explicou um casal ao Presidente. Que aproveitou o exemplo à sua maneira: “As pessoas são muito calorosas, muito solidárias entre si”. E agora “vão começar a construir, partir para um futuro diferente. É o que vai acontecer, é o que já está a acontecer - felizmente com o apoio de toda a gente”.

A reconstrução das almas

O mais difícil é a reconstrução das almas. “É um lado que demora. Uma saudade que é dolorosa, que depois é triste. Exige presença constante, das instituições, da Igreja, do Governo. O espírito é sempre mais difícil de refazer”, reconheceu o Presidente, justificando assim aos jornalistas a sua opção de rumar à área da tragédia, até no dia em que todos se dedicam à família. “É não esquecer. É estar presente”.

Sem trenó, sem as barbas de Pai Natal, Marcelo carregou essa missão. Em Pedrógão, como em Nodeirinho. E, depois disso, em Figueiró dos Vinhos, para um concerto de Natal em homenagem às 64 pessoas que naquela noite, naquela madrugada de Junho, perderam a vida. Acabou o seu dia a jantar com os bombeiros em Castanheira de Pêra, a quem fez questão de agradecer tudo o que fizeram naquelas horas.

Este foi o Natal do Presidente, o Natal em que pouco tempo deixou para os seus mais próximos - depois de ter passado a véspera entre uma visita à casa da Raríssimas na Moita e uma festa da “ginginha" no Barreiro”. “Ele fez a ceia com a família e veio para cá. Acho que dormiu no hotel na montanha. Espero que não se tenha lembrado de ir dar um mergulho à barragem”, brincava Valdemar Alves, o autarca a quem às vezes Marcelo liga sem pré-aviso e diz: “Estou quase a chegar aí. Vamos tomar um chá?”

P24 O seu Público em -- -- minutos

-/-

Apoiado por BMW
Mais recomendações