“Rajoy está morto e foi Arrimadas que o matou”

Para Fernando Vallespín, especialista em teoria e pensamento político e presidente do Centro de Investigações Sociológicas entre 2004 e 2008, as próximas eleições em Espanha deverão ser legislativas.

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ERIC GAILLARD/REUTERS

A “utopia do independentismo” esvaziou-se quando as empresas começaram a abandonar a Catalunha e Madrid impôs sem resistência o artigo 155, diz Fernando Vallespín, catedrático de Ciência Política na Universidade Autónoma de Madrid. Diz-se “pessimista” face às eleições autonómicas desta quinta-feira na Catalunha, onde “o voto se decide em função de preferências identitárias e não políticas”.

As sondagens antecipam uma governabilidade difícil a partir de Janeiro.
Não há muito a dizer. Estamos numa situação de empate, perante duas estratégias de hegemonia, a dos independentistas e a dos unionistas. Depois, dentro destes campos, [Oriol] Junqueras [ERC] tenta bater [Carles] Puigdemont [PDeCAT, concorre com a lista Juntos pela Catalunha] e este quer ganhar-lhe votos. No lado unionista parece claro que os Cidadãos vão ficar muito à frente, não se sabe bem ainda o que se passará com o PSC [Partido dos Socialistas da Catalunha] e o mais interessante é o resultado do PP [Partido Popular, de Mariano Rajoy, no poder em Madrid], que será absurdo.

Iñaki Gabilondo dizia nas suas crónicas vídeo do El País que vamos ter uma situação em que “Mariano é I de Espanha e VII da Catalunha”.
O mais provável é que deixe rapidamente de ser I de Espanha também e essa será uma das consequências de umas eleições em que muito possivelmente a relação de forças no parlamento se vai alterar pouco. Se os independentistas conseguirem de novo a maioria precisando dos deputados da CUP vão insistir que têm a maioria social para construir um país, o que é mentira. E vai voltar a aplicar-se o [artigo] 155 [da Constituição, que permitiu a Madrid dissolver o parlamento e a Generalitat e governar a Catalunha].

Já se fez bastante autocrítica entre os independentistas à forma como se conduziu o processo, com excepção da CUP (Candidatura de Unidade Popular).
Muitos independentistas estão a favor de um processo mais pensado. Mas ninguém vota por preferências políticas, o voto é decidido em função de preferências identitárias. Claro que em algum momento vai ter de voltar a governar-se. A Catalunha está há anos sem governo, entregue a este desatino do independentismo. Sou pessimista. Com os processos judiciais em marcha, um auto-exilado [Puigdemont], o outro na prisão [Junqueras], muitos mais implicados, tudo se complica. É difícil que enquanto isto se passa se chegue a um acordo de governo e haja alguma normalização. Por tudo isto, seria mais simples se vencesse o Cidadãos, ainda que não seja fácil formar governo desse lado.

O mais certo é que o bloco independentista vença, com ou sem maioria.
Sim. E o sensato seria que os seus líderes dissessem ‘necessitamos de uma reflexão, temos de fazer alguma marcha atrás e resolver os problemas urgentes; por um lado, os processos judiciais; por outro, os problemas mais graves da economia, por isso vamos adiar a questão da independência, não é uma desistência, é um adiamento táctico’. Isso teria lógica.

Mas a pressão de parte da sociedade não vai parar. Os jovens que gritaram “traidor” quando Puigdemont admitiu convocar eleições em vez de declarar a independência não desistem.
Sim, mas não são a maioria. Veja-se o absurdo de tentar montar uma república onde nem sequer metade dos cidadãos está de acordo com isso. Como é que vais governar um país novo assim? É uma loucura, mas já se sabe que de vez em quando os povos enlouquecem.

A ideia da maioria social é um mito nunca provado. Mas umas eleições autonómicas não são um referendo. Por mais difícil que fosse organizar um referendo negociado, essa não é a única forma de saber quantos catalães querem ser independentes?
Mas eles agora também não querem o referendo, sabem que perderiam. O que querem é acções repressivas por parte de Espanha, agora que o independentismo começa a esvaziar-se. O movimento sempre andou a par da economia. Cresceu com a crise e começou a cair com as melhorias. Se olharmos para as curvas vemos que vão em paralelo. Precisavam de repressão e quase o conseguiram com o [referendo de] 1 de Outubro. O problema é que só houve dois feridos [Generalitat, autarquia e serviços de saúde falam em mais de mil, dois deles graves, incluindo um que perdeu uma vista, atingido por uma bala de borracha] e Puigdemont não pôde ir visitar hospitais. Ele precisava disso, melhor ainda com tanques. Mas depois [da declaração de independência, a 27 de Outubro] veio o 155 e a gente ficou em casa.

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Essa segunda-feira, com toda a gente à espera que os conselheiros fossem trabalhar e pudessem ser detidos, Puigdemont a aparecer em Bruxelas, poucos a sair à rua… Foi um enorme anticlímax.
As pessoas estão fartas. São muitos anos à espera de algo que não chega, com os dirigentes a tentarem convencer os não independentistas com dúvidas que a sua narrativa é a realidade. Que Espanha não é uma democracia, que a Catalunha não tem autonomia, com as competências que tem… Nada disto encaixa no que o direito internacional prevê. Nem sequer se proíbe a língua, o catalão é a língua veicular, o que não é possível é escolarizar um filho em castelhano. E toda a narrativa assentava numa utopia.

O futuro brilhante impossível em Espanha.
Sim, uma Dinamarca no Sul. Essa ideia teve muito impacto, sobretudo entre os jovens que se vêem sem futuro e de repente acreditaram na possibilidade de melhorias sociais, com leis que já não são concebíveis na Europa actual. As pessoas mais à esquerda a sonhar com uma república popular, as elites tradicionais a ver-se como embaixadores em Washington e Paris. A verdade é que quanto muito seria uma colónia da China, uma espécie de Singapura ora dentro ora fora da Europa, um paraíso fiscal. Não é este o modelo de sociedade que os catalães têm no seu imaginário.

Apesar da situação de empate técnico entre blocos há a incógnita dos socialistas, com Miquel Iceta a garantir que se os unionistas tiverem maioria será ele o presidente e não Inés Arrimadas, do Cidadãos. Apoiar Arrimadas seria desastroso para o PS nacional.
Claro. Se Iceta tivesse um resultado melhor do que aquele que as sondagens antecipam e se unisse a [Xavier] Domènech [candidato do Catalunya en Comú, o movimento do Podemos local], aí sim, poderia haver um bloco não independentista com capacidade para governar de forma diferente, mas isso é quase impossível que aconteça.

Uma vitória do Cidadãos mudaria a política espanhola?
Simbolicamente seria muito, muito importante, mesmo se Arrimadas não puder governar. Enfim, pode sempre haver surpresas nestes processos. Agora mesmo o que sabemos é que o independentismo está mobilizado a 100%, o outro lado não. E falta saber o que vai acontecer com os indecisos, que são mais de 27%. Creio que são novos eleitores. Jovens, que votam independentismo, saem das escolas já com essa ideologia, e quem não vota habitualmente, gente habitualmente mais opaca, que tende a optar por uma postura mais conservadora.

Gente que vai votar Cidadãos e não PP. Vamos ter legislativas mais depressa do que Rajoy gostaria?
Sim, de certeza. Rajoy está morto e foi Arrimadas que o matou. Com isto é que ele não contava, aplica o 155, diz que está a salvar a Catalunha e vai ter um resultado miserável. De certa forma, é um paradoxo maravilhoso, ele que sempre foi passivo em relação à Catalunha para ganhar votos noutras zonas de Espanha quando finalmente é assertivo acaba esmagado pela própria Catalunha. Rajoy está morto, mas os socialistas não estão melhor e o Podemos também não soube colocar-se bem nesta disputa.

Já demos Rajoy como morto algumas vezes. E depois lá está ele, de novo presidente.
Sim, vai tentar aguentar-se, não se vêem livres dele facilmente. Mas é um pato coxo, já não pode aspirar a ser presidente do Governo. E [Albert] Rivera [líder do C’s] também não me parece ter perfil para liderar o país. Arrimadas tem carisma, chega às pessoas, Rivera não. Se o PP fosse inteligente tentava encontrar alguém com um perfil diferente. O que se avizinha é a possibilidade de uma vingança maravilhosa dos cidadãos contra o PP, contra a corrupção. Quem não tinha alternativa para não votar à esquerda agora pode vingar-se de consciência tranquila, votando Cidadãos.