Editorial

No lugar do outro

Ao fim de mais de três horas de audição no Parlamento, cabe-nos fazer a Vieira da Silva justiça de dizer que é precipitado culpá-lo pelo que aconteceu.

É fácil, na política como no futebol, julgar um treinador depois de conhecer uma derrota. É fácil também julgar uma decisão de um árbitro depois de vermos a repetição da jogada. Da mesma forma que é tentador, agora, concluir que Vieira da Silva falhou por não intervir no caso da Raríssimas. 

Ontem, no Parlamento, Vieira da Silva reconheceu que a polémica o colocou “numa posição de particular sensibilidade”. E sabe que as denúncias feitas pela reportagem da TVI deixam o seu ministério sob necessário escrutínio público. É assim que deve ser. Mas a nós, ao fim de mais de três horas de audição no Parlamento, cabe-nos fazer-lhe justiça de dizer que é precipitado culpá-lo pelo que aconteceu.

Porquê? Porque os documentos que lhe chegaram à mão (como ministro e também como "vice" da Assembleia-Geral) não indiciavam uma “gestão danosa” da associação pela sua presidente. Porque houve cartas enviadas ao Ministério, sim, mas não nos termos que nos chocaram na reportagem; porque houve uma denúncia sobre apropriação de donativos, sim, mas feitas pela mulher que hoje está sob suspeita (e recaindo sobre uma sua ex-colaboradora).

Está também por provar, ao fim de semana e meia de polémica, que Vieira da Silva tenha favorecido a Raríssimas enquanto ministro. Seja nas contas, nos apoios concedidos ao Estado, ou no pedido da Associação para que lhe dessem o estatuto de fundação — que mereceu parecer negativo da Segurança Social.

A (in)acção de Vieira da Silva não está acima de dúvidas, muito menos acima de escrutínio público. Teve fé na presidente da Raríssimas. Não terá sido escrupuloso enquanto "vice" da Assembleia-Geral. Devia ter sido mais zeloso, desencadeando uma inspecção aos primeiros indícios de problemas (sabendo como nós que o Ministério Público é moroso nas investigações). Mas era difícil adivinhar, com o que sabemos que ele sabia, que a Raríssimas podia estar a ser gerida em benefício da sua presidente.

Um jornalista nunca põe a mão no fogo por um ministro — essa é a regra número um no trabalho que fazemos. Mas tem a obrigação de ser justo, não fazendo um julgamento público com a leviandade com que se grita numa rede social ou num estádio de futebol.

Vieira da Silva terá ainda muito por nos provar — que não falhou por omissão e que não fechará os olhos face à conclusão das investigações. Para que a próxima denúncia não acabe outra vez numa televisão ou num jornal, por desconfiarmos da capacidade do Estado em investigar casos destes. Essa é tarefa que o ministro nos tem de entregar: a garantia de que este caso ficará para todos, para ele também, como um exemplo.

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