Ministério da Educação culpa Crato pelos maus resultados em leitura no 4.º ano

Em 2016, média dos alunos portugueses na literacia em leitura desceu 13 pontos por comparação à obtida em 2011 na avaliação internacional PIRLS. "Foram muitos os directores e professores que nos reportaram preocupação com o 1.º ciclo", disse João Costa.

O Secretário de Estado da Educação disse que não ficou surpreendido com os resultados
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O Secretário de Estado da Educação disse que não ficou surpreendido com os resultados Nuno Ferreira Santos

O secretário de Estado da Educação, João Costa, considerou nesta terça-feira que a descida dos resultados dos alunos do 4.º ano de escolaridade na literacia em leitura se deve “às medidas tomadas entre 2012 e 2015” pelo então ministro Nuno Crato.

João Costa referia-se à “descida clara do desempenho dos alunos portugueses” nos testes PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study) realizados em 2016 e cujos resultados foram divulgados nesta terça-feira. Por comparação a 2011, ano da anterior edição deste estudo internacional, a média dos alunos portugueses desceu 13 pontos. Passou de 541 para 528, numa escala em que a média é 500. Dos 50 países testados no PIRLS em 2016, só o Irão, com uma descida de 29 pontos, ultrapassa Portugal nesta queda.

Os alunos portugueses que em 2016 realizaram o PIRLS fazem parte do primeiro grupo a ser abrangido, em todo o 1.º ciclo do ensino básico, pelas metas curriculares definidas no mandato de Nuno Crato e que foram criticadas pela Associação de Professores de Português, nomeadamente por estarem em contradição com o programa que estava em vigor para a disciplina.

João Costa nunca se referiu explicitamente às metas curriculares, que continuam em vigor, mas adiantou que os resultados agora conhecidos “não surpreenderam” o Ministério da Educação.

“Desde o início temos uma prática regular de trabalho com as escolas e foram muitos os directores e professores que nos reportaram preocupação com o 1.º ciclo, com os alunos a serem treinados para um momento de avaliação específica [exames] e uma baixa preocupação com os processos” de aprendizagem.

Raparigas descem

Costa apontou, a este respeito, que os resultados do PIRLS “são bastante coerentes com os obtidos nas provas de aferição”, realizadas em 2016 pelos alunos do 2.º,5.º e 8.º anos de escolaridade, com mais de 80% dos alunos a revelarem dificuldades acrescidas na sua resolução.

O PIRLS de 2016 tem contudo uma novidade que tem sido contrariada nas outras avaliações internacionais e também nacionais: a descida acentuada dos resultados obtidos pelas raparigas (desceram 19 pontos) levou a que a distância entre elas e eles praticamente se dissipasse. João Costa admitiu que não tem explicações para este facto.

Face aos resultados divulgados nesta terça-feira, João Costa indicou que já estão em curso medidas destinadas a desenvolver “a competência leitora”. Entre elas figuram cerca de 400 acções de formação em 2017, abrangendo cerca de oito mil docentes, o desenvolvimento de “actividades de promoção de leitura e leitura orientada” no 1.º ciclo, no âmbito do Plano Nacional de Leitura 2027, e a “resposta a alguns dos problemas identificados nestes resultados nas Aprendizagens Essenciais de Português”.

As chamadas aprendizagens essenciais elencam por disciplina quais os conteúdos que os alunos devem aprender, funcionando como uma espécie de metas curriculares simplificadas. Por enquanto só se encontram em vigor nas cerca de 230 escolas que aderiram ao projecto de flexibilidade curricular.

A par do PIRLS, em 2016 foi pela primeira vez lançada uma avaliação das competências digitais dos alunos do 4.º ano (ePirls). Catorze países, entre os quais Portugal, participaram neste ePirls. Com uma média de 522 pontos, os alunos portugueses ficaram em 12.º lugar, embora estejam em segundo na percepção que têm da sua eficácia digital. À frente, nos resultados, ficaram os de Singapura (588), Noruega (568) e Irlanda (567).

Numa nota a propósito dos resultados nesta avaliação, o Ministério da Educação destaca o seguinte: “Contrariando a tendência internacional, Portugal alcançou melhor pontuação média na avaliação da leitura em papel (PIRLS) do que na avaliação da leitura online (ePirls), que ficou cinco pontos abaixo da pontuação média” obtida na primeira.

Na edição de 2016 participaram no PIRLS 319 mil alunos e 11 mil escolas. A amostra portuguesa foi constituída por cerca de cinco mil alunos de 218 escolas. 

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