PS abre processo de suspensão a 320 militantes candidatos em listas independentes

Foram candidatos em listas contra o partido e esse é o argumento da direcção para abrir os processos. Hugo Pires diz que a situação não podia "passar em branco". Agora arriscam a pena de suspensão.

O PS está a investigar os militantes que se candidataram em listas de movimentos independentes
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O PS está a investigar os militantes que se candidataram em listas de movimentos independentes dro daniel rocha

A direcção do PS enviou uma carta a 320 militantes informando-os de que lhes foi instaurado um processo disciplinar, o qual pode ter como pena a suspensão do partido. O motivo para este procedimento é o facto de os socialistas terem sido candidatos às autárquicas em listas independentes, “uma violação grosseira e desleal dos seus deveres como militante do PS, sendo tal violação grave, ofensiva e atentatória da salvaguarda da unidade, prestígio e bom nome do PS”, lê-se na carta a que o PÚBLICO teve acesso.

Datada de 22 de Novembro e assinada pelo secretário nacional responsável pela organização do partido, Hugo Pires, a carta avisa os militantes de que têm um prazo de dez dias para apresentar “os argumentos, factos e circunstâncias que possam contrariar a imputação ora feita, de grave, desleal e ofensiva violação dos seus deveres de militante socialista”.

Em declarações ao PÚBLICO, Hugo Pires explica que a direcção do PS analisou “os editais eleitorais e foram detectados 320 casos de militantes que se candidataram contra as listas do partido”. O dirigente reconhece que “as pessoas são livres”, mas argumenta que “os militantes do PS têm direitos e deveres, que não foram cumpridos" neste caso. “Foi uma má prática e a direcção não pode deixar passar em branco.”

As defesas apresentadas pelos militantes serão analisadas pela comissão permanente que decidirá se “há ou não suspensão provisória”, a qual pode vir a ser transformada em “suspensão de facto pela Comissão Nacional de Jurisdição”. Por agora, não se sabe qual vai ser o desfecho destes casos, admite Hugo Pires.

O PÚBLICO ouviu dois dos 320 militantes socialistas que receberam cartas: José Ribeiro, presidente da Assembleia Municipal de Fafe, e João Rodrigues, vereador da Câmara de Góis, que foi cabeça de lista, depois de ter sido vice-presidente da Câmara.

José Ribeiro explicou ao PÚBLICO que vai responder e desmente a acusação: “Eu não fui candidato contra o PS, o PS é que foi candidato contra nós.” E insistindo, frisa: “Nunca neguei, na campanha ou agora, a minha condição de militante do PS. Nunca me insurgi contra qualquer posição do PS. Actuei contra os adversários do PS que se juntaram ao PS para fazerem um aproveitamento, oportunisticamente, das listas do partido.”

Afirmando que “em consciência” não violou os deveres de militante, aduz que “a candidatura foi aprovada pela concelhia do PS de Fafe e ratificada pela federação distrital de Braga”. Razão pela qual defende que “a haver procedimento disciplinar contra militantes de Fafe, deve haver contra os dirigentes da concelhia e da federação que aprovaram e ratificaram a candidatura”.

Também José Rodrigues vai responder à carta “por uma questão de ética” e acrescenta que na sua situação estão “todos os militantes do PS” que o “acompanharam na candidatura independente, cerca de dez, alguns que fundaram o PS em Góis”. Garante que, depois das cartas chegarem, já teve de pedir a “algumas pessoas para não entregarem o cartão, pois há quem o queira fazer”, e desabafa: “Eu sou militante há anos, trabalhei com Fausto Correia, Alberto Martins, trabalho para o PS desde o tempo de Lopes Cardoso, de quem já ninguém se lembra.”

Sobre o caso concreto, defende que continua “a ser socialista” e diz não se rever “nesta acusação nem nesta ditadura que está instalada no PS de Góis”. E explica que a sua candidatura à assembleia municipal “tem a ver com questões do PS de Góis, que nada tem a ver com o PS nacional”. O resultado foi que o PS perdeu a maioria absoluta neste concelho, tem dois vereadores, a lista de independentes outros dois e o PSD um.

José Rodrigues lembra que há cerca de quatro anos apoiou, “para a Federação de Coimbra, Mário Ruivo, candidato de António Costa contra Pedro Coimbra, apoiado por António José Seguro e também pela presidente da Câmara de Góis”, que vai agora no terceiro mandato. Voltou a estar ao lado de Costa na eleição para secretário-geral, sendo, aliás, eleito delegado ao Congresso como apoiante do actual líder.

Nessa altura, a sua ruptura com a presidente da Câmara era já real. “Em 2009, a presidente afastou-me de vice-presidente, depois tirou-me os pelouros”. O caso levou já a Góis Ana Catarina Mendes, secretária-geral adjunta, e Maria da Luz Rosinha, secretária nacional responsável pelas autarquias.

Quando a direcção nacional “aprovou o princípio de que quem está se recandidata”, a presidente assim o fez. É então, garante José Rodrigues, que surge a sua candidatura: “Um grupo de militantes, entre os quais há dois antigos vereadores, decidiu candidatar-se com o movimento de independentes e convenceram-me a fazê-lo. Mesmo assim, antes de aceitar, em Abril ou Maio, fiz uma exposição por carta a António Costa.”