Maria Teresa Horta rejeita prémio Oceanos

Numa carta enviada aos responsáveis do prémio literário brasileiro, a autora justifica o gesto com o respeito que deve a si própria e à sua “já longa obra”.

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Maria Teresa Horta evr Enric Vives-Rubio

A escritora Maria Teresa Horta enviou ao Itaú Cultural uma carta em que comunica aos responsáveis do prémio literário brasileiro Oceanos que “repudia a classificação” atribuída ao seu livro Anunciações – um 4.º lugar ex-aequo com Simpatia pelo Demônio, de Bernardo Carvalho –, bem como o “respectivo prémio pecuniário”.

“Faço-o por respeito pela Literatura, por respeito pelas minhas leitoras e os meus leitores, e sobretudo pelo respeito que devo a mim própria e à minha já longa obra”, escreve a autora na carta que enviou, e que transcreve na sua página oficial no Facebook.

“Assim sendo, caros senhores, sois livres de dar a aplicação que vos aprouver aos 15 mil reais (4 mil euros) que me caberiam, não fosse esta inultrapassável questão que se me coloca e dá pelo nome de dignidade”, conclui Maria Teresa Horta antes de endereçar aos seus interlocutores os cumprimentos da praxe.

O júri final desta edição do prémio Oceanos, que integrou seis jurados brasileiros – as ensaístas Beatriz Resende e Mirna Queiroz, a tradutora e editora Heloisa Jahn e os escritores Maria Esther Maciel, Everardo Norões e Eucanaã Ferraz –, e ainda a escritora luso-moçambicana Ana Mafalda Leite e o crítico do PÚBLICO e ensaísta António Guerreiro, atribuiu o primeiro lugar ao romance Karen, de Ana Teresa Pereira, o segundo a outro romance, Machado, de Silviano Santiago, e o terceiro ao livro de poemas Golpe de Teatro, de Helder Moura Pereira.

Ainda antes de a autora de Anunciações – um extenso poema narrativo que imagina uma relação amorosa e sexual entre Maria e o arcanjo Gabriel – reagir publicamente a este prémio, já a romancista Inês Pedrosa publicara no blog colectivo Delito de Opinião um post intitulado De como um prémio pode ser uma forma de assédio moral, no qual defende que “atribuir a Maria Teresa Horta, em 2017, o quarto lugar ex-aequo do Prémio Oceanos (…) representa uma forma de assédio moral, uma humilhação que a obra da autora de Minha Senhora de Mim e As Luzes de Leonor de forma alguma merece, e a que as regras mínimas da mais elementar educação deviam tê-la poupado”. Num texto em que também afirma ser “escandaloso” que Maria Teresa Horta ainda não tenha recebido o prémio Camões, Pedrosa argumenta que teria sido preferível não premiar de todo o livro do que “dar-lhe um rebuçadinho para dividir com outro menino”.

O menino em causa, Bernardo Carvalho, tem 57 anos, 11 romances – quase todos eles publicados em Portugal pela Cotovia e, mais recentemente, pela Quetzal –, e foi justamente o primeiro autor a vencer, em 2003, com Nove Noites, o prémio Portugal Telecom, que daria origem ao actual prémio Oceanos.

Selma Caetano, curadora do prémio Oceanos, explicou ao PÚBLICO que, face a esta decisão de Maria Teresa Horta, o prémio relativo ao quarto lugar será integralmente destinado a Bernardo Carvalho. Assegurando seu “absoluto respeito pela escritora Maria Teresa Horta e pela sua importante obra”, a responsável adianta que nunca ocorreu “uma situação semelhante” nos 14 anos de vida deste prémio, desde que foi lançado ainda com a designação de Portugal Telecom.

Para Maria Teresa Horta é que esta recusa não é uma estreia, ainda que a anterior tenha tido contornos e justificações bastante diferentes: em 2012 recusou o prémio D. Dinis, atribuído ao seu romance As Luzes de Leonor, porque iria recebê-lo das mãos do então primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, “uma pessoa que está empenhada em destruir o nosso país”, argumentou então a escritora.