Ana Teresa Pereira vence prémio Oceanos

A autora de Karen é a primeira escritora a conquistar o prémio principal, num ano em que foram também premiados os poetas portugueses Helder Moura Pereira e Maria Teresa Horta.

Ana Teresa Pereira
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Ana Teresa Pereira João Rodrigues/JOAO RODRIGUES

O prémio literário Oceanos, organizado pelo instituto brasileiro Itaú Cultural, foi atribuído esta quarta-feira ao romance Karen, da romancista portuguesa Ana Teresa Pereira, uma autora quase completamente desconhecida no Brasil, onde não tem ainda nenhum livro publicado. 

Uma circunstância que torna esta escolha ainda mais interessante, comentou ao PÚBLICO o crítico e ensaísta António Guerreiro, que foi um dos dois jurados portugueses do prémio, a par da poetisa luso-moçambicana Ana Mafalda Leite. “A Ana Teresa Pereira não era conhecida de ninguém entre os jurados brasileiros [seis em oito], e os portugueses estavam em minoria, mas houve uma enorme adesão ao livro e um reconhecimento consensual de que a sua autora era um valor seguro”, contou Guerreiro.

Uma admiração para a qual contribuiu a própria estranheza da obra da escritora madeirense, reconhecidamente singular no contexto da literatura portuguesa contemporânea. “Os jurados brasileiros não percebiam muito bem de onde aquilo vinha, qual era a relação daquela escrita com a ficção portuguesa actual mais conhecida no Brasil, como a de José Luís Peixoto ou, para um público diferente, a de Gonçalo M. Tavares”, diz ainda o crítico do PÚBLICO. Peixoto e Tavares são justamente, com Valter Hugo Mãe, os únicos autores portugueses que até agora tinham conquistado um primeiro lugar no Oceanos ou no seu antecessor, o prémio Portugal Telecom. 

Ana Teresa Pereira, a primeira mulher a vencer este prémio, irá receber 100 mil reais (26 mil euros), e verá finalmente um livro seu editado no Brasil: a editora todavia já anunciou que pretende publicar Karen no primeiro semestre de 2018. 

O segundo lugar na edição deste ano, premiado com 60 mil reais (15 mil euros) foi para outro romance, Machado (Companhia das Letras), de Silvino Santiago, que recria o final da vida do autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba. E segue-se mais um português, o poeta Helder Moura Pereira, com Golpe de Teatro (Assírio & Alvim), classificado em terceiro lugar (40 mil reais/10 mil euros).

O quarto lugar foi excepcionalmente atribuído ex-aequo a dois livros: Anunciações, da poetisa portuguesa Maria Teresa Horta, e Simpatia pelo demônio, do romancista brasileiro Bernardo Carvalho, que dividirão um prémio de 30 mil reais (8 mil euros). Quando o prémio ainda se chamava Portugal Telecom, Bernardo Carvalho venceu a sua edição inaugural, em 2003, com o romance Nove Noites.

Sem questionar o mérito dos livros de Helder Moura Pereira e Maria Teresa Horta, Guerreiro diz ter sentido no júri “uma certa vontade de reconhecer a poesia portuguesa, que é muito prestigiada no Brasil”. A título pessoal, diz ter “gostado muito” do romance de Bernardo Carvalho, e também do de Silviano Santiago. “Machado é um romance muito bom, que pode ser entendido como um clássico, mas se o prémio lhe tivesse sido atribuído seria uma escolha mais óbvia, sem nada de imprevisível, o que em nada diminui o seu valor”, argumenta.  

Mas o crítico português também votou em Karen, que venceu por unanimidade. “A escrita de Ana Teresa Pereira deve mais ao cinema, à poesia ou à pintura do que à ficção portuguesa contemporânea, em relação à qual ocupa uma posição um pouco descentrada, e esse é um dos seus aspectos mais interessantes”, diz Guerreiro.  

O júri final desta edição do prémio Oceanos integrou, a par de António Guerreiro e Ana Mafalda Leite, seis jurados brasileiros: as ensaístas Beatriz Resende e Mirna Queiroz, a tradutora e editora Heloisa Jahn e os escritores Maria Esther Maciel, Everardo Norões e Eucanaã Ferraz. 

Foram eles que escolheram a lista de dez finalistas, que incluía, além dos autores premiados, a romancista portuguesa Ana Margarida de Carvalho e os escritores brasileiros Sérgio Sant'Anna, Verônica Stigger, Victor Heringer e Elvira Vigna, que morreu em Julho passado, pouco depois de ter publicado o seu último livro, Como se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas

Esta foi a primeira edição em que o prémio passou a abarcar obras publicadas em qualquer um dos países de língua oficial portuguesa, não ficando reduzido a livros que já tivessem tido edição brasileira, uma alteração com consequências significativas. E os números confirmam ainda que continuam a ser poucos  os autores que conseguem ver as suas obras divulgadas em todo o universo lusófono. Dos 51 livros que chegaram este ano à long list do Oceanos (31 brasileiros, 19 portugueses e um angolano), 49 só tinham sido publicados no seu país de origem. Um caso particularmente ilustrativo é o de Silviano Santiago, um dos mais prestigiados ficcionistas brasileiros actuais: o autor de Machado venceu o prémio Oceanos em 2015, com Mil Rosas Roubadas, e repete este ano um segundo lugar que já lhe fora atribuído em 2005, mas não tem um único livro publicado em Portugal. 

 

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