Opinião

A Rússia entre a ideologia e a realpolitik

Um século depois de 1917 a chama revolucionária apagou-se, mas o sentido de missão da Rússia persiste com renovada determinação e vontade de moldar o mundo.

1. No início do século XXI, cem anos após a revolução bolchevique de Outubro de 1917, a Rússia segue o seu próprio caminho. Estando num processo de reafirmação como grande potência, por vezes fá-lo de forma ruidosa na política internacional. Isso é observável nos focos de tensão com a Europa / Ocidente, como a anexação da Crimeia, o conflito no Leste da Ucrânia, a intervenção na guerra da Síria, ou o apoio à Venezuela e Irão. Mas a Rússia não é fácil de encaixar nas categorias e rótulos políticos convencionais. É continuadora da União Soviética ou da Rússia dos czares? É social e politicamente progressista ou conservadora? É economicamente estatista ou capitalista de mercado? A desintegração da União Soviética nos anos 1989-1991, com perda de inúmeros territórios, alguns conflitos militares e colapso do modelo económico de direcção central, foi um acontecimento particularmente traumático. Lentamente, nas últimas décadas, emergiu uma "nova Rússia". Nela misturam-se uma certa dose ideologia, ou de múltiplas ideologias, com um realismo político (realpolitik) extremamente pragmático. As suas características histórico-culturais e geopolíticas, associadas a uma prossecução determinada do interesse nacional, ajudam a explicar a actual política externa e presença no mundo.

2. Na recomposição interna que está em curso na Rússia deu-se uma curiosa aproximação entre cristãos ortodoxos tradicionalistas e ateus nostálgicos do comunismo soviético. Ocorre numa sociedade que reafirma valores tradicionais e patrióticos, mas também se encontra estreitamente ligada ao poder estadual e a uma liderança forte, a qual lembra a era soviética. Vladimir Putin foi o político que conseguiu por em prática essa simbiose, embora não isenta de tensões internas, nem de contradições ideológicas. Com este, instituições tradicionais da Rússia, como a Igreja Ortodoxa — afastadas durante o longo parenteses histórico da era soviética —, retomaram o seu curso. A Rússia voltou a orgulhar-se do passado dos czares Romanov, que a transformaram de um obscuro principado nos confins da Europa numa grande potência euro-asiática. Ao mesmo tempo, mantém continuidades com a era soviética, como o empenho num Estado militarmente forte e particularmente zeloso da sua soberania. Procurou reafirmar a sua influência internacional através de alianças baseada na realpolitk, mas também em afinidades ideológicas. Vamos analisar essas duas componentes que caracterizam a sua presença e actuação no mundo.

3. Há um livro particularmente interessante, embora não isento de críticas pela forma benevolente como trata, ou ignora, as piores facetas da era soviética, da autoria de Bruno Drweski (A Nova Rússia é “de direita” ou “de esquerda”?, trad. port., Página a Página, 2017). Nele é analisada a questão do posicionamento ideológico da Rússia no actual contexto internacional. A sua leitura ajuda a compreender a visão do mundo que lhe está inerente, bem como a estratégia de afirmação no plano internacional. Mostra a necessidade de uma ideologia de Estado na Rússia pós-soviética, a qual é explicada e caracterizada da seguinte forma (p. 37): “a Rússia tem necessidade de desenvolver uma ideologia — isto é, uma representação ideal de si própria e da sua política — que seja capaz de justificar tanto aos olhos dos seus próprios cidadãos, como aos olhos do mundo a razão de ser da sua existência, porque é que tem o direito de desempenhar papel importante visando por em causa os fundamentos do mundo unipolar”. Essa ideologia assenta numa combinação de “diferentes argumentações, tanto de direita como de esquerda, quer permitem legitimar a sua estratégia e que podem invocar diferentes momentos do seu passado.”

4. A ideologia russa do passado e do presente tem, nas suas raízes mais profundas, um arreigado sentimento messiânico. No passado, foi-lhe dado pela subjugação dos povos cristãos ortodoxos pelos turcos otomanos, que culminou com a conquista de Constantinopla no século XV. Levou a que a Moscóvia / Rússia se visse, a si própria, como baluarte do Cristianismo oriental e “Terceira Roma”. No século XIX, o sentimento eslavófilo recriou uma cultura tradicional idealizada, por oposição à ocidental. Claro que a existência de uma cultura impregnada de convicções messiânicas, de que o arquétipo é o povo judeu, não é um exclusivo russo. Está presente noutras culturas, como nos EUA, de maneira muito óbvia, pelo seu sentimento de excepcionalismo. Leva um povo a criar a convicção de ter como missão a redenção da humanidade. Essa é uma das razões porque russos e norte-americanos chocam na política internacional: não há espaço para dois messianismos universalistas. Na revolução bolchevique de 1917, o sentimento de missão fez-se sentir numa outra versão metamorfoseada. O primeiro Estado do mundo governado por trabalhadores emergia imbuído de um messianismo secularizado — o proletariado, agregado em torno do partido comunista, redimia a humanidade. Mas isso foi a ideologia do passado soviético. Qual é a ideologia que dá hoje sentido de missão à Rússia?

5. Assiste-se, na Rússia pós-soviética, a um “regresso aos temas da cristandade ortodoxa que podem ser alargados a um mundo cristão em crise profunda através de um apoio proclamado a todos os valores morais tradicionais”. Assim, a Rússia “apoia os valores tradicionais das diferentes correntes cristãs abandonadas por muitas Igrejas ocidentais, subjugadas pelo consumismo capitalista, o individualismo e o hedonismo. Daí os apelos de Moscovo não somente dirigidos aos cristãos ortodoxos, mas também aos católicos tradicionalistas.” (Bruno Drweski, pp. 37-38). Esta faceta leva a que nos EUA e na Europa se veja a Rússia como liderando uma espécie de "internacional conservadora", ou, de forma ainda mais pejorativa, uma "internacional populista", nome que ecoa a histórica Internacional Comunista (Comintern) dos primeiros tempos da União Soviética. Como já notado, na sua ideologia de Estado misturam-se ideias e influências díspares, de difícil articulação e coerência, pelo menos se aceitarmos que a classificação esquerda / direita mantém relevância (e olharmos a Rússia sobre o prisma do pensamento ocidental). Mas é simplista reduzir a Rússia a uma mera orientação ideológica conservadora ou de tipo populista. O que é mais líquido é que esta rejeita o liberalismo ocidental e os seus valores.

6. Na rejeição do liberalismo económico e político ocidental, a Rússia recorre igualmente aos "princípios da luta pela paz, da segurança colectiva, da coexistência pacífica e do anti-imperialismo" da era soviética, ainda que de uma forma menos ostensiva. A sua política externa prossegue "a multipolaridade e eventualmente também o eurasianismo.” (Bruno Drweski, idem). Para o efeito, empreendeu uma estratégia de cooperação com a China e "todas as outras potências emergentes, marcadas por bases ideológicas legitimadoras muito diversas, mas em competição e em rivalidade com as ‘velhas potências’, tendo à cabeça os EUA". Esta estratégia surge com naturalidade no Estado russo, o qual sempre foi "plurinacional, continental, sem fronteiras naturais, e situado no limite de vários círculos de civilização". Daí a ideia de uma legitimidade que "partia do sentimento de estar situada na periferia, coisa que Moscovo compensou pelo desenvolvimento de uma crença de uma missão histórica de tendência universalista." (ibidem, p. 34). Um século depois de 1917 a chama revolucionária apagou-se, mas o sentido de missão da Rússia persiste com renovada determinação e vontade de moldar o mundo.