Ministro russo usou imagens de videojogo para acusar EUA de auxílio ao Daesh

O ministro da Defesa russo acusou os EUA de permitirem aos militantes de Daesh a saída da cidade de Abu Kamal, na Síria, e de interferirem nas operações aéreas da Rússia. Mas as imagens apresentadas são de um videojogo e de um vídeo que foi filmado há um ano no Iraque.

Imagem utilizada pelo ministro russo e que terá sido retirada de um videojogo
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Imagem utilizada pelo ministro russo e que terá sido retirada de um videojogo DR

O ministro da Defesa da Rússia utilizou as redes sociais para soltar uma autêntica bomba que prometia abalar a política internacional. Com “provas irrefutáveis”, o governante dizia que os Estados Unidos tinham cooperado com militantes do Daesh na Síria para “promover os interesses americanos”. O problema, como começaram a apontar vários internautas quase de imediato, é que uma das fotografias que era apresentada como prova da colaboração entre os EUA e o Daesh era, na verdade, uma captura de ecrã de um videojogo. E as restantes imagens são do ano passado e foram registadas no Iraque, e não na Síria.

A acusação é publicada nas páginas oficiais do ministro da Defesa russo no Twitter e Facebook um dia depois de uma investigação jornalística da BBC na Síria ter indicado que a coligação internacional liderada pelos EUA naquele país, que inclui forças britânicas e curdas, permitiu a saída de jihadistas do Daesh da cidade de Raqqa. Shoigu acusa agora as forças ocidentais e curdas de terem igualmente permitido a saída de extremistas da cidade de Abu Kamal, também na Síria, interferindo com uma campanha de bombardeamento russos que visava impedir essa movimentação.

O ministro russo acusa ainda os militares norte-americanos de permitirem o reagrupamento de jihadistas num território controlado pela coligação: “Os EUA estão a proteger as unidades de combate do Daesh para recuperar as suas capacidades de combate, recolocar, e utilizá-las para promover os interesses americanos no Médio Oriente”.

Ora, a reacção dos internautas não terá sido a esperada pelo Ministério da Defesa russo, já que, pouco tempo depois, as publicações foram apagadas e substituídas. Alguns utilizadores do Twitter, incluindo grupos de investigação como o Conflict Intelligence Team (CIT) e o Bellingcat, chamaram a atenção para o facto de uma das fotografias utilizadas pelo ministro ser idêntica às imagens de um vídeo promocional, divulgado em 2015, de um jogo chamado AC-130 Gunship Simulator: Special Ops Squadron.

O CIT acrescentou que as outras quatro fotografias publicadas foram retiradas de um vídeo publicado no ano passado pelo ministro da Defesa iraquiano e que mostrava uma operação contra o Daesh perto da cidade de Fallujah.

Apesar de as publicações terem sido apagadas, está ainda disponível online uma cópia do post original do ministro russo.

Horas depois, Sergei Shoigu reagiu ao incidente e afirmou que um funcionário anexou as imagens erradas e garantiu que vai investigar o caso. Mas manteve as acusações. “A recusa do comando dos EUA de realizar ataques às escoltas dos terroristas do Daesh que se retiravam de Abu Kamal a 9 de Novembro é um facto objectivo reflectido nas transcrições das comunicações e, por isso, do conhecimento absoluto do lado dos EUA”, reiterou Shoigu, citado pela agência Interfax.