Crítica

Nathalie e os fados de um outro começo

Foi num previsível desequilíbrio que Nathalie apresentou no CCB um disco que só teremos nas mãos em 2018, e que promete. Teve vários desacertos, mas os momentos bons valeram a noite.

Nathalie
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Nathalie JOÃO BACELAR

Nathalie já tinha dito que ainda está à procura de um som próprio, entre os espaços onde começou a cantar fado em Nova Iorque (onde nasceu) e aqueles que a têm vindo a receber em Lisboa e noutros palcos algures pelo mundo. E essa procura é por demais compreensível em alguém que não nasceu nem cresceu nos meios fadistas e que abraçou o fado na improvável geografia norte-americana. A apresentação do seu futuro disco, Alma Serena (sucessor de Fado Além, de 2015), já gravado mas com edição prevista apenas para 2008, era esperada com um misto de curiosidade, pelo que dela já nos tinha sido dado a ouvir, e compreensão, pelo que é ainda uma voz e um estilo em construção.

O arranque, a frio e sem microfone, correu mal. O Pequeno Auditório do CCB, ainda que acolhedor (mas longe de estar cheio) não é uma casa de fados; e a voz, nervosa, deixou uma desconfortável sensação de desamparo. Alma serena foi, por isso, tudo menos serena (embora o tema, no disco, com poema de Fernanda de Castro, mereça viva atenção). O que só foi atenuado com um lento evoluir no à-vontade interpretativo. O espelho do camarim e Eternamente, ambos do novo disco, ainda se ouviram com a fasquia baixa ou média, até que surgiu a primeira surpresa: a Gaivota de O’Neill e Oulman só voz e trompete com surdina, este a cargo do primeiro convidado da noite, Laurent Filipe, a juntar-se aos três (excelentes) músicos já em palco: José Manuel Neto (guitarra portuguesa), Carlos Manuel Proença (viola de fado) e Bernardo Moreira (contrabaixo). Com os ânimos mais confortados, ouviu-se então O marinheiro, contribuição de Márcia (letra e música) para o novo disco de Nathalie. Uma canção a que José Mário Branco (responsável pela produção e arranjos do disco que aí vem) deu elegante roupagem e que no CCB teve Laurent Filipe ainda por companhia. Depois voltou-se ao fado, com Noite cerrada e Maria Lisboa, dois temas clássicos e condignamente interpretados, antes de uma breve incursão no disco Fado Além, agora com outro convidado, o pianista Ricardo J. Dias, que musicalmente o produziu. Amor incurável e Fado em amor perfeito soaram demasiado cançonetistas, um género interpretativo que não lhe vai bem, mas recuperou em Diário (com poema do escritor Mário Cláudio), que soou bem melhor, voltando a um “território” mais arriscado em Ai, Maria (no timbre de Nathalie há um risco de estridência, que ela deve aprender a domar com o tempo) e navegando mais segura em Chapéu escuro, de Vitorino.

Depois vieram os grandes momentos: numa quase penumbra, sentando-se ao piano não para tocar mas para daí cantar, Nathalie brindou-nos com uma excelente interpretação de Esta tristeza, um belo poema de Manuela de Freitas no Fado Rosa. À espera, com letra de Capicua, agora no Fado Rosita, manteve o espectáculo em alta e a entrada em palco de Camané, o terceiro convidado, não podia ter ocorrido em melhor momento: dois duetos exemplares, em contenção e gosto, primeiro em Fado sem ti, no Fado menor do Porto (o dueto também foi registado no disco), e depois no sempre belo Sei de um rio, as palavras de Pedro Homem de Mello envoltas na música de Alain Oulman. Muito bom. Vem não te atrases, poema de Maria do Rosário Pedreira sobre música de Armandinho, agora de novo com piano, não desmereceu as prestações anteriores. E o fecho, com um clássico associado a Amália, Lisboa à noite, só errou em forçar uma adesão que não havia.

Talvez por isso tenham demorado os aplausos a sustentar o encore. Que se cumpriu bem, e de novo com Amália: primeiro com Estranha forma de vida (que Nathalie gravou em Fado Além) e depois com Fadinho serrano (“Muito boa noite, senhoras, senhores…”) a puxar à festa e às palmas. Tal como disse, e bem, Nathalie ainda procura um som próprio. Que ele venha dos melhores momentos que este espectáculo proporcionou é o mínimo que se pode desejar. Porque a sua voz já tem aquilo que pode fazer dela uma fadista de empenho e garra. Assim ganhe segurança e personalidade vocal, libertando-se dos resquícios do fado-para-animar-espaços para abraçar o fado do puro sentimento.