Editorial

Em fuga, para a frente

A moderna Catalunha rompe com a democracia liberal e força-se a viver de acordo com a lei da rua, dando mais importância à democracia directa do que ao respeito das instituições democráticas.

A fuga para a frente dos protagonistas do problema catalão já era esperada, mas será sempre de lamentar a oportunidade perdida — mais uma na sucessão de equívocos que tem sido este processo independentista. Uma saída para a crise seria um dos parceiros apresentar uma solução minimamente construtiva que evite o pior cenário. Mas isso ontem ficou muito mais difícil.

Agora, em cima da mesa está o pesadelo que se adivinha: violência de ambos os lados, a rua a tentar conquistar pela força o que não conseguiu de forma tranquila, degradação completa da vida pública catalã. A verdade é que o independentismo precisa da tensão, precisa da violência e precisa da instabilidade para controlar a opinião pública. E esta é uma das ironias que todo o processo oferece: a moderna Catalunha rompe com a democracia liberal e força-se a viver de acordo com a lei da rua, dando mais importância à democracia directa do que ao respeito das instituições democráticas. Mas foi a isto que obrigaram os interesses de quem tem muito a ganhar com um processo independentista que precisa de uma nova classe de políticos comprometidos com a Catalunha livre.

De qualquer forma, seria importante garantir que os processos decorrem com um mínimo de fricção. As eleições estão marcadas para o Natal e poderão ajudar a clarificar o processo, renovando a legitimidade de um executivo que possa finalmente dialogar com Madrid. Até lá, o risco de violência é elevado: as mudanças na estrutura administrativa do Estado vão criar focos de tensão repetidos que rapidamente poderão extravasar para as ruas, onde a facção independentista fará marcação cerrada para garantir a secessão de Espanha.

E é nessa mesma estrutura administrativa que se pode jogar um aspecto importante de toda a batalha entre a autonomia e a independência. Com Espanha a controlar o processo funcional do governo regional catalão, caberá aos quadros intermédios e superiores aplicar as instruções que chegarem de Madrid — e o seu alinhamento face à questão independentista pode bem ditar a forma como o processo avança nas próximas semanas. São duzentos mil funcionários públicos que terão em mãos a aplicação prática de um processo de anulação da autonomia que pode descambar na construção da independência — a bem ou a mal.