Um festival para a paisagem sonora em que vivemos

À 55.ª edição, o festival itinerante Dias de Música Electroacústica ganha uma casa em Lisboa. E torna-se parceiro na construção de um grande banco europeu de gravações de campo.

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Bernard Fort, do Groupe de Musiques Vivantes de Lyon, em gravações de campo DR

Já aqui o dissemos: sempre que o compositor e investigador Jaime Reis (Coimbra, 1983) instala o equipamento de som, acontecem Dias de Música Electroacústica (DME). E se mais de metade das 54 edições deste festival itinerante aconteceu em Seia, que permanecerá como base de actividade, o DME ganha, a partir desta quarta-feira, uma segunda casa em Lisboa.

O Espaço Lisboa Incomum, situado no número 20 da Rua General Leman, próximo da Junta de Freguesia das Avenidas Novas, inaugura-se justamente com a 55.ª edição do DME, ela própria uma novidade, já que comporta a primeira apresentação em Portugal de um projecto internacional de que o DME é o rosto português.

A paisagem sonora em que vivemos junta, na construção de um grande banco de gravações de campo, o DME (através da AFEA– Associação de Fomento do Ensino Artístico), o Groupe Musiques Vivantes de Lyon, os Amici della Musica, com sede em Cagliari, o mítico Tempo Reale, centro de pesquisa, produção e educação fundado por Luciano Berio, em Florença, e o EPHMEE, o laboratório de pesquisa e aplicação em música electroacústica do Departamento de Música da Universidade de Corfu. A apresentação em território português do projecto (com morada electrónica em http://paysagesonore.eu/) ocorre às 15h, na presença de representantes das cinco instituições, inaugurando simultaneamente a instalação audiovisual permanente que poderá ser visitada até domingo, dia 29, e que reúne paisagens sonoras dos quatro países participantes (Portugal, França, Itália e Grécia).

A partir das 16h30, segue-se um encadeamento de curtos eventos, alternando momentos musicais (obras de Jaime Reis, Ângela Lopes, Bernard Fort, Lucio Garau, Francesco Giomi e Andreas Mniestris) com conversas, rematando-se o dia com um evento surpresa. A programação, explica ao PÚBLICO o director do festival, Jaime Reis, não é fruto do acaso, respondendo ao conceito (ainda que vago) de paisagem sonora. “A minha peça faz parte do ciclo Fluxus, baseado em fenómenos aerodinâmicos. Utiliza sons de paisagens sonoras que captei no aeródromo de Santa Cruz, nomeadamente enquanto pilotava. A peça da Ângela Lopes tem a água como elemento central e utiliza gravações de campo realizadas pela compositora, que também gravou os gestos pianísticos de Cândido Lima criados para a peça.” As dos restantes compositores centram-se, igualmente, em recolhas sonoras.

O DME prossegue na quinta-feira, às 21h, com a apresentação de obras de compositores oriundos do México, de Espanha, de França e de Itália, num concerto programado em parceria com a MUSLAB (Muestra Internacional de Música Electroacústica), que ainda esta semana promoveu um concerto na Universidade Autónoma Metropolitana da Cidade do México com obras de compositores portugueses e residentes em Portugal escolhidas pelo DME. Na sexta-feira, o programa estrutura-se à volta do compositor canadiano Barry Truax: uma conferência pelo próprio, às 19h, seguida, às 21h, de um concerto monográfico em que serão apresentadas algumas das suas obras mais conhecidas, bem como uma versão para oito canais da última obra que produziu para o BEAST 2016 (Birmingham ElectroAcoustic Sound Theatre) no sistema de 48 canais da Universidade Técnica de Berlim.

A maioria das actividades do 55.º DME decorrerá, porém, no fim-de-semana. Dois dias bem preenchidos, a começar logo às 9h30 com breves comunicações. De novo haverá uma alternância entre conversas e momentos musicais, reunindo oradores, e dando a ouvir compositores, de Portugal, França, Itália, Grécia, Espanha, Argentina e Canadá. As comunicações cobrirão diversas áreas da música, mas também da musicologia histórica, da acústica, da arquitectura paisagista e da filosofia. Tal como o primeiro, o último dia do 55.º DME termina com mais um misterioso evento surpresa. Antes disso, será lançado o primeiro CD do Ensemble DME, com música mista do compositor argentino Mario Mary. O programa completo encontra-se no sítio electrónico do DME.

Relativamente ao novo espaço de Lisboa em que tudo isto acontecerá, Jaime Reis não adianta muito. “Como qualquer fenómeno experimental, o Espaço Lisboa Incomum abre em fase de testes. Provavelmente, estará em mudança adaptativas que lhe permitam ser um espaço de partilha nos campos da arte e da ciência, de forma sustentável, privilegiando actividades de carácter inovador, assente em novas investigações e descobertas, procurando levar outros a inovar e a descobrir.”

Nota de extrema importância: todas as actividades do DME são de entrada gratuita, mas pressupõem uma inscrição prévia (uma mensagem para diasdemusicaelectroacustica@gmail.com é o suficiente).

O próximo DME será a habitual edição de Inverno nas montanhas, entre o Natal e o fim de ano, de novo em Seia. Até lá, aproveitemos bem esta semana em Lisboa.

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