Em busca dos restos do passado no momento do presente

Em Spell Reel e O Canto do Ossobó, respectivamente, a portuguesa Filipa César e o são-tomense Silas Tiny resgatam imagens perdidas na África lusófona.

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Spell Reel, de Filipa César, parte em busca do cinema perdido da Guiné-Bissau DR
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O Canto do Ossobó, de Silas Tiny, é uma viagem de regresso a São Tomé e Príncipe DR

“As imagens que se perderam, e que nunca mais encontrei, fizeram-me querer regressar ao passado.” É uma frase que se ouve muito cedo em O Canto do Ossobó, quando o realizador, Silas Tiny, fala de fotografias que se extraviaram quando a sua família veio de São Tomé e Príncipe para Portugal, há 30 anos, antes de ir à procura do que ainda sobrevive desse tempo. Ali ao lado, na Guiné-Bissau, Filipa César acompanhou a recuperação e a digitalização possíveis dos filmes que quatro cineastas guineenses rodaram após a independência do país; o filme que daí resultou, Spell Reel, desenha tanto esse processo como o reencontro das imagens com os lugares onde foram filmadas. Os dois objectos, que se encontram esta quinta-feira no Doclisboa, têm em comum a vontade de problematizar o colonialismo português em África, construindo um diálogo entre passado e presente que ilumine ambos os tempos.

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Spell Reel, de Filipa César DR

Nove meses depois da estreia mundial no Festival de BerlimSpell Reel chega finalmente à estreia portuguesa em sala, integrado na Competição Internacional do Doclisboa, onde é um dos títulos mais fortes numa selecção de altíssimo nível (Cinema São Jorge, quinta-feira, às 18h45; Culturgest, sexta-feira, às 10h30). É um filme de inesgotáveis sortilégios, que se alimenta de muito do que de mais à frente o cinema fez no último meio século, mas que tem como estrela do Norte o trabalho de Chris Marker, sem o qual (como se diz às tantas) não existiria cinema na Guiné-Bissau, e no qual a artista multimédia portuguesa radicada em Berlim observa, de modo apaixonado, a recuperação do que sobrou, e a tentativa de manter viva uma utopia cultural do cinema contra a ignorância e contra o medo.

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O Canto do Ossobó, de Silas Tiny DR

O Canto do Ossobó (Cinema São Jorge, quinta-feira, às 14h), longa-metragem que por si só eleva o nível de uma morna Competição Nacional, é um filme menos elaborado e mais modesto, com alguns problemas de construção (uma voz off aqui e ali demasiado poética ou demonstrativa, uma tendência para se deixar levar por desvios algo supérfluos), mas que abre uma via fascinante ao utilizar as questões do colonialismo e da diáspora como centro de uma tentativa de compreender uma identidade. “Encontrar os restos do passado no momento do presente” é o centro da viagem que Silas Tiny faz de regresso a São Tomé e Príncipe, recorrendo pontualmente a home movies da sua própria família e a imagens de arquivo para tentar preencher as lacunas de um passado que não ficou registado. As construções sobreviventes das roças coloniais são ruínas em que se inscrevem os traços do tempo que passou, e, em muitos casos, as únicas imagens que sobrevivem desse passado que se deixou para trás. Que o mesmo festival coloque em diálogo estes dois filmes extremamente importantes enquanto deveres de história e de memória só pode ser louvado.