O estado da nação documental não está grande coisa

Até ver, a Competição Portuguesa do Doclisboa não tem sido entusiasmante.

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Notas de Campo, de Catarina Botelho DR
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Espadim, de Diogo Pereira DR
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I Don’t Belong Here, de Paulo Abreu DR
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Diário das Beiras, de Anabela Moreira e João Canijo DR
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Dom Fradique, de Nathalie Mansoux DR

Se é verdade que muitas vezes olhamos para a Competição Portuguesa do Doclisboa como maneira de avaliar o estado da produção nacional, a verdade é que nestes primeiros dias a Competição Internacional (com três grandes filmes nestes primeiros três dias em End of Life de John Bruce e Pawel Wojtasik, Also Known as Jihadi de Éric Baudelaire e L’Héroïque lande de Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval) lhe está a dar uma grande abada.

À excepção do notável Notas de Campo de Catarina Botelho, a produção portuguesa apresentada neste primeiro fim-de-semana prefere remeter-se a formatos de provas dadas, sem ousar novos caminhos ou reinventar fórmulas. Espadim, que Diogo Pereira fez no âmbito da Film Factory de Sarajevo dirigida por Béla Tarr, é um exercício observacional aplicado sobre o quotidiano de pescadores, filmando uma rotina com o seu quê de conformada sem nunca transcender o rotineiro (repete 4.ª 25 às 20h00 no Ideal, 20h00). Em I Don’t Belong Here, Paulo Abreu acompanha a produção de palco que Dinarte Branco e Nuno Costa Santos criaram em colaboração com luso-americanos e luso-canadianos deportados para os Açores apesar de já nada os ligar às ilhas; apesar da força do material, o filme limita-se à “memória descritiva” da sua criação e apresentação pública (São Jorge, este domingo às 22h00 e 2.ª 23 às 14h00).

Mais decepcionante é Diário das Beiras, “sequela” de Portugal – um Dia de Cada Vez, onde Anabela Moreira e João Canijo prosseguem o seu trabalho de registo quase etnográfico do quotidiano do “Portugal profundo”, sem resolver os problemas do antecessor: tudo não passa de uma mera sequência de momentos que nunca formam efectivamente um filme nem justificam a longa duração (repete 3.ª 24 às 22h00 no Ideal).

Sobra Dom Fradique, de Nathalie Mansoux, ao mesmo tempo evocação lúdica do passado da Lisboa bairrista e comentário irónico à proliferação de turistas e à descaracterização da cidade velha, espécie de fantasia documental cuja variação de tom, entre o elegíaco e o escarninho, é ao mesmo tempo a sua maior fraqueza e a sua grande força (repete 4.ª 25 às 21h45 no São Jorge em programa duplo com Notas de Campo). Espera-se que o nível suba nos títulos que ainda falta apresentar.