Lombardia e Veneto votam em referendo para ganhar mais autonomia de Roma

Liga Norte promove consultas regionais não vinculativas, quando é cada vez mais um partido nacional. “Não somos a Catalunha”.

O líder da Liga, Matteo Salvini, votou bem cedo em Milão
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O líder da Liga, Matteo Salvini, votou bem cedo em Milão Flavio Lo Scalzo/EPA

As semelhanças com a Catalunha podem ser menos do que as diferenças. Mas não é uma absoluta coincidência que as regiões italianas da Lombardia e Veneto votem este domingo num referendo organizado pelos seus presidentes, membros do partido Liga Norte, a extrema-direita que nasceu separatista e hoje aposta em chegar ao poder com um discurso anti-imigração e xenófobo, próximo da Frente Nacional francesa.

Economicamente, a Lombardia é a Catalunha de Itália, responsável, como a região autonómica espanhola, por 20% do PIB nacional (o Veneto representa outros 10%). Na prática, lombardos e catalães têm disputado empresários em fuga de um divórcio com data marcada, o “Brexit”, e competem, por exemplo, para ser sede da Agência Europeia do Medicamento, obrigada a deixar o Reino Unido.

“Não somos a Catalunha”, disse o presidente da Lombardia, e um dos principais líderes da Liga, Roberto Maroni, ouvido pelo diário espanhol El País. “Permanecemos dentro de numa nação italiana com mais autonomia. A Catalunha quer tornar-se no estado 29º da União Europeia. Nós não. Por agora.”

O partido fundado em 1991 por Umberto Bossi já evoluiu muito desde 2012, quando este teve de se afastar por causa de um escândalo de corrupção, dando lugar a Matteo Salvini. Longe vão os tempos em que o jornal do partido, Padânia (como a região mítica em torno da qual se construiu o separatismo do Norte), tratava como notícias internacionais tudo o que acontecia a sul do rio Pó, a linha que divide o topo da "bota" do resto do país (cano, sola e salto).

Salvini fala pouco de secessão e tudo tem feito para dar ao partido um apelo nacional. Com resultados visíveis: a poucos meses das legislativas previstas para a Primavera de 2018, a Liga está com 14,6% nas sondagens, abaixo do Partido Democrático e do Movimento 5 Estrelas (ambos com 27%) e um pouco acima da Força Itália, de Silvio Berlusconi. Combinados, os votos do bloco da direita chegariam para assumir o poder – e com Berlusconi inabilitado para assumir cargos políticos, Salvini pode ser próximo primeiro-ministro.

Então, para quê trazer agora para o debate a política regionalista? Precisamente para não perder os votos da velha guarda de Bossi, que teve muitas dificuldades em aceitar a demorada visita que Salvini fez no início do ano ao Sul. E para lembrar este eleitorado do “por agora” de Maroni. Afinal, na actual versão dos estatutos da Liga, aprovada em 2015, a Padânia ainda surge como objectivo último do partido.

Em causa nestes dois referendos está o mandato que os presidentes da Lombardia e do Veneto querem para pedir mais autonomia a Roma, ou como se lê nos boletins de voto “formas suplementares e condições particulares de autonomia”.

Em concreto, ambos reclamam (como a Catalunha) recuperar mais dinheiro dos impostos que geram (querem reduzir a diferença, de 54 mil milhões de euros para a Lombardia e 15,5 mil milhões para o Veneto, para metade). E Maroni, tal como o presidente do Veneto, Luca Zaia, pretendem exigir mais competências em matéria de infra-estruturas, saúde e educação. Também desejam poder decidir em temas reservados ao Estado, como a segurança e a imigração, o que só seria possível através de uma revisão constitucional.

Berlusconi fez campanha a favor dos referendos, o 5 Estrelas está a favor, assim como vários sindicatos e associações empresariais, e até o presidente da câmara de Milão, Giuseppe Sala, do PD, votou “sim”, para embaraço do partido no Governo, que considera estes referendos inúteis. Outros movimentos independentistas, minoritários, também apoiam as consultas, considerando que são um bom primeiro passo.

A vitória do “sim” está garantida, resta saber se a participação chega para legitimar as consultas: no Veneto, onde é preciso que vote 50%, a afluência ao meio-dia (21%) indicava que se atingiria esse mínimo; já na Lombardia tinham votado muito menos eleitores (10,7%) e temia-se uma participação abaixo dos 40% (o objectivo definido por Maroni é de 34%). As urnas só fecham às 23h e os resultados deverão ser conhecidos ao início da madrugada.