Numa aldeia de Poiares, as lições de Pedrógão evitaram uma tragédia

“Bombeiros? Zero. Protecção Civil? Onde? Pessoal da câmara? Vieram só agora de manhã”, notou um reformado, referindo que não ficou “ninguém ferido graças à população”.

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Nelson Garrido

Na pequena aldeia de Casal do Gago, em Vila Nova de Poiares, a população, que combateu o incêndio sozinha, diz que se valeu das lições de Pedrógão Grande para evitar uma tragédia, que poderia ter acabado com vítimas.

Quando as chamas já cercavam a aldeia e toda a gente esperava ao início da tarde de domingo que o fogo chegasse a Casal do Gago, decidiu mandar-se os mais velhos e crianças para o centro de convívio da localidade. Sem avistarem bombeiros ou qualquer outra autoridade, os habitantes valeram-se da pouca água que tinham em bidões para combater as chamas que cercavam as casas e apenas foram retiradas pessoas das suas residências quando estas estavam ameaçadas pelas chamas.

“A nossa sorte foi ninguém fugir, senão as pessoas morriam assadas”, disse à agência Lusa Vítor Ferreira, da Amadora, a passar férias na casa dos seus pais. No terreno, morreram os animais e teve de andar a apagar tudo à volta, se não os seus pais “morriam”. As lições de Pedrógão Grande “ajudaram”, sublinha.

João da Fonseca, reformado, fala numa dúzia de casa habitadas que ficaram destruídas e de pessoas que ficaram só com a roupa que traziam vestida.

Durante o incêndio, retirou uma família de alemães para a sua casa e arrancou à força uma mulher idosa, que tinha a casa a arder e não queria sair da sua habitação. “Antes de vir a bola de fogo, atirei-a para o carro. Teve de ser”, contou João da Fonseca, frisando que a população usou as lições de Pedrógão Grande.

No Casal do Gago, “não houve um Pedrógão igual porque as pessoas se refugiaram e ajudaram-se umas às outras, senão morria tudo”, sublinhou João da Fonseca, dando voz à indignação da população que se viu sozinha a apagar as chamas.

“Bombeiros? Zero. Protecção Civil? Onde? Pessoal da câmara? Vieram só agora de manhã”, notou, referindo que não ficou “ninguém ferido graças à população”. Para o reformado, o que se passou foi “uma vergonha nacional”.

Ao seu lado está Márcio António, com a roupa toda pintada de negro, os olhos vermelhos, cigarro na boca e uma cara de desânimo perante o cenário que se viveu. “Chamei os bombeiros e zero”, conta o habitante da aldeia, visivelmente desolado.

Enquanto fala, alguém avisa que os incêndios em Portugal já provocaram pelo menos 35 mortos.

No olhar das pessoas está cravada a impotência, como a que viveram no domingo, quando viram “tudo a arder à volta”, com chamas a percorrerem “cinco quilómetros em três minutos” e pouco puderam fazer para conter o avanço do fogo. “O que aconteceu aqui foi Pedrógão”, sublinha João da Fonseca.