Academia de Hollywood expulsa Weinstein após acusações de violação

Medida não tem precedentes em relação a casos deste tipo. Actriz britânica da série Hollyoaks, Lysette Anthony, revelou ter sido violada por Weinstein no final da década de 80 - e apresentou queixa à polícia.

Foto
Reuters/MIKE BLAKE

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, responsável pela atribuição dos Óscares, decidiu expulsar neste sábado o produtor Harvey Weinstein, depois de este ter sido acusado de violação e assédio sexual. Esta é uma decisão sem precedentes da academia.

O conselho de governadores da academia, composto por 54 membros, que conta com a presença de figuras como Tom Hanks, Steven Spielberg ou Whoopi Goldberg, reuniu-se de emergência neste sábado para avaliar as acusações de violação e assédio sexual. Em comunicado, explica-se que a decisão foi tomada depois de uma votação “bem superior à necessária maioria de dois terços”.

O comunicado continua depois a explicar a decisão com duras palavras sobre o influente e consagrado produtor: “Nós não nos separamos apenas de alguém que não merece o respeito dos seus colegas, mas também para enviar uma mensagem de que a era da ignorância voluntária e vergonhosa cumplicidade em relação ao comportamento sexualmente predatório e ao assédio no local de trabalho na nossa indústria terminou. O que está aqui em causa é um problema profundamente preocupante que não tem lugar na nossa sociedade”. A academia acrescenta que vai “trabalhar para estabelecer padrões éticos de conduta que todos os membros da academia deverão exemplificar”.

Como explica o New York Times, esta é uma decisão sem precedentes e também surpreendente. Com cerca de 8400 membros, a academia de Hollywood não costuma avançar com este tipo de medidas. Exemplo disso são os casos de Roman Polanski, que foi acusado de violação de uma menina de 13 anos e condenado pelo crime de sexo com menor, ou de Bill Cosby, que aguarda um segundo julgamento por vários crimes sexuais. 

No dia 5 de Outubro, o New York Times lançou a primeira parte de uma investigação sobre as acusações de assédio sexual contra Weinstein e, dias depois, a revista New Yorker acrescentou novos detalhes – dezenas de actrizes, de Ashley Judd a Asia Argento, passando por Gwyneth Paltrow e Angelina Jolie, acusam Harvey Weinstein de assédio, agressão sexual ou violação. Harvey Weinstein, primeiro num comunicado e depois através de porta-voz, nega as acusações de violação que é alvo, bem como a existência de retaliações contra as suas alegadas vítimas, apesar de ter admitido ter cometido erros - "arrependo-me do que aconteceu"; "não podia ter mais remorsos pelas pessoas que magoei".

Este domingo acabou por conhecer mais uma vítima de violação: a actriz britânica Lysette Anthony, conhecida pela série Hollyoaks, revelou numa entrevista ao Sunday Times que no final dos anos 80 foi violada na sua própria casa, em Londres, por Weinstein, numa cena "patética e revoltante", que a deixou "enojada e envergonhada". A actriz contou que fez agora queixa à Metropolitan Police e a Scotland Yard já tinha admitido que recebera uma denúncia de violação sem ter identificado o produtor.

Apesar de ter conhecido Weinstein nos Estados Unidos, foi em Londres que o relacionamento amigável entre os dois passou para a fase do assédio e, depois, para a violação. Lysette Anthony conta que um dia fugiu de casa de Weinstein em Chelsea quando este, semi-despido, a tentou agarrar um dia. Mas que noutra ocasião lhe abriu a porta de sua casa e que o produtor a agarrou e empurrou com violência, tentando beijá-la e que a violou apesar das tentativas de se libertar.

Nos últimos dias, o produtor e distribuidor da Miramax e da Weinstein Company acabou por ser despedido da produtora que fundou com o irmão, as suas séries para a Apple e para a Amazon Studios foram canceladas. As autoridades nos Estados Unidos e no Reino Unido iniciaram já uma investigação às alegações.

Harvey Weinstein conta com várias nomeações para os Óscares, tendo já vencido um prémio da Academia. O Discurso do Rei, Pulp Fiction, O Paciente Inglês, Chicago ou a Paixão de Shakespeare - que venceu o Óscar de Melhor Filme - são algumas das muitas produções cinematográficas que contaram com a colaboração de Weinstein. No total, os filmes que contaram com a sua colaboração receberam mais de 300 nomeações para os Óscares e venceram 81 prémios da Academia. O produtor ajudou também a lançar alguns dos principais nomes de Hollywood. Quentin Tarantino é exemplo disso mesmo.

Além da longa e bem-sucedida carreira na indústria cinematográfica, Weinstein também se tornou um dos mais importantes financiadores das campanhas do Partido Democrata e a filha mais velha de Barack Obama, Malia, estagiou durante um ano na sua empresa. De entre as campanhas democratas que contaram com o apoio financeiro do produtor, está a de Hillary Clinton para as eleições presidenciais do ano passado. Ora, depois de conhecidas as notícias sobre as acusações de assédio sexual, o Partido Democrata já anunciou que os cerca de 30 mil dólares doados por Weinstein na última campanha eleitoral serão redistribuídos por grupos de apoio aos direitos da mulher.

No total, os democratas receberam cerca de 300 mil dólares do produtor ao longo dos anos, escreve o jornal político The Hill, mas dados do Center for Responsive Politics, citados pela estação pública norte-americana PBS, indicam que desde 1992 Weinstein doou mais de 1,4 milhões ao partido dos Clinton e Obama. Um montante que, comparado com os dos grandes dadores, é bastante diminuto, mas tem um perfil público saliente.