Crítica

Egberto e Maria, uma estreia feliz no Centro Cultural de Belém

Egberto Gismonti e Maria João foram felizes na estreia do seu espectáculo em parceria. E fizeram felizes os muitos que encheram a salapara os ouvir. Esta quarta-feira actuarão no Porto, na Casa da Música, às 21h30.

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Egberto Gismonti e Maria João no CCB Pedro Berga
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Egberto Gismonti e Maria João no CCB Pedro Berga

Egberto Gismonti é já um veterano em palcos portugueses, tal como o é, aliás, na sua já extensa e celebrada carreira musical: quase 60 discos gravados, a solo ou em parceria com nomes como Jan Garbarek, Naná Vasconcelos, Hermeto Pascoal, Zeca Assumpção, Jaques Morelenbaum, Yo-Yo Ma, Charlie Haden, Ralph Towner, Francis Hime, Walter Smetak, Airto Moreira, Flora Purim, Marlui Miranda, Jane Duboc ou André Geraissati. A sua parceria com a cantora Maria João, também ela já há muito versada nos palcos do mundo e reconhecida pelos seus dotes vocais, nasceu em Itália devido a um convite, em 2016, e estende-se agora por vários destinos europeus devido a novo e oportuno desafio. Egberto, que já ouvira composições suas (com letra ou sem ela) cantadas ao vivo ou até gravadas na voz de uma cantora como Jane Duboc, viu em Maria João outro patamar em termos interpretativos e cromáticos, como aliás afirmou ao PÚBLICO antes dos concertos: “São raras as cantoras com tanta facilidade, musicalidade, entendimento, disposição e competência diante de repertórios variados musical e culturalmente.”

Este novo encontro, após a experiência fugaz mas estimulante ocorrida no Festival de Jazz de Ravello, em Itália, nasceu assim de um irrecusável desafio. Gismonti, multi-instrumentista, aqui no violão de dez cordas e no piano, e Maria João, cantora, tiveram em Lisboa o primeiro de vários concertos europeus e, nele, a sua prova de fogo. Com o Grande Auditório cheio, o Centro Cultural de Belém, em Lisboa, acolheu assim uma estreia absoluta, na noite de 9 de Outubro (segue-se a Casa da Música, no Porto, dia 11, às 21h30, e depois Luxemburgo, Alemanha, Áustria, Hungria, Suíça).

Gismonti surgiu sozinho em palco para um solo absoluto no seu violão de dez cordas, juntando-se-lhe depois Maria João para uma série de temas onde se incluíram Bianca, Dança das cabeças e uma Aquarela do Brasil (de Ary Barroso) desconstruída quase até à abstracção. As linguagens instrumental e vocal de Egberto e Maria completavam-se, por vezes em vertigem, ora em colorações líricas ora em complexas modulações tonais. Se dominaram, na voz, as onomatopeias (e Maria João quase se aproximou do canto lírico na belíssima Carta de amor), também houve palavra cantada, e o primeiro exemplo foi Saudações, logo após o swingante Alegrinho.

A passagem de Gismonti do violão para o piano trouxe, depois, uma nova canção, Água e vinho, que desta vez Maria João cantou com sotaque português (na anterior mantivera o original brasileiro). Ambiente de recital e excelente intróito aos não menos excelentes Frevo e Don Quixote. Antes do final, ouvir-se-iam ainda Palhaço, 7 anéis e Forrobodó, agora num jogo de escalas muito rápido onde Egberto e Maria brilharam como um só.

A escassez numérica dos temas apresentados foi compensada pela sua maior duração, a começar logo no solo inicial, e pela dificuldade de execução, instrumental e vocal, de quase todas as obras apresentadas. O encore trouxe dois temas: Fala da paixão (que a filha de Egberto, a também pianista Bianca Gismonti, escolheu para integrar o seu disco de estreia, Sonhos de Nascimento) e, por fim, a inusitada sobreposição de um madrigal renascentista italiano, tocado por Gismonti, à letra da bem conhecida canção Retrato em branco e preto, parceria de Tom Jobim com Chico Buarque, aqui cantada com um bom domínio na alteração dos tempos por Maria João.

Foi, pela experiência e pelo resultado, uma noite musical feliz, para a dupla e para o público que em boa hora a escutou. Se daqui não nascer algo mais duradouro, como um disco, será um lamentável desperdício.