Opinião

Combater a invisibilidade na ciência

A ciência é uma profissão e não se sustenta com prémios anuais anunciados em sueco. Vive-se todos os dias, com a dignidade que as leis da nação devem garantir e a visibilidade que a comunidade, plural e solidária, conseguir conquistar.

Na semana em que são anunciados os prémios Nobel, a ciência está nas páginas dos jornais, talvez até mesmo na televisão. Veremos investigadores a receber o famoso telefonema, estremunhados, sorridentes, quase sempre surpreendidos. Habitualmente, são homens brancos por volta dos 60 anos. Como o são nos comités de avaliação, no topo da pirâmide social da ciência, e no resto. Mas este texto é sobre um dos grupos de invisíveis da ciência: os pós-docs, e as tensões que existem entre a formação avançada e as carreiras científicas, numa ameaça escondida à sua sustentabilidade.

Em Portugal, está publicada a Lei 57/2017, que inclui as primeiras alterações parlamentares ao Decreto-Lei 57/2016, que aprovou um regime de contratação de doutorados destinado a estimular o emprego científico. A intenção foi criar um instrumento jurídico destinado ao recrutamento de investigadores numa fase intermédia entre a formação, tipicamente subsidiada por bolsas, e a carreira, associada à docência universitária e à investigação.

Neste sentido, é uma tentativa de combate à invisibilidade porque os pós-docs já não são estudantes – que as universidades acolhem e formam na sua missão ensino, e a quem atribuem o grau académico de doutor, nem são cientistas independentes – porque isso pressupunha uma empregabilidade regulada e um reconhecimento social, inclusive dentro da própria academia.

As dificuldades dos pós-docs não são só portuguesas nem se esgotam nas (poucas) declarações que surgem publicamente, umas enfocadas na desilusão das expectativas pessoais, outras em argumentos de autoridade, e não tanto na discussão concertada de um sistema que garanta a coesão e competitividade do país.

Acontece que, nas últimas décadas, o aumento dos doutorados na ciência não encontrou resposta nos quadros permanentes das universidades e institutos de investigação, e as empresas ainda hesitam em recrutá-los. Por isso, muitos mantêm-se esperançosamente na investigação pública através de bolsas em projectos temporários, prolongando um estatuto de jovem investigador para além do que é demograficamente razoável chamar de jovem, e sem verdadeiras oportunidades de formação ou crescimento profissional. Dada a falta de visibilidade institucional, os dados disponíveis sobre esta população são escassos, o que contribui para a desresponsabilização e mesmo o desafecto.

A verdade é que o acolhimento que as universidades proporcionam é muitas vezes insuficiente e distante, não havendo planos de supervisão claros, uma discussão sobre opções de carreira ou mesmo uma atribuição transparente de responsabilidades docentes. Quantas vezes os pós-docs supervisionam estudantes, prepararam materiais e asseguram aulas sem o devido reconhecimento?

Tudo isto se manifesta agora na inoperabilidade da Lei 57/2017, que resultou de uma luta política de contexto e não de uma discussão participada do problema e do papel das instituições na construção de um programa de emprego sustentável. O pecado original é a ambiguidade nas expectativas da carreira docente e da carreira de investigação, a serem precisas duas carreiras. O elefante na sala é esta invisibilidade que nos últimos anos cresceu num sistema universitário envelhecido onde a tensão intergeracional é evidente. A precariedade é, em primeiro lugar, uma responsabilidade dos dirigentes, que ocupam posições permanentes para cuidar do sistema. Assim como a ciência não interessa só aos cientistas, a precariedade não devia interessar só aos precários.

A Lei 57/2017 transformou-se num mosaico, um instrumento retalhado, tanto do ponto de vista jurídico como político, órfão de vigor. As universidades só o querem para uma transição subsidiada para a carreira docente, não cuidando de modernizar esta mesma carreira, nem de clarificar a gestão dos seus recursos humanos perante as múltiplas missões da universidade.

Mas se as políticas servem por vezes para corrigir a história colectiva, no respeito pelas estórias e trajectórias individuais, é essencial que tragam também uma narrativa de futuro, sob o risco de o hipotecar com presentes envenenados. E se as instituições têm a obrigação de acolher com responsabilidade, também os indivíduos devem fazer as suas escolhas de forma informada. As motivações e as recompensas da actividade científica são muitas, mas não pode ser uma decisão passional.

Há estudos internacionais que mostram o custo de um período de pós-doutoramento quando comparado com outras escolhas profissionais, num quadro de falta de oportunidades na academia (Nature Biotechnology 35, Janeiro 2017). Se a ciência não interessa só aos cientistas, mas ao progresso económico e ao bem-estar social, então é preciso investir neste desafio colectivo e reconhecer o papel crucial do financiamento da ciência.

As vocações, científicas ou outras, não se conquistam com má publicidade e o emprego científico é, antes de mais, emprego. A ciência será invisível enquanto os investigadores o forem (e é evidente a falta de relação da sociedade com uma comunidade que é pequena e discreta, veja-se a baixíssima participação popular na marcha da ciência) em Portugal ou nos Estados Unidos, onde a Academia das Ciências reconheceu o problema e publicou recomendações claras no relatório The Postdoctoral Experience Revisited (2014).

A ciência é uma profissão e não se sustenta com prémios anuais anunciados em sueco. Vive-se todos os dias, com a dignidade que as leis da nação devem garantir e a visibilidade que a comunidade, plural e solidária, conseguir conquistar.

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