Da sublevação catalã à “greve” do capital

A mudança das sedes de empresas é um duro golpe para o campo nacionalista.

A jornada de mobilização do referendo e a greve geral, a 1 e 2 de Outubro, revelaram um clima pré-insurreccional na Catalunha, inseparável da crise do Estado espanhol. É um conflito de longa duração. Barcelona não tem as condições necessárias para a independência. Depois da mobilização da greve geral surgiram sinais de refluxo. A “deserção” da banca catalã é um golpe forte. A estratégia independentista consistirá em continuar a “acumular forças” para negociar com Madrid numa posição favorável.

O conflito desenvolve-se numa lógica de “espiral acção-reacção”. A táctica imobilista de Mariano Rajoy e o vespeiro do sistema partidário espanhol impediram que o Estado tomasse a iniciativa. A iniciativa pertenceu, até agora, ao campo independentista. O seu “roteiro”, que levou ao “6 de Setembro” (aprovação expeditiva das “leis” do referendo e da ruptura com Espanha), foi desenhado com muitos meses de antecedência. Ter iniciativa dá-lhes uma grande vantagem: são eles quem marca os tempos do confronto. Em contraponto, sem iniciativa, o Estado fica limitado à “via repressiva”.

O referendo de 1 de Outubro (1-O) foi concebido como uma jornada de mobilização para acelerar a ruptura. Foi planeado no sentido de opor às polícias uma “muralha de gente”. Rajoy garantiu que não haveria votação e viu-se apanhado numa armadilha. Perante a passividade dos Mossos d’Esquadra (polícia autonómica), fez avançar a Guardia Civil e a Polícia Nacional com efeitos desastrosos. Os independentistas ganharam a batalha das imagens. Marcaram pontos.

A greve geral, inicialmente convocada pelos radicais da Candidatura de Unidade Popular (CUP, anarquista, anticapitalista e anti-UE), foi organizada por duas grandes associações nacionalistas, a Assembleia Nacional Catalã (ANC) e a Òmnium Cultural, que exigem a “independência já”. Os confrontos do 1-O foram o decisivo detonador da amplitude da greve.

Pior ainda para o Governo é a ideia de que estará em vias de perder o “controlo do território”. Foi ridicularizado nas assembleias de voto. Foi a seguir desafiado quando os grupos radicais cercaram o quartel da Polícia Nacional em Barcelona e exigiram a retirada das “forças espanholas”, lançando outras acções de acosso. Enunciavam um programa: a “expulsão” dos representantes do Estado e das forças de “ocupação”. O poder deslocava-se das instituições para a rua: “Las calles serán siempre nuestras”.

“Insurreição tipo Beta”

Outro sinal, nas palavras do jornalista José António Zarzalejos, é a “desinstitucionalização do poder”: a Generalitat abdica do seu poder e entrega a iniciativa a organizações como a ANC, a Òmnium e ou a CUP. Puigdemont perdeu o controlo da situação: “A Generalitat é vítima da sua própria estratégia. Ou segue a ANC, a Òmnium e a CUP, ou incorre em alta traição.”

Há outros olhares. A jornalista Elisa Beni apela a que encaremos a novidade radical da Catalunha, em que “os instrumentos do século XX [não servem] para lidar com rupturas e dinâmicas sociais do século XXI”. Escreve no El Diario: “Na Catalunha, está claramente a decorrer uma insurreição, mas não com as velhas e esgotadas dinâmicas dos séculos passados, mas uma insurreição em tipo Beta, uma espécie de primeiro ensaio do que constituirá a dinâmica da revolução ou da involução políticas do novo século.” As democracias baseadas no Estado de direito e no monopólio da força pelo Estado estariam desarmadas perante “insurreições pacíficas e de ruptura”. Entrámos num mundo virtual: “A pós-verdade é a capacidade de prescindir da realidade ou da verdade.”

O “discurso do Rei”

A ANC, a Òmnim e a CUP convocaram uma mobilização máxima para segunda-feira, dia da reabertura do Parlament catalão, de modo a forçar a declaração unilateral de independência (DUI). O presidente Puigdemont e os seus consellers (ministros) fizeram declarações contraditórias mas reforçaram a crença na iminente proclamação da independência — já na segunda-feira — sob pressão das “massas”.

Entretanto, na noite da greve geral, houve o “discurso do Rei”. Os catalães não gostaram mas levaram-no a sério. A mensagem foi assim lida pelo La Vanguardia: “O Estado vai defender a unidade de Espanha” ou “Artigo 155 à vista [intervenção do Estado].” A ilusão de uma mediação europeia, a arma de recurso de Puigdemont, desvaneceu-se. A única mediação efectiva será a de instituições da sociedade civil espanhola. Na quinta-feira, o Tribunal Constitucional suspendeu a sessão do Parlament marcada para o dia 9. Para contornar a proibição, Puigdemont comparecerá na câmara na tarde do dia 10, para “informar sobre a situação política”.

O tom mudou subitamente. Santi Vila, conseller para as Empresas, demarcou-se da DUI. Teme a intervenção estatal — o artigo 155. “Primeiro temos de serenar e acordar um cessar-fogo, não tomar decisões nos próximos dias. A suspensão da autonomia ou as detenções aumentariam as tensões e polarizariam a situação.” Publicou também um artigo no soberanista Ara que abre com uma inesperada linguagem: “O que distingue os fanáticos do resto das pessoas é que para eles a realidade não interessa, especialmente se contraria as suas próprias convicções.” Previne: “Também é um facto que poucas semanas antes foi aprovado, pela maioria soberanista do Parlament, um ordenamento legal que não será aceite como lícito pela minoria constitucionalista.”

O Partido Democrático Europeu Catalão (PDeCAT), de Vila e de Puigdemont, apelou ao adiamento da DUI. Enfim, o ex-presidente Artur Mas declarou ontem ao Financial Times que “a Catalunha ganhou o direito a ser independente” mas ainda não tem condições para uma “independência real”. Aconselha prudência.

“O fantasma da Grécia”

Na quinta-feira, a edição online do Ara abria com este título: “O fantasma da Grécia paira sobre a Catalunha.” Na sequência do 1-O e da greve geral, os bancos catalães caíram a pique na bolsa. O clima de insegurança levanta o espectro da crise financeira. Os casos não são comparáveis. Mas a “deserção” dos dois grandes bancos catalães (e espanhóis), Caixa Bank e Sabadell, que transferiram preventivamente as suas sedes para as Baleares e Alicante, fez soar o alarme. Outras empresas seguiram o exemplo. E investidores estrangeiros ameaçam sair da Catalunha no caso de proclamação da independência.

Ao longo dos últimos anos, as organizações empresariais catalãs lançaram repetidos avisos contra o independentismo. O temor agravou-se com o radicalismo da CUP e a sua crescente influência sobre Puigdemont e partidos soberanistas. Todas as pressões falharam. Mas o capital pode também “fazer greve”. É o que está a acontecer.

Os bancos e outras empresas agem por motivos económicos e por receio da insegurança. Mas não só. O ministro das Finanças, Luis de Guindos, fez uma rápida alteração legal que facilita a transferência das sedes. O Ara chama atenção para a dimensão política do acto e para a vulnerabilidade da Catalunha: “Guindos viu que ajudar as empresas desejosas de mudar a sede — pelo facto de transmitir a sensação de que a independência terá custos irreversíveis na vida económica e social — podia ser mais eficaz do que as medidas jurídico-penais e policiais.”

Moral: ainda a procissão vai no adro.