Opinião

Xeque-mate à direita

António Costa fez xeque-mate à direita, por muitos e bons anos. E quando assim é, os colunistas como eu podem continuar a escrever colunas, mas os políticos com ambição de poder têm de dar lugar a outros.

Fico fascinado com os meus amigos de direita que se esfalfam a fazer contas e continhas para demonstrar que a derrota do PSD não foi assim tão grande, que pior do que o PSD foi o PCP, que António Costa vai ter graves problemas em manter a estabilidade da “geringonça”, que pior do que PSD e PCP é a implantação ridícula do Bloco a nível autárquico, que Teresa Leal Coelho e Assunção Cristas tiveram juntas muito mais votos do que PSD e CDS coligados em 2013. Que, que, que…

Isto é patético. Se um homem for atropelado por um autocarro, há duas atitudes possíveis. Uma, é constatar que ele foi atropelado por um autocarro. A outra, é assinalar que ainda consegue abrir um olho e mexer um pé. Eu sou dos que prefiro constatar a existência do atropelamento, até por respeito ao atropelado. Aliás, é por respeito que desejo vê-lo fora da liderança do PSD. Se Passos Coelho sair agora, ele poderá voltar dentro de alguns anos, quando o ciclo económico mudar e todos nós concluirmos que aquilo que a esquerda andou a fazer não chega para nos safar de nova crise. Se Passos Coelho não sair agora, duvido que algum dia regresse. Ele irá arrastar-se até às legislativas de 2019, onde desembocará esgotado, maltratado e traído, para receber em troca, com altíssima probabilidade, uma derrota humilhante. Dificilmente voltará a reerguer-se.

No final de 2015, a direita cometeu um duplo erro: não acreditou na “geringonça” e acreditou em António Costa. O contrário é que estava certo: acreditar na solidez da “geringonça” e não acreditar no programa de António Costa. Assim que as pessoas perceberam que as contas se endireitavam sem a direita, Passos Coelho ficou sem espaço de manobra. Há quem pense que a história do diabo foi um enorme erro, e eu sou um deles. Mas com diabo ou sem ele, Passos nunca teria qualquer hipótese de bater António Costa a partir do momento em que este conteve os delírios da esquerda, pôs o país a crescer e o desemprego a diminuir, e devolveu dinheiro a funcionários públicos e reformados. Os portugueses não são estúpidos – eles sabem que a página de austeridade não foi virada. Mas preferem esta à outra.

Dir-me-ão: todos os problemas estruturais da economia portuguesa continuam intocados e o actual governo não tem margem de manobra para mudar nada. É um facto. Só que, neste momento, o governo não precisa de mudar. A política é como a comédia – o timing é tudo. António Costa teve o mérito e a sorte de acertar no timing perfeito para governar – Europa a crescer, turismo a disparar, povo assustado com a troika, empresários acordados pela troika, esquerda unida pelo ódio às “políticas de direita”, enfim, uma conjugação astral digna de Euromilhões –, e Portugal está a confundir acerto no timing com acerto nas políticas. Contudo, estar convicto disto adianta muito pouco. Aquilo que eu vejo, tal como aquilo que Passos Coelho vê, não é o que a maior parte dos portugueses está a ver.

António Costa fez xeque-mate à direita, por muitos e bons anos. E quando assim é, os colunistas como eu podem continuar a escrever colunas, mas os políticos com ambição de poder têm de dar lugar a outros. Aquilo que lá vem, como há semanas alertei, pode bem ser a revelhação do PSD, em vez da sua renovação. É, aliás, o mais provável, porque assim que a vaca começa a engordar deixa de haver liberais em Portugal. Imaginar o PSD liderado por um António Costa cor-de-laranja é bastante triste. Mas os votos não enganam: é isso mesmo que o país quer.  

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