Philip Roth entra na Colecção Pléiade

Escritor norte-americano rompe silêncio de anos. Em entrevista ao Libération, fala dos seus livros e das suas personagens, e do “pesadelo que a América agora vive”, classificando Donald Trump como um “ignorante” e um “mentiroso compulsivo”.

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Philip Roth Reuters/ERIC THAYER

Na mesma altura em que vê completada a edição da sua obra na muito reservada Biblioteca da América, o escritor norte-americano Philip Roth (Newark, 1933) vai começar a ser editado na também muito prestigiada colecção Biblioteca da Pléiade, em França. No próximo dia 5 de Outubro, sai o primeiro volume de uma selecção de obras do autor de A Conspiração contra a América, que a Pléiade classifica como “um dos grandes autores da sua geração”.

Esta primeira colectânea de Roth em edição francesa reúne cinco livros (romances e contos) produzidos entre 1959 e 1977. São eles Adeus Columbus (Goodbye Columbus, 1959), uma recolha de contos publicados quando o escritor tinha ainda 26 anos; O Complexo de Portnoy (Portnoy’s Complaint, 1969), o romance iconoclasta que tornou o seu nome conhecido nos meios literários americanos e depois internacionais; a fábula kafkiana The Breast (1972); My Life as a Man (1974), apresentação da figura de Nathan Zuckerman, visto como um alter-ego do autor; e The Professor of Desire (1977), biografia de outra personagem das ficções de Roth, David Kepesh – as traduções portuguesas destes livros foram editadas pela Dom Quixote.

A edição da Pléiade surge menos de um mês após a saída nos EUA, a 12 de Setembro, do décimo e último volume com as obras de Roth na Biblioteca da América – uma equivalente da Pléiade –, reunindo, sob o título Why Write? (Escrever porquê?), um conjunto de ensaios do autor.

A chegada a Paris da nova colectânea foi ocasião para o jornal Libération conseguir uma improvável entrevista com Roth, que em 2012 anunciou a sua “reforma” da escrita (o seu último romance foi Némesis, em 2011, editado em Portugal no ano seguinte) e se manteve desde então numa espécie de reclusão mediática.

Interrogado pela escritora e jornalista Josyane Savigneau, Roth começa por falar dos seus livros e da selecção agora feita pelos responsáveis da Pléiade: explica que a exclusão, neste primeiro volume, do segundo livro que publicou, Letting Go (1962), é da exclusiva responsabilidade do editor, mas que no caso de The Great American Novel ele próprio entendeu que esta história, mesmo não sendo exclusivamente sobre o beisebol, seria “hermética” para o leitor europeu.

Na conversa com Savigneau, o romancista americano de ascendência judaica reconhece que foi com O Complexo de Portnoy que encontrou a sua voz de escritor. “Não se trata tanto da minha voz, mas da voz que convinha ao livro, ou àquela personagem, se preferir. Eu aprendi, com a experiência, que cada livro exige o tipo de voz e a variação de tom que melhor se adequam ao tema evocado”, explica.

Roth fala também das personagens dos seus romances – Nathan Zuckerman, Mickey Sabbath, David Kepesh, Peter Tarnapol... –, e da relação que eles têm (ou não tanto) com a sua própria biografia.

O pesadelo da América

Após vários anos de silêncio, Roth não se eximiu a falar da América actual, e do “pesadelo” – o termo é dele – por que o seu país está a passar. “Trata-se verdadeiramente de um pesadelo”, responde o escritor a uma associação, feita pela entrevistadora, da história do livro A Conspiração contra a América (2004) com a actualidade. Esse pesadelo “deve-se ao facto de esse homem que foi eleito Presidente dos EUA padecer de um narcisismo agudo”, ser “um mentiroso compulsivo, um ignorante, um fanfarrão, um ser abjecto animado de um espírito de vingança, e já um pouco senil”.

O autor de A Humilhação nota ainda: “Mas, dizendo isto, eu desvalorizo os seus caprichos”, já que, “dia após dia, o seu comportamento, a sua falta de experiência e a inépcia das propostas que apresenta publicamente indignam-nos”. Roth teme mesmo que não haja “nenhum limite para os perigos em que a loucura deste homem arrisca meter o país e o mundo inteiro”.

O escritor aborda também a questão do eventual ressurgimento do anti-semitismo na América, considerando não verificar esse facto. “O anti-semitismo manifesta-se no seio da direita ultranacionalista, mas não podemos dizer que o país seja anti-semita, ou que esteja perto de cair no ódio aos judeus de uma maneira significativa”, diz.

Já sobre o racismo, mesmo se diz não acreditar que a maioria dos americanos seja “racista convicto” – “há é um punhado de racistas dispostos a tudo entre os eleitos para o Congresso, e há um na Casa Branca”, nota –, Roth radica esse fenómeno no “pecado original do esclavagismo”, considerando que “as raízes do ódio racial e da desconfiança perante o outro remontam ao mais fundo do [seu] país”. Acrescenta que os danos causados ao longo da história nacional americana “são incalculáveis”, e não o surpreende que algumas “consequências ignóbeis desses danos permaneçam ainda presentes nos espíritos, e que o trabalho de destruição continue”.

Philip Roth diz ocupar-se agora, sobretudo, com a leitura de livros sobre a História da América. Já sobre o silêncio a que se remeteu, como romancista e como cidadão, nos últimos anos, explica que “contar histórias”, essa coisa que foi tão preciosa durante toda a sua existência, já não está no centro da sua vida, e quer agora experimentar outras coisas.

“É estranho. Nunca imaginei que me pudesse acontecer uma coisa destas. Mas a verdade é que acontecem-nos sempre muitas coisas que jamais imaginávamos”, conclui.