Fome aumentou no mundo pela primeira vez em dez anos

Havia 815 milhões de pessoas a passarem fome em 2016, mais 38 milhões do que no ano anterior.

Uma criança que passa fome num hospital no Iémen em 2016
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Uma criança que passa fome num hospital no Iémen em 2016 Reuters/ABDULJABBAR ZEYAD

A fome no mundo aumentou pela primeira vez em dez anos. Em 2016, a fome crónica atingiu 815 milhões de pessoas, 11% da população mundial e mais 38 milhões de pessoas do que em 2015, indica um relatório das Nações Unidas divulgado esta sexta-feira com os dados de 2016. Esta subida põe o número de pessoas com fome crónica ao nível de 2009.

O estudo sobre a segurança alimentar mundial refere que este aumento se deve “em grande parte à proliferação dos conflitos violentos e aos desastres climáticos”. Das 815 milhões de pessoas que viviam em 2016 numa situação crónica de fome, 489 milhões viviam em países com conflitos. Durante o último ano, a situação de fome atingiu um nível "extremo" em vários países, com zonas do Sudão do Sul, Iémen, Somália e Nordeste da Nigéria a serem consideradas em crise profunda.

O relatório é publicado por três agências da ONU — a Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO), o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e o Programa Alimentar Mundial (PAM) — a que se juntaram pela primeira vez o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e a Organização Mundial de Saúde (OMS).

“Este relatório faz as campainhas soarem e não podemos ignorar: não vamos acabar com a fome e com todas as formas de malnutrição em 2030 a não ser que encaremos os factores que minam a segurança alimentar e a nutrição”, lê-se no documento assinado pelas cinco organizações.

“A situação da segurança alimentar piorou visivelmente em partes da África subsariana, no Sudeste asiático e na região ocidental da Ásia. Isto foi mais notável no caso de situações de conflito, em particular quando os impactos do conflito na segurança alimentar eram somados às secas e as cheias ligadas em parte ao fenómeno do El Niño e a catástrofes relacionadas com o clima”, avança o comunicado publicado no site da FAO.

No total, cerca de 155 milhões de crianças menores de cinco anos registaram atrasos de crescimento devido à fome, segundo o relatório. A maior proporção de crianças com fome ou desnutridas concentra-se em zonas de conflito. Por outro lado, há 41 milhões de crianças menores de cinco anos com excesso de peso, o que aumenta o risco de obesidade e de doenças na idade adulta.

“Estas tendências são uma consequência não apenas dos conflitos e das alterações climáticas, mas também das mudanças profundas dos hábitos alimentares” e da pobreza ligada à “desaceleração económica”, refere um comunicado.

Estes números são como “um apontar o dedo à humanidade”, disse ainda David Beasley, líder do PAM, citado pela agência Reuters. “Com todos os sucessos da tecnologia e com o aumento da riqueza nós deveríamos estar a ir com toda a força na direcção oposta”, acrescentou. “Pedimos a todos os líderes do mundo para fazerem a pressão necessária para pôr fim a estes conflitos para que possamos atingir o número zero de pessoas com fome.”

Segundo as agências da ONU, 520 milhões de pessoas com fome encontram-se na Ásia, 243 milhões em África e 42 milhões na América Latina e Caraíbas. De acordo com aqueles números, 11,7% da população asiática passa fome, assim como 20% da africana e 6,6% da população que vive na América Latina e Caraíbas.

Cindy Holleman, uma economista sénior da FAO explica que é difícil para já determinar se esta subida é uma anomalia ou o início de uma nova tendência. No entanto, o aumento de conflitos e as alterações climáticas são causas de preocupação. “Estamos a enviar sinais de aviso”, diz Cindy Holleman, citada pelo jornal britânico The Guardian. “Algo está a passar-se.”