Na turma dos candidatos repetentes também há casos de bom aproveitamento

Há candidatos que viram a perseverança recompensada com a conquista da presidência da câmara ou que foram eleitos vereadores. Outros nem isso. Mas insistem...

Em 2005, Ricardo Rio encaixou a derrota em Braga com “alguma tranquilidade”. Mas perder em 2009 foi um “choque forte do ponto de vista anímico”
Em 2005, Ricardo Rio encaixou a derrota em Braga com “alguma tranquilidade”. Mas perder em 2009 foi um “choque forte do ponto de vista anímico” Diogo Baptista
Ilda Figueiredo, do PCP, já foi vereadora no Porto, em Gaia e em Viana do Castelo
Ilda Figueiredo, do PCP, já foi vereadora no Porto, em Gaia e em Viana do Castelo Nelson Garrido
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As eleições autárquicas são sempre uma oportunidade para renovar rostos e projectos políticos, mas em todos os partidos, até mesmo em grupos de cidadãos eleitores, há candidatos que já quase perderam a conta ao número de vezes que tentaram, com e sem sucesso, às vezes até em diferentes concelhos, a eleição.

A ex-vereadora da CDU, Ilda Figueiredo, é quase uma candidata autárquica profissional e, provavelmente, será a única que já foi autarca em três municípios diferentes: Porto, Vila Nova de Gaia e Viana do Castelo. Nestas eleições, Ilda Figueiredo foi de novo convidada pelo PCP para liderar a candidatura ao Porto, uma escolha que a obrigou a renunciar, em Fevereiro, ao mandato de vereadora em Viana do Castelo.
O que leva os partidos a apostar várias vezes nos mesmos candidatos?

Na opinião do professor auxiliar da Universidade Católica e coordenador científico do Centro de Investigação do Instituto de Estudos Políticos, André Azevedo Alves, existem “várias motivações possíveis para esses casos, algumas não mutuamente exclusivas. Haverá situações de forte empenho na política local que justificam a participação repetida”. Mas acrescenta que “poderá haver casos também de serviço ao respectivo partido, numa lógica de assegurar representação mesmo em circunstâncias adversas”.

Mestre em Ciência Política, André Azevedo Alves sublinha, em declarações ao PÚBLICO, que “em alguns casos podemos estar perante um investimento para aumentar o reconhecimento e notoriedade juntos dos eleitores para aumentar as possibilidades de uma eleição futura”.
A cerca de duas semanas das eleições autárquicas, Ilda Figueiredo mostra-se confortável no papel de candidata ao Porto e antecipa que, se não for eleita para a presidência da câmara, assumirá o seu lugar de vereadora. “Candidato-me em função de propostas, de objectivos e de ideias que defendo, não me candidato em função de quaisquer interesses ou benesse pessoal”, afirma, explicando: “Aceito também este desafio numa perspectiva de humildade democrática, não desistindo nunca, qualquer que seja o resultado eleitoral. É a oportunidade que tenho de defender as populações e de encontrar respostas para os seus problemas e para os problemas da cidade.” A candidata puxa pelo lado da “insubordinação” que diz existir na sua candidatura para declarar que a “cidade precisa dessa insubordinação”.

O social-democrata Ricardo Rio é outro exemplo de um candidato resiliente, que nunca deixou de acreditar que um dia seria presidente da Câmara de Braga. A vitória sorriu-lhe à terceira vez e a sua eleição, em 2013 — quando a limitação de mandatos já não permitia a recandidatura de Mesquita Machado — pôs um ponto final no longo consulado de 37 anos de governação socialista.
José Luís Carneiro, actual secretário de Estado das Comunidades, também foi a jogo três vezes e só à terceira é que os eleitores de Baião o elegeram para presidente de câmara, derrotando a toda-poderosa Emília Silva, do PSD.

Ricardo Rio afasta qualquer “obstinação” por ser presidente da câmara a que se recandidata e conta: “Fui fazendo esse percurso precisamente porque tinha essa convicção de que um dia merecesse a confiança dos bracarenses seria capaz, com a minha capacidade de trabalho, com o projecto que tinha construído para a cidade, de ser eleito presidente de câmara”.

“Fenómeno do móvel velho”

Eleito com maioria absoluta, Rio explica como foi difícil chegar à presidência. “Havia factores que obstaculizavam a mudança. Estávamos a lidar com o poder que estava em funções desde o início do período democrático e, em 2009, o ex-presidente foi pela última vez candidato. Houve quase aquele fenómeno do móvel velho que tínhamos na sala, que as pessoas, por mais que não gostassem dele, por mais que achassem que ele já não estava enquadrado com o resto da mobília e com o resto da casa, também tinham alguma resistência em o substituir”, conta em jeito de graça.

E se é verdade que em 2005 Ricardo Rio assimilou a derrota com “alguma tranquilidade”, em 2009 assume que perder foi um “choque forte do ponto de vista anímico”. “Estávamos perfeitamente conscientes de que tínhamos todas as condições para vencer as eleições, tínhamos feito um trabalho que não me esquivo a chamar notável, não só como oposição, mas também enquanto candidatura e que, no fundo, nos poderia conduzir a essa mesma vitória”, avalia.

Nas autárquicas de 2013, já sem Mesquita Machado a concorrer pelo PS, Ricardo Rio chega à presidência da Câmara de Braga, correspondendo ao “do desejo de mudança que”, garante, “estava latente nos bracarenses”.

Repetente, mas pouco, Joana Mortágua diz que o BE voltou a apostar em si porque há um trabalho que começou a ser construído há quatro anos que não pode ser desperdiçado, mas também porque “há um misto de vontade pessoal com interesse colectivo e com oportunidades que se conjugam”.

Considerando-se mais bem preparada “para fazer valer as propostas do partido”, a deputada explica que, no seu caso, formou-se uma equipa e “achou-se que se devia dar continuidade a esse trabalho”. “Somos hoje mais conhecidos do que éramos há quatro anos, e as pessoas conhecem as nossas propostas”, “há um fio condutor da candidatura em termos dos eixos políticos e das próprias propostas”, alega a bloquista.
Assim, o propósito, diz, foi “agarrar no projecto de há quatro anos, melhorando-o e renovando-o”. E tal como Ilda Figueiredo no Porto, também Joana Mortágua considera que a sua recandidatura à Câmara de Almada “é um trabalho de humildade”.

Demarcando-se daqueles que, perdendo, transformam as derrotas em vitórias, a deputada do BE garante que o seu projecto “não está esgotado, pelo contrário. É um projecto que precisa de ser divulgado e que precisa de criar onda, e eu acho que nós estamos a conseguir criar onda”.

A professora de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho (UM) Felisbela Lopes considera que a limitação de mandatos acabou por abrir as portas aos candidatos resistentes, que disputam as eleições diversas vezes, na expectativa de serem eleitos. E neste grupo encaixam “aqueles que fizeram da política a sua vida profissional ou que não têm uma profissão mais interessante para além daquela que a política lhes pode oferecer”.

Embora considere que há candidatos que estão disponíveis para disputar eleições uma, duas, três vezes e mais vezes, como acontece nestas autárquicas com António Serafim, que encabeça pela quarta vez a lista da CDU à Câmara de Vila Real, a professora da Universidade do Minho nota, no entanto, que os partidos mais pequenos são aqueles que mais facilmente tenderão a repetir candidatos, por terem menos apoiantes disponíveis para irem a votos.