Editorial

O futebol entra a pés juntos sobre a democracia

A Liga de Clubes marcou para dia 1 de Outubro os dois jogos mais importantes da jornada. E agora pergunto eu: dia 1 de Outubro, lembra-lhe alguma coisa?

É tão fácil adivinhar como tudo aconteceu. Os clubes grandes têm Liga dos Campeões na última semana deste mês — há até um Sporting-Barcelona que vai ser um regalo para os adeptos da bola. A selecção tem dois jogos marcados para o início de Outubro, decisivos para a qualificação para o Mundial de 2018. O primeiro, azar dos azares, é fora, em Andorra — e até o seleccionador, Fernando Santos, já se queixou de que a equipa vai ter de fazer viagem de autocarro, para lá e de volta para cá, o que vai cansar os jogadores antes do jogo superdecisivo contra a Suíça, em Lisboa. 

Para quem gosta de futebol, prometem-se dias em cheio: muito dinheiro em jogo, muitos espectadores para as televisões, muitas expectativas para os jogadores. Vai daí, entre jogos até quarta-feira, dia 27 de Setembro, e a entrada em estágio da selecção, a Liga de Clubes nem pensou duas vezes: marcou para dia 1 de Outubro os dois jogos mais importantes da jornada. E agora pergunto eu: dia 1 de Outubro lembra-lhe alguma coisa? 

Pois, entretidos nas suas muito dignas guerras de emails e videoárbitros, os senhores do futebol fingiram nem saber que é precisamente nesse dia que os portugueses são chamados a votar, escolhendo os seus próximos presidentes de câmara e de junta de freguesia, assim como as respectivas assembleias. Não, estas não serão as eleições mais importantes da nossa história. Mas não, o país, os portugueses não mereciam que o futebol tivesse entrado a pés juntos sobre a democracia.

Mais triste é que ninguém reclama. O CDS está calado, o PSD também. O Bloco lá deixa cair uma crítica, numa frase simples. O Governo também se remete ao silêncio, mas — calma! — o líder parlamentar do PS não vê qualquer problema em que o Sporting-Porto, primeiro clássico do ano, comece ainda antes de as urnas fecharem. Realmente, que importa se milhares de adeptos do Porto só o sabem agora e já nem podem votar por antecipação? O melhor é nem perguntar o que Carlos César acha do Marítimo-Benfica começar logo depois, deixando televisões e rádios numa emissão esquizofrénica, entre os resultados e os comentários, deixando os portugueses ainda mais longe do acto cívico que lhes é devido, uma vez de anos a anos.

Se calhar, quem tem razão é Carlos César, ou os políticos que nada dizem. Se calhar quem tem razão é a Liga de Clubes e a Federação de Futebol: no dia 1 de Outubro é mais importante a frescura física de Pizzi ou de Wiiliam Carvalho do que a consciência democrática dos portugueses. Talvez a selecção assim chegue ao Mundial da Rússia. Esperemos que não chegue cá a sua democracia.