Crónica

Turismofobia, Madonna e eleições

São necessárias políticas de antecipação e compreender a cidade como um todo, reconstruindo vontades políticas colectivas.

Há quatro anos, aquando das últimas eleições autárquicas, os debates sobre as cidades de Lisboa e Porto não começavam pelo turismo. Hoje está no centro da discussão, mais em Lisboa, mas também no Porto.

Mais paradoxal ainda: foi em grande parte graças ao turismo, apresentado como motor do desenvolvimento, que António Costa venceu confortavelmente em Lisboa, ao mesmo tempo que Rui Moreira cativou os eleitores com a concepção de uma cidade desejável.

Em quatro anos aquilo que era sucesso e orgulho, pelo reconhecimento no exterior, é agora problema. A mudança foi brusca. E as posições extremaram-se. Se antes só se entreviam factores positivos, como as receitas e a requalificação de algumas zonas, agora são os negativos que toldam todas as visões, com a diminuição da qualidade da vida local.

Era previsível. Deixou-se o mercado funcionar. E agora aí temos a conflitualidade agudizada, a turismofobia, que atravessa todos os espectros ideológicos. Poder-se-á pensar que o que aconteceu recentemente em Barcelona e San Sebastian, com grupos a hostilizarem turistas, não chegará a Portugal. Mas as marcas de zanga já estão aí. A vontade de adaptar, regular, diversificar ou gerir fluxos é imperativa. Mas o antagonismo não é tolerável. Todos somos turistas.

Todos sabemos que o turismo traz problemas novos e agrava outros que nunca foram realmente enfrentados e que agora se intensificaram gravosamente (como a habitação e o imobiliário, que já antes gerava exclusão, por impossibilidade de acesso ao mercado, por parte de quem desejava e não conseguia viver nos centros), mas se queremos viver em cidades onde coabitação, diversidade e mobilidade é possível, não se pode cair na estigmatização. Não é o turismo, nem os turistas, que devem ser combatidos, mas sim a ausência de equilíbrio.

O direito à cidade é de todos, portugueses e estrangeiros, moradores e população flutuante. Diz-se que há gente a mais. Mas apenas no tecido urbano central, com destaque para os bairros históricos. A solução é diversificar, fomentar novos pólos, aproveitando até o facto da centralidade metropolitana de Lisboa estar em mutação e criar políticas públicas eficazes, mas com pinças, tendo em atenção a qualidade e bem-estar dos residentes e utilizadores da cidade, sabendo de antemão que há muitos interesses envolvidos e nem todos ficarão satisfeitos. 

Com estas dinâmicas há acesas discussões acerca da identidade dos lugares. A proliferação de viagens de baixo custo e a insegurança noutros territórios ajudam a perceber o efeito gerado. Mas essa é apenas uma ínfima parte da história. Desde há muito que era nítido que havia aqui características para o turismo de consumo emocional. As experiências urbanas, a escala humana, os bairros, a bonomia, a cultura mediterrânica, a boémia, o Sol, o mar, a gastronomia e a vitalidade cultural, informal e intercultural, ajudam a perceber o sucedido. Mas é ingénuo pensar que são apenas as especificidades que contam.

Madonna, cidadã em trânsito, que nunca se percebe muito bem onde vive, sabe-o bem. Ela pode estar apaixonada neste momento porque Lisboa lhe devolve uma experiência, uma história ou uma emoção, mas apenas a partir do momento em que lhe é restituído algo que espera encontrar. O que conta neste tipo de dinâmicas é a coabitação entre particularidade e familiaridade. Aquilo que é identificativo de certo lugar – que está em permanente reconstrução e não é algo essencialista – é prezado, mas só até certo ponto. A identidade é procurada, mas também se deseja o reconhecimento e o tipo de reconforto globalizado.

O turismo, já se percebeu, vive entre tensões não resolvidas. Não é fácil garantir o equilíbrio ambiental, socioeconómico e cultural das cidades. Ainda assim esperava-se mais neste tempo de eleições. Tem havido quantidade, mas pouca qualidade na discussão. Em muitas cidades tem-se apostado em políticas públicas de contenção. Convinha perceber se algumas farão sentido aqui. Exemplos? Limitação de cruzeiros. Variação da oferta cultural zonal. Limitação do número de noites permitidas de aluguer de casas privadas. Regulação da utilização máxima do Airbnb. Limitação do arrendamento de curto prazo. Inibição do arrendamento de casas inteiras promovendo o alojamento local numa base de partilha entre proprietários e residentes. Ou promoção do arrendamento esporádico através da inibição do aluguer de curta duração, conforme um certo número de dias por ano a acordar.

Os exemplos são inúmeros e Lisboa e Porto têm de perceber o que querem fazer no meio destas encruzilhadas. Já nem sequer é possível pensar nestas questões a partir de um prisma só local porque as partes interessadas são de diversas origens e de interesses diversos. Uma coisa é certa, a situação tal como está não é sustentável. São necessárias políticas de antecipação – prever mudanças, percebê-las na sua curva ascendente para as melhor gerir – e compreender a cidade como um todo, reconstruindo vontades políticas colectivas. De contrário, daqui a quatro anos, a situação estará pior para quem reside em permanência nas cidades e Madonna já não estará certamente em Lisboa, atraída por outra urbe qualquer que momentaneamente lhe seja mais apelativa. 

A rubrica Crónica encontra-se publicada no P2, caderno de Domingo do PÚBLICO