Bisavô de Mário Centeno ajudou a virar a página da monarquia em Alcoutim

O ministro das Finanças passou a infância a ouvir contar estórias de contrabandistas na vila raiana que continua à espera da ponte sobre o Guadiana. A “primeira pedra” foi lançada pelo Partido Socialista, quando Barroso era primeiro-ministro.

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O nome de José Centeno de Passos foi atribuído a uma rua D.R.
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O bisavô de Mário Centeno foi autarca em Alcoutim Nuno Ferreira Santos
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Carlos Brito: Mário Centeno tomava café em Vila Real de Santo António com o "perigoso comunista", então um preso político em liberdade condicional evr Enric Vives-Rubio

José Centeno de Passos, um senhor de bigodes retorcidos, à boa maneira do início do século XX - o seu retrato ocupa o primeiro lugar na galeria dos autarcas de Alcoutim – foi o bisavô do actual ministro das Finanças e um dos que ajudaram a virar a página do regime monárquico, tendo sido o primeiro presidente do município a seguir à implantação da República. Num regresso às origens, recentemente Mário Centeno recordou os “largos verões” que passou na vila onde ainda se ouvem histórias do contrabando, lembrando os tempos em que a Europa tinha as fronteiras vigiadas pelas miras (nem sempre certeiras) das espingardas da Guarda Fiscal  

Por ocasião das comemorações do centenário da República, foi dado o nome do “primeiro presidente da câmara” de Alcoutim a uma rua. Apesar disso, pouco se conhece da vida e influência política deste republicano. “Não é por acaso que isso acontece”, observa o antigo dirigente do PCP, Carlos Brito, justificando: “A ditadura procurou apagar ou eliminar da história figuras como José Centeno.”

O bisneto, a meio de Agosto, aproveitou uma deslocação à terra onde tem as raízes familiares e afinidades políticas para resgatar do esquecimento a memória dos antepassados. “Recordo aqui meu pai, alcoutenejo de Giões, não muito distante daqui, onde passei largos verões e aprendi como é dura a vida de uma aldeia do interior algarvio.” A declaração foi proferida em Martim Longo, durante o jantar de apresentação da recandidatura de Osvaldo Gonçalves, socialista, à presidência da Câmara de Alcoutim.  

O dissidente comunista Carlos Brito, de 84 anos, também alcoutenejo, elogia a avó do ministro: “Foi professora do ensino primário em Giões e Alcoutim e o magistério da influência que ali exerceu foi tal que se dizia que lá não havia analfabetismo.” Mais tarde, também deu aulas em Alcoutim. O avô, António Centeno, agricultor, não passava despercebido quando se deslocava à vila. “Vinha visitar a mulher numa charrete puxada por um cavalo com muitos guizos”, lembra o antigo dirigente do PCP, que se afastou da militância partidária mas não da intervenção política e cívica. O seu livro mais recente, Cadeia do Forte de Peniche, é um exemplo da contínua batalha para que não seja apagada a memória do país.  

Sobre os festejos relacionados com a implantação da República na região, os investigadores Aurélio Cabrita e Jorge Palma, numa brochura publicada pelo munícipio em 2010, enfatizam o isolamento do concelho. “Sobre esta vila e ao invés de outras localidades algarvias, os jornais regionais ou nacionais não publicaram qualquer informação relativa aos acontecimentos associados à recepção da notícia da proclamação da República.”

O  concelho de Alcoutim, situado no nordeste algarvio, continua a ser um dos mais pobres do conjunto dos municípios portugueses. Do outro lado da fronteira, San Lúcar de Guadiana, padece do mesmo mal –  apesar de ter havido, nos últimos anos, uma significativa melhoria nas vias de comunicação, os custos da interioridade continuam visíveis nestas vilas raianas que encontraram, no passado, formas de subsistência nas transacções ilícitas.

O Festival do Contrabando, realizado no passado mês de Março, recriou e encenou alguns dos muitos episódios da vida quotidiana das populações das margens do Guadiana, quando a Península Ibérica estava fechada sobre si própria. O evento serviu de pretexto para juntar pessoas dos dois lados da fronteira e trazer visitantes, atraídos pela oferta do turismo cultural na época baixa. “De Espanha, nem bom vento nem bom casamento”, dizia-se quando a Península Ibérica estava isolada do resto do continente europeu. A verdade, porém, é que as uniões familiares entre os dois países sempre aconteceram, mesmo quando os ventos da política não sopravam de feição. A localização transfronteiriça da vila e do concelho, afirmou Mário Centeno, conferem-lhe características únicas no contexto regional. “O rio trazia-nos tudo. O bom e o menos bom.” As cheias e a distância acentuavam as fracas condições de vida e a interioridade.

Ponte suspensa em promessas

Vem de longe a promessa da construção de uma ponte rodoviária que una as duas margens do Guadiana. A proposta surge inscrita, ciclicamente, nos programas eleitorais dos partidos que concorrem às eleições autárquicas. Em 1988, após a realização da 15.ª Cimeira Ibérica em Albufeira, os antigos chefes dos Governos de Portugal e Espanha, António Guterres e José Maria Aznar, deixaram inscrito nas conclusões do encontro que o projecto passaria a figurar nos compromissos que seriam assumidos com Bruxelas.

Carlos Brito foi o escolhido para presidir à Associação Transfronteiriça Alcoutim San Lúcar (ATAS) -  a plataforma que tinha por objectivo manter o assunto como prioridade na agenda politica. Conseguiu alguns resultados positivos: os estudos preliminares foram feitos, a localização da ponte foi escolhida, mas a obra continua para realizar. Com a chegada de Durão Barroso à chefia do Governo, diz Carlos Brito, “o projecto foi congelado e nem sequer foi o incluído no Plano Rodoviário Nacional”. 

Em resposta à inércia da administração central, sublinha, “o Partido Socialista chegou a lançar uma primeira pedra, mas ficou-se por aí”. Na altura, o presidente da câmara, Francisco Amaral, do PSD, que esteve 20 anos à frente do munícipio, foi uma voz crítica em relação ao poder central. Não teve sucesso. No actual Governo, Mário Centeno foi um dos muitos turistas ocasionais que, durante o Festival do Contrabando, atravessaram a pé o Guadiana através da ponte flutuante que ali foi montada.

Osvaldo Gonçalves, socialista, diz que a experiência “provou a necessidade de ser construída uma ponte pedonal, que não funcione apenas três dias no ano”. O projecto vai ou não ser incluído no próximo Orçamento do Estado? Mário Centeno poderá ter uma palavra a dizer na altura em que se discutir o custo da interioridade e as medidas para corrigir as assimetrias do país.  

No tiro à perdiz decide-se o voto em Alcoutim

Na actualidade, Osvaldo Gonçalves é um dos candidatos à autarquia nas eleições de dia 1 de Outubro. O socialista tentará renovar o mandato, conquistado nas últimas eleições ao PSD. Por imposição da lei da limitação de mandatos, em 2013, o social-democrata Francisco Amaral não se pôde recandidatar, depois de ter estado duas dezenas de anos à frente do município – mudou-se para o concelho vizinho de Castro Marim, e aí voltou a sair vitorioso.

Num concelho com menos de 2500 eleitores, a influência do voto faz-se muito pelo contacto directo com a população e pela notoriedade dos candidatos. Francisco Amaral, médico de profissão, até dava consultas grátis no próprio gabinete de presidente da câmara. Por seu lado, Osvaldo Gonçalves, bancário, semeou a simpatia junto das colectividades, com particular destaque para as associações de caçadores. Mais de 90% do território do concelho, com 576,3 quilómetros quadrados, está comprometido com o ordenamento cinegético – só zonas de reserva de caça turística são dezasseis.

O candidato da coligação Renovar Alcoutim, liderada pelo PSD, escolheu para cabeça de lista Jorge Inácio, cirurgião no hospital de Faro. Osvaldo Gonçalves, caçador, conquistou a câmara nas últimas eleições por uma margem de 150 votos. A CDU apresenta como candidato Mário Nunes, reformado da hotelaria, mas os comunistas nas últimas décadas não tiveram representação no executivo. 

O amigo do “perigoso” comunista

Sobre a famíla Centeno, sabe-se que José Centeno de Passos foi presidente da Câmara de Alcoutim entre 1910 e 1912, mas até à chegada do bisneto a ministro o seu nome era praticamente desconhecido. Há sete anos, por ocasião do centenário da República, foi dado o seu nome a uma modesta rua, com a indicação de que foi, também, professor.

Da informação histórica disponível no arquivo municipal apenas constam as actas de tomada de posse como autarca. Contudo, uma das primeiras medidas que tomou, destacou Mário Centeno na intervenção que fez, a 15 de Agosto, em Martim Longo, “foi instituir o feriado municipal [14 de Outubro], coincidindo com a data da tomada de posse do primeiro executivo municipal republicano”. No ano seguinte, o seu sucessor mudou o feriado para 8 de Dezembro, em simultâneo com o feriado nacional. Actualmente, o dia do concelho comemora-se na primeira sexta-feira do mês de Setembro - este ano, hoje, dia 8.

Mário Centeno nasceu em Olhão, em 1966, mas viveu a infância e parte da adolescência, até aos 15 anos, em Vila Real de Santo António. O pai, José Centeno de Passos, bancário, exercia a sua actividade profissional na vila pombalina. No ano em que nasceu o actual ministro das Finanças, Carlos Brito saía da prisão, em liberdade condicional, e ia viver para Vila Real de Santo António. “Centeno tomava todos os dias a bica comigo e nesse tempo era um acto de coragem falar com um perigoso comunista", recorda Carlos Brito.