Editorial

Um referendo travesti

A legítima ambição de independência de sectores da sociedade catalã exigia um processo transparente, profundo, pensado e delineado como sendo algo histórico.

É certo que a Catalunha cumpre os pressupostos tradicionais que definem um estado-nação: tem uma cultura, uma identidade e uma história próprias – e tem até uma língua. Mais importante ainda, em termos económicos tem viabilidade – bastante maior do que as independências que nasceram este século. Sempre se soube que a manutenção da Catalunha em Espanha só se manteria enquanto os catalães assim o desejassem e se revissem na nação descentralizada, e é admissível que o cenário esteja a mudar.

Mas nada disto justifica a forma abstrusa como este referendo travestido está a ser conduzido. É aliás o inverso: a legítima ambição de independência de sectores da sociedade catalã exigia um processo transparente, profundo, pensado e delineado como sendo algo histórico. Este processo de vão de escada, feito com urnas clandestinas e boletins de voto escondidos, é uma vergonha que ficará para sempre marcada na ideologia independentista, tenha ela sucesso junto do povo ou não. Nada está a ser discutido como devia e nada está a ser feito como seria suposto.

Sendo certo que nunca um processo de independência será feito com a anuência de Madrid, pode ao menos ser conseguido com uma relativa unanimidade dos catalães. E esse não só não foi conseguido como se chegou ao pólo oposto: as manobras anti-democráticas que forçaram a passagem deste referendo garantiram a divisão do parlamento, e consequentemente da sociedade. A Catalunha não está unida na realização da consulta popular, quanto mais do resultado que de lá sair. O melhor que os independentistas conseguiram foi garantir a divisão da nação catalã antes mesmo de garantir a sua existência – o que, convenhamos, não é a melhor base para uma construção nacional.

O resultado é um beco sem saída. Nem catalães independentistas nem madridistas integristas têm margem para recuo num processo extremado. E quando o primeiro-ministro Rajoy ameaça com a revogação da autonomia catalã, sabe que está a brincar com o fogo e a atiçar paixões muito pouco racionais. Mas é óbvio que não pode valer tudo, como parecem achar as personagens menores que querem forçar uma revolução encapotada num povo que não se tem mostrado interessado em responder à questão independentista.