Se a manteiga sobe a máximos, por que não ferve o leite?

Um maior apetite mundial por manteiga, cujos stocks estão a níveis muito baixos na Europa, tem levado esta gordura animal a máximos históricos nos mercados internacionais. Consumidores europeus poderão pagar mais ou ter menos oferta nas prateleiras até ao Natal

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Maior parte dos compradores de leite melhorou as tabelas de pagamento à produção desde Agosto hcs helena colaco salazar

O preço da manteiga atingiu, na semana terminada a 27 de Agosto, a média de 618 euros por cem quilos no mercado da União Europeia – está agora 43,7% mais cara do que estava na primeira semana deste ano. É uma tendência crescente dos últimos meses, que não é acompanhada à mesma escala pela matéria-prima agrícola, o leite.  

Em Portugal, segundo os dados do Sima – Sistema de Informação de Mercados Agrícolas, do Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP) do Ministério da Agricultura, o preço da manteiga à saída da fábrica atingiu a média de 542,67 euros por cada 100 quilos, uma variação de 21,5% face a Junho anterior, de 114,2% face a Julho de 2016 e de 78% face ao quinquénio de 2012 a 2016. Ao consumidor final, hoje, um quilo de manteiga de marca da indústria nos supermercados nacionais está entre 5,6 euros e 6,76 euros na sua versão “básica”, sem enriquecimento de qualquer tipo, vendida normalmente em pacotes de 250 gramas de quilo.  

“A manteiga, a componente gorda do leite”, explica Paulo Costa Leite, director-geral da Associação Nacional de Industriais de Lacticínios (ANIL), “foi a categoria de produtos lácteos que melhor comportamento teve durante a crise do sector dos últimos anos, não tendo o seu preço manifestado a volatilidade das restantes categorias, em especial o leite em pó magro”.

Do leite “cru”, como é recolhido, a manteiga resulta do acerto da gordura durante o processamento do leite líquido. Mundialmente, o preço de referência mais comum é o do leite em pó (desnatado ou inteiro), porque é aquele que, após ser “seco”, dura mais tempo, pode ser armazenado e transportado com muito menos custos e é processado pela indústria agro-alimentar na produção de novos produtos.

Ou seja, não havendo probabilidades de vender o leite na versão líquida e não antevendo então a subida que a manteiga iria ter dois anos depois, muitos produtores europeus, com as quebras sentidas sobretudo em 2015 e na primeira metade de 2016, “secaram” mais matéria-prima. O que acabou por criar excedentes de stocks de leite em pó em todo o mundo, desvalorizando-o como a matéria-prima negociável (“commodity”) nos meses seguintes. O mesmo não aconteceu à manteiga, que face a stocks de 135.000 toneladas no final de 2015, baixou para 125.000 em 2016 e pode terminar este ano no patamar das 65.000 toneladas, enquanto a procura não pára de aumentar desde Janeiro passado. 

Além disso, resume a última previsão da UE para o sector, houve mudanças na procura: “Manteiga, e em geral a gordura do leite, está com muita procura no mundo inteiro”: está a substituir a margarina (por razões associadas à saúde) no consumo, e o óleo de palma (também por razões éticas) na indústria de processamento alimentar, e está cada vez a ser mais recorrente na pastelaria e padaria mundial.

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Aumentar

“No início de 2017, os operadores internacionais encontravam-se sem stocks [de manteiga] e rapidamente quiseram garantir segurança ao nível do aprovisionamento do produto, quer para o primeiro, quer para o segundo semestre do ano, influenciando rapidamente os preços que, desde o início do ano, subiram mais de 50% e mais de 70% relativamente ao mesmo período de 2016”.

A evolução dos outros produtos lácteos “não tem acompanhado [a evolução do valor de mercado da manteiga] em Portugal, nem noutros mercados”, frisa Fernando Cardoso, secretário-geral da Fenalac – Federação Nacional das Cooperativas de Produtores de Leite. É que “no caso do leite em pó desnatado e no queijo, estamos essencialmente a falar da componente proteica do leite”, e, nessa caso, os stocks são enormes – neste momento existem cerca de 350 mil toneladas de leite em pó desnatado em armazém na EU”, defende.

Seria agora por isso, “mais conveniente”, sublinha, “leite com mais gordura e menos proteína”, mas “dependente da fisiologia animal, este acerto será demorado”. Tendo em conta que, fruto da apetência dos consumidores, “foi efectuado um processo contrário, de haver menos gordura no leite”, este é, para o responsável da Fenalac, um “caso evidente em que o mercado foi mais rápido do que a capacidade de adaptação do sector”.

Isto está tudo ligado

Ao contrário do comportamento da manteiga, defende Paulo Costa Leite, “as restantes categorias de lácteos” não tiveram uma evolução de valor positiva na sequência do fim das quotas leiteiras na União Europeia (com entrada em vigor a 1 de Abril de 2015) - “forçando mesmo a Comissão Europeia, em 2016, a implementar medidas extraordinárias de carácter voluntário para a redução da produção de leite na comunidade, face ao excesso de oferta que vinha penalizando dramaticamente os preços”.

Quando o bloco económico europeu reafirmou o fim das quotas leiteiras na última reforma da Política Agrícola Comum (PAC) a partir de 2015, contava com a manutenção da procura russa (entretanto travada pelo embargo a produtos da UE na sequência do conflito ucraniano) e do crescimento económico chinês (que desacelerou). Em Portugal, onde o consumo de leite se tem vindo a retrair sistematicamente, houve consequências directas: em ano de fim de quotas, o preço pago à produção recuou 16% (para 0,282 euros) entre Abril e Dezembro de 2015.

Incapazes de vender o que produziam acima do preço do custo, os produtores derramaram o leite nas ruas de Bruxelas à medida do seu desespero, e a Comissão europeia agiu como sabe: canalizou, um ano após o fim das quotas, 500 milhões de euros de ajudas, dos quais 150 milhões como incentivo à redução voluntária de entregas de leite.   

É neste contexto que, questionado o Ministério da Agricultura pelo Público sobre a matéria, fonte oficial respondeu que ”o aumento do preço de manteiga deve-se ao efeito conjugado das medidas postas em execução pelo Governo para dar resposta à crise que o sector leiteiro atravessou em 2015 e 2016, aliado ao aumento da procura para os diferentes produtos lácteos a nível internacional, que tem sido assimétrica para os diferentes produtos”.

Em resultado das medidas de Bruxelas, defende, por seu turno, Costa Leite, “verificou-se na Europa uma redução da produção de leite no início de 2017 (menos 2,2% no primeiro trimestre)”, nomeadamente nos grandes produtores – França, Alemanha, Reino Unido. Consequência? “A produção industrial foi também inferior, agravada, no caso da manteiga, pelo preço penalizantes do leite em pó magro, e a necessidade de os operadores se refugiarem em produtos de algum valor acrescentado”.

Num contexto de “uma oferta muito maior que a procura”, explica Fernando Cardoso, havendo menos leite, “houve menos separação de gordura, e, por isso, menos manteiga”. O secretário-geral da Fenalac reconhece que “na medida em que a gordura é uma componente do leite e há uma melhor valorização deste produto, o preço do leite ao produtor na UE e em Portugal tem registado melhorias significativas” – “a partir de Agosto, a maior parte dos compradores de leite [no país] melhorou as suas tabelas de pagamento à produção em cerca de mais dois cêntimos por cada litro”.

Visão distinta tem Pedro Santos, dirigente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA). “Em Portugal, o aumento do preço da manteiga não se reflectiu nos preços do leite pagos ao produtor: o preço médio pago em Janeiro era de 0,288 euros por quilo e em Junho era de 0,292 euros por quilo”. Na visão da CNA, uma diferença “que agudiza a grave situação dos produtores nacionais” - “Portugal continua a ter dos preços mais baixos de toda a Europa”, advoga.

Já o Ministério da Agricultura defende que “a melhoria dos preços que tem vindo a verificar-se terá certamente repercussão positiva no rendimento dos produtores”.

Subida no horizonte?

Para Paulo Costa Leite, “esta escalada de preços tem vindo a compensar a indústria dos preços bastante baixos do leite em pó magro, mas não tem tido equivalência nos preços internos de venda ao público, que, apesar de mais caros do que há um ano, estão longe de ter subido na mesma proporção”.

Porquê? “A concorrência entre as marcas de fabricantes e as marcas de distribuição (muitas importadas) e a estagnação e mesmo decréscimo da procura interna, tem condicionado uma maior valorização do produto [manteiga]”. Segundo os dados da ANIL, no final de Junho o preço da manteiga tinha tido uma variação positiva de 1,9% entre Janeiro e Junho, mas negativa (de 0,2%) face a Junho de 2016 junto dos consumidores finais.  

Acredita contudo Paulo Costa Leite que “a retoma generalizada da produção de leite, quer na Europa, quer nos principais países exportadores” poderão “gerar a médio prazo condições para uma estabilização do mercado da manteiga”.

Para Fernando Cardoso, o aumento das cotações industriais, “ainda não se reflecte significativamente” no “preço da manteiga comercializada nos supermercados”. A justificação dada é que “os contratos firmados são frequentemente de média/longa duração, existindo um diferimento na transmissão do preço”. Mas, adverte, “caso as cotações industriais persistam a níveis elevados é provável que tal aconteça nos próximos meses”.  Acredita, contudo, que pode haver uma “certa estabilização da cotação, caso se alcance um (novo) equilíbrio entre a oferta e procura”.

Para isso, recordou a Comissão Europeia na última previsão de curto prazo, vai fazer toda a diferença o que acontecer nos antípodas. A perspectiva de Bruxelas é que a Nova Zelândia (maior fornecedora mundial de manteiga, embora a Índia seja a maior produtora) registe uma “recuperação significativa da recolha de leite” no pico da campanha, entre Setembro de 2017 e Janeiro de 2018.

Na Alemanha, o valor da manteiga pago à produção atingiu os 696 euros por 100 quilos na penúltima semana de Agosto. A Arla – uma cooperação de 12.500 produtores da Alemanha, Dinamarca, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Suécia e Reino Unido -  já avisou que que tendo em conta a carência de manteiga e natas na Europa, “não vai ser possível satisfazer a procura no Natal”, a manter-se o actual estado da oferta de gordura. Tudo depende, acreditam os analistas, do que se passar na Nova Zelândia a partir do próximo mês.

“De repente, o preço pode cair nos mercados”, relembra Pedro Santos, da direcção da CNA, para quem “os preços da manteiga” continuam a estar “voláteis” e “ao sabor das circunstâncias, designadamente da especulação internacional”, que “muitas vezes acaba por distorcer o próprio mercado”. E aqui, defende, “quem acaba por lucrar não são os produtores ou a indústria, mas sim o sector financeiro”.