Porto Editora diz que já adoptou recomendação e retirou livros de exercícios

Cadernos diferenciados para raparigas e rapazes “acentuam estereótipos de género”, acusa a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, "por orientação do ministro adjunto". Porto Editora já suspendeu a venda dos dois títulos em causa.

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Os dois livros de exercícios, diferenciados para rapazes e raparigas, que foram lançados pela Porto Editora devem ser retirados do mercado. A recomendação foi feita, esta quarta-feira, pela CIG – Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, organismo público de defesa e promoção da igualdade de género, depois de, na véspera, ter vindo a público que a editora tinha posto à venda dois blocos de actividades dirigidos a crianças dos 4 aos 6 anos que diferenciavam os destinatários por género e com exercícios de graus de dificuldade distintos.

A Porto Editora garantiu, entretanto, já ter suspendido a venda dos dois livros de exercícios e está a “transmitir às livrarias e demais pontos de venda essa indicação”. O anúncio é feito num comunicado em que a editora garante também que vai aceitar a proposta da CIG para uma reunião, trabalhando em “em conjunto com as autoras dos blocos de actividades que originaram a polémica, no sentido de rever os exercícios que possam ser considerados discriminatórios ou desadequados”.

Em comunicado, a CIG anuncia ter feito “uma avaliação técnica dos conteúdos” dos dois livros e concluiu que “ao optar por lançar duas publicações com actividades que diferenciam cores, temas e grau de dificuldade para rapazes e raparigas” a Porto Editora “acentua estereótipos de género que estão na base de desigualdades profundas dos papéis sociais das mulheres e dos homens”.

A CIG recomentou, por isso, à Porto Editora, que retire dos pontos de vendas os livros de exercícios diferenciados para rapazes e raparigas. A sugestão foi enviada por carta “por orientação do ministro adjunto”, que tem a tutela do organismo, sublinha o comunicado divulgado na tarde desta quarta-feira.

A comissão disponibilizou-se também para colaborar com a editora “na revisão dos conteúdos” dos dois livros “no sentido de eliminar as mensagens que possam ser promotoras de uma diferenciação e desvalorização do papel das raparigas no espaço público e dos rapazes no espaço privado”.

A CIG salienta que as publicações “apresentam diferentes graus de dificuldade” em algumas das actividades propostas para rapazes e raparigas e dá vários exemplos de exercícios em que é feita uma diferenciação de género. Por exemplo, numa atividade dirigida aos rapazes, é promovido o contacto com o exterior (campo, árvore, ancinho, águia, etc.), enquanto que, para as raparigas, a actividade apresenta cinco objectos, todos eles ligados a actividades domésticas (leite, manteiga, iogurte, alface e maçã).

O PÚBLICO já tinha noticiado na terça-feira que a CIG estava a analisar a polémica dos dois blocos de actividades para rapazes e raparigas lançados pela Porto Editora. Os livros, que tinham sido publicados no Verão passado e voltaram este ano a ser colocados em vários pontos de venda, têm capas distintas: a versão destinada a meninos tem capa azul e a para meninas está pintada de rosa. No interior, os exercícios propostos são idênticos, mas com graus de dificuldade diferentes.

O PÚBLICO comparou os dois livros, que foram publicados no Verão de 2016. O que é destinado a eles, chama-se Bloco de Actividades para Rapazes. O que se destina a elas intitula-se Bloco de Actividades para Meninas. No conjunto das 62 actividades propostas, existem seis cuja resolução é mais difícil no livro dos rapazes e três que apresentam um grau de dificuldade superior no das meninas.

Mas a maior parte das actividades reproduzem uma série de velhos estereótipos. Apenas alguns exemplos: eles brincam com dinossauros, com carrinhos e vão ao futebol, enquanto elas brincam com novelos de lã, ajudam as mães e vão ao ballet; eles pintam piratas, elas desenham princesas. O universo caseiro do lar surge muito mais associado ao género feminino do que ao masculino.