Os Tubarões dão à Costa depois de ganharem um lugar ao Sol

A banda de Cabo Verde renasceu em 2015 e veio para ficar. Este sábado estará no Sol da Caparica; para 2018, já prepara um disco novo.

Os Tubarões hoje (à direita Mário Bettencourt, ou Mário Russo)
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Os Tubarões hoje (à direita Mário Bettencourt, ou Mário Russo) DR

No mesmo dia em que um grupo histórico português, Trovante, sobe ao palco do festival Sol da Caparica, um outro grupo (este cabo-verdiano) faz prova da sua justa ressurreição em 2015: Os Tubarões. Mário Bettencourt, ou Mário Russo, como é conhecido, baixista e um dos fundadores do grupo, recorda ao PÚBLICO o que originou o seu (não planeado) regresso aos palcos. “Não decidimos reunir-nos, um convite reuniu-nos. Nem estávamos à espera, quando aconteceu aquele concerto Labanta braço, grita bo liberdade [no encerramento do festival Rotas & Rituais, a 29 de Maio de 2015, no Cinema São Jorge, em Lisboa] e alguém, ao saber disso, com uma visão mais arguta disse: se vocês vão lá, porque é que não aproveitam e tocam uma semana antes no Festival da Gamboa [em Cabo Verde]? Assim foi. E dois anos depois, aqui estamos.”

Foi, pois, um convite a que se juntou outro. Aceitaram-nos, algo a medo. “O nosso maior receio era as pessoas não nos receberem como autênticos. Ou sugerirem que estaríamos ali por outros motivos que não fosse a música.” Mas isso não sucedeu. Na altura da morte do seu vocalista, Ildo Lobo, de falha cardíaca, a 20 de Outubro de 2004, o grupo tinha oito discos gravados: Pepe Lopi (1976),Tchon di Morgado (1976), Djonsinho Cabral (1979), Tabanca (1980), Tema para Dois (1982), Os Tubarões (1990), Os Tubarões ao Vivo (1993) e Porton d’nôs ilha (1994). E estava parado desde 1994, porque Ildo saíra nesse mesmo ano para seguir uma carreira a solo e lançar Nós Morna (1996), Intelectual (2001) e Incondicional (2004, em edição póstuma).

“Uma coisa fantástica”

Os convites apanharam, por isso, o grupo desprevenido. Dos quatro ou cinco elementos que pertenciam à última formação, só o teclista e o saxofonista tinham continuado a tocar, em bares, os outros praticamente pararam. Por isso, foi preciso recomeçar, diz Mário. “E foi aquela insegurança: será que vai dar, será que não vai dar?” Mas encontraram-se, ensaiaram e saiu bem. “Depois começámos a escolher os temas, cada um ia para casa fazer a sua parte e, com uma hora ou duas de ensaio diário, lá pusemos a mão em dia.” A ideia era reunirem-se apenas para cumprir aqueles compromissos e depois pararem. “Mas aconteceu uma coisa fantástica: começaram a surgir convites, fomos aceitando, fomos fazendo, a cada palco melhor, e estamos aqui a fazer isso.”

Mário diz que “se nota uma grande diferença” entre a prestação do grupo hoje e a do recomeço, quer na forma de tocar quer no à-vontade no palco. E isso impeliu-os, até, a compor temas novos. “No repertório temos metido algumas coisas, nossas, a que demos um outro tratamento. Isto já a pensar num próximo trabalho.” Pensaram gravá-lo e lançá-lo ainda este ano, mas o volume de concertos não lhes tem permitido focarem-se no novo disco e nos estúdios. Talvez em 2018.

Em termos instrumentais, diz Mário Russo, não haverá diferenças. “Será mais na forma de abordagem da harmonização. Aprendemos muito, vimos e ouvimos muito, e estamos agora a transpor isso para a nossa maneira de tocar. E de certeza teremos temas novos, originais, porque há compositores que alimentavam o trabalho do grupo e que nos têm enviado temas para [os] sujeitar ao crivo da escolha. Já escolhemos alguns para trabalhar, mas não vamos tocá-los agora.”

Curiosidade e satisfação

A formação do grupo não sofreu qualquer alteração desde os espectáculos de 2015. Além de Mário Russo (baixo), Os Tubarões contam ainda com Totó Silva (guitarra), Totinho (saxofone), Jorge Lima (percussão), Jorge Pimpas (bateria), Zeca Couto (piano) e Albertino Évora (voz). Quem já os conhece reage com bastante agrado e os outros com “um misto de curiosidade e satisfação”, diz Mário. “É o que temos sentido nas pessoas que nos ouvem pela primeira vez.”

Este sábado, além dos Tubarões e de outro grupo cuja ressurreição vai sendo celebrada pelo seu público, os Trovante, actuam no festival O Sol da Caparica Matias Damásio, Manuel Cruz, Mishlawi, Teresa Salgueiro, Samuel Úria, Best Youth, Os Quatro e Meia, Sean Riley & The Slowriders e Rich & Mendes. No último dia, domingo 13, que é dedicado à criança, actuarão os projectos Mão Verde (Capicua e Pedro Geraldes) e Palavra Cantada e Rita Guerra.