Entrevista

Quarenta anos depois, Os Tubarões voltam a gritar liberdade!

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Há uma semana, a mítica formação Os Tubarões regressou aos palcos no Festival da Gamboa, na Cidade da Praia. Já não tocavam juntos há 20 anos e a ocasião serviu para homenagear Ildo Lobo, o cantor do grupo que morreu em Outubro de 2004.

Este retorno à actividade do colectivo acontece no âmbito do festival Rotas & Rituais, organização da EGEAC com inicio esta sexta-feira, em Lisboa, prolongando-se até dia 29, precisamente com o concerto de encerramento dos Tubarões no Cinema São Jorge. O festival celebra e interpela a cidade no âmbito dos 40 anos das independências dos países africanos de expressão portuguesa, com conferências, exposições, cinema, arte e música. Para além de Os Tubarões, destaque para o concerto de uma outra formação histórica, os moçambicanos Ghorwane (dia 28), e para as motivações contemporâneas do angolano Nástio Mosquito na companhia de Moço Árabe (a 27). Já este sábado haverá uma sessão de baile pelos guineenses Djumbai Jazz.

Mas é justamente o título de uma canção de Os Tubarões já com 40 anos, Labanta braço, grita bo liberdade, que serve de mote a um festival que pretende celebrar a auto-determinação das ex-colónias e provocar a reflexão sobre o pós-colonialismo. “É uma daquelas canções que pertencem ao período bom em que todos estávamos com grande energia”, recorda Mário Bettencourt, também conhecido por Russo, o histórico baixista do grupo, com quem estivemos à conversa. “Essa música foi a bandeira dessa época e durante muito tempo quando a tocávamos gerava a histeria total, porque as pessoas sentiam que estávamos realmente a caminhar para a liberdade.”

Desde que o grupo se desintegrou, em 1994, muito se falou de um possível regresso. Mas tal não aconteceu. Depois da morte do cantor Ildo Lobo, pensou-se mesmo que seria difícil tal suceder. Afinal, ei-los. E para já as sensações são boas, diante de canções ressuscitadas como Biografia dum criol, Largan largan, Cansera ka tem midida, Somada, Tunuca ou Alto cutelo. “A reacção e o carinho que o público mostrou no Festival da Gamboa superou as nossas expectativas, porque foram 22 anos parados. Voltar assim e sentir essa empatia é especial. Mas é a prova de que continuamos a ser importantes para muitas pessoas. Algumas delas terão viajado no tempo e as mais novas que nunca nos tinham visto reagiram também muito bem.”

A primeira formação do grupo data de 1969, mas foi a partir da independência de Cabo Verde, a 5 de Julho de 1975, com a entrada de Ildo Lobo e a gravação dos dois primeiros álbuns (Pepe Lopi e Tchon Di Morgado, ambos de 1976) que a sua carreira descolou. Ao longo de 18 anos de existência, viriam a gravar mais seis álbuns, como Djonsinho Cabral (1979) e Porton D’Nôs Ilha (1994), marcando uma nova geração. Agora, para além de Mário Russo, a formação é constituída por Totó Silva (guitarra), Totinho (saxofone), Jorge Lima (percussão), Jorge Pimpas (bateria), Zeca Couto (piano) e Albertino Évora, o cantor que foram encontrar para o difícil papel de substituir Ildo Lobo que, depois de Os Tubarões, foi o que se notabilizou mais, tendo prosseguido uma carreira a solo com três álbuns.

“A formação que apresentamos agora já foi experimentada no passado e funcionou”, recorda Mário, “e é aquela que está mais perto daquilo que foram Os Tubarões, embora como é evidente não existam a voz do Ildo ou a guitarra do Jaime, por exemplo.” Depois de terem resolvido reagrupar-se – “Desta vez existiu um convite concreto da Câmara de Lisboa, enquadrado nos 40 anos da independência e, porque sentimos que fazemos parte da História deste país e da revolução, pareceu-nos que a comemoração deveria contar com a nossa presença”, justifica Mário –, havia que voltar ao repertório do colectivo. “Antes dos ensaios, a primeira tarefa foi seleccionar as músicas e pô-las pela ordem. E depois de ouvirmos as músicas, foi praticar e ensaiar. A filosofia destes concertos é reproduzir o mais originalmente possível as músicas que marcaram a história dos Tubarões. A lógica não foi tentar substituir as pessoas, mas sim propor uma viagem à volta das letras, das harmonizações e das melodias do grupo.” 

PÚBLICO -
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Banda mítica formada ainda antes da independência de Cabo Verde, em 1969, Os Tubarões já não tocavam juntos há 20 anos

Independência, e depois?

Na escolha do repertório dos Tubarões, couberam canções do seu percurso global, embora para o concerto de Portugal se tenham centrado na fase da independência, entre 1975 e 1980.

Depois do 25 de Abril de 1974 em Portugal, o processo de independências das então colónias sofreu um desenvolvimento acelerado. Havia uma nova situação política e social. O meio cultural fervilhava de ideias e acontecimentos. E emergem novas formas musicais. É a chamada fase da música revolucionária. “Sempre cantámos a poesia de Cabo Verde, a emigração, a seca, as chuvas, o trabalho, os estádios do amor, e na fase da independência a nossa música teve também um papel fundamental na mobilização e na consciencialização das pessoas”, recorda Mário Russo, dizendo que no pós-1975 havia diferentes leituras sobre os acontecimentos. “Como é natural que aconteça em todos os períodos revolucionários”, diz, “com uns a favor, outros contra e outros sem saberem o que pensar”.

Nessa altura, Os Tubarões tocavam em comícios e concentrações, actuando ao lado dos líderes políticos, mobilizando a população. “Havia necessidade de afirmar o que se desejava para o futuro e qual o caminho a seguir e, na altura, todos contribuímos para esse processo”, justifica. Foi um período efervescente, mas também incerto, em que a música acabou por deter uma missão. “As chamadas músicas revolucionárias foram essenciais, transmitindo as mensagens que faziam sentido na altura. Era necessário desmistificar a independência, porque com a descolonização havia receio sobre o que iria acontecer. E nesse processo de fazer as pessoas acreditar que era possível termos um país dirigido por nós, a música teve um papel relevante.”

Foi um período de projecções de futuro e de aspirações. Como acontece sempre em fases conturbadas do ponto de vista político e social, alguns desses desejos foram cumpridos e outros ficaram pelo caminho. O cidadão Mário Russo afirma que “o sonho se tornou realidade porque conseguimos construir um país”, embora lhe pareça que alguns desses sonhos ainda não foram cumpridos. “Desejaria que o meu país, neste momento, estivesse num outro nível, com outra visão. Mas são situações conjunturais e é possível ir melhorando.”

O músico declara não ter qualquer nostalgia do passado, embora lhe pareça que a energia primordial daqueles tempos, a grande vontade transformadora, não seja reproduzível nos dias que correm. Hoje sente mais apatia. “Os Tubarões foram sempre um grupo com muita consciência, sabendo quem eram, o que queriam e para onde queriam ir. Daí que dedicássemos muito do nosso tempo àquela luta, porque sabíamos que era por ali e tínhamos de fazer a nossa parte. E como é evidente havia outros como nós. Nessa altura existia uma grande avidez e muito vigor em participar, em parte também porque era tudo novo.”

A música ou a cachupa

Mas não foi apenas nessa altura que a música teve uma importância central na definição identitária do país. Ainda hoje, quando se pensa em Cabo Verde, a sua música é sempre enaltecida. Nestes 40 anos de independência, o som do arquipélago foi conhecendo transformações profundas. A novidade dos finais dos anos 1970 foi o funaná. Os anos 1980 constituem o início da projecção internacional. E os anos 1990 foram de consolidação e de afirmação de novos valores. Hoje é fácil referenciar nomes da música de Cabo Verde, de diversas gerações (Bana, Cesária Évora, Ferro Gaita, Tito Paris, Maria Alice, Pantera, Mayra Andrade, Nancy Vieira, Lura, Tcheka ou Bau), que são conhecidos um pouco por todo lado.

“Senti essa apetência de fora pela nossa música desde muito cedo, quando tive o privilégio de viajar”, reflecte Mário Russo, acrescentando que em décadas anteriores “a comunicação era bem mais difícil, mas sempre que o assunto era Cabo Verde de imediato se falava de morna, coladeira ou funaná": "Era sempre a música – ou a cachupa – que nos identificava. E depois do fenómeno Cesária [Évora] isso ainda se tornou mais visível.”

Na música de Os Tubarões existiu sempre essa tentativa de readaptar a música tradicional sem deixar de incorporar influências do exterior. Ainda hoje é esse traço que fascina na sonoridade do colectivo e que continua a apelar às novas gerações. “Acredito que ainda se sente alguma da nossa influência na música daqui, principalmente pela nossa visão da morna, da coladeira, do funaná ou do batuque, mas ela vai-se diluindo e é normal porque a música vai-se transformando e ganhando novos contornos. Também éramos influenciados pelo que vinha de fora, só que a informação era mais lenta. Agora é instantânea. Ou seja, as mutações são bem mais rápidas.”

Cabo Verde é um país de emigração. Em França, na Holanda, nos Estados Unidos, no Senegal, em Portugal ou em Angola, as novas gerações congregam músicas urbanas desses países e misturam-na com a música tradicional. E o contrário também é verdade. Os músicos que vivem no arquipélago também estão atentos ao que se ouve nesses países. “Temos de estar ligados, até porque os músicos daqui que vão tocar a esses sítios necessitam de manter a identificação entre o país de origem e os lugares de emigração. Quando os Tubarões fizeram, em 1988, uma digressão pela Guiné e pelo Senegal, senti que quando regressámos já assumíamos algumas das sonoridades desses países. Só enriquece a música. E com as novas gerações isso acontece de forma ainda mais acelerada.”

Depois do final do grupo, especulou-se sobre o que teria levado à separação. Uma das teorias apontava para divergências de caracter político, mas Mário Russo refuta-as. “Isso não é de forma nenhuma verdade. O que aconteceu é simples: Os Tubarões acabaram, naquela altura, porque não faziam sentido. Os sítios onde tocávamos – os bailes populares e os concertos – já não rendiam, porque as pessoas estavam mais ligadas à explosão das discotecas. As despesas aumentavam e não havia retorno, tão simples como isso. Quando já não dá é preciso ter coragem e assumir que chegou o tempo de parar.”

Agora ei-los de regresso. Não há, para já, projectos para reedições de discos ou lançamento de antologias, mas até isso poderá vir a acontecer. Para já estão a desfrutar do momento. “O que está a acontecer tem-nos apanhado de surpresa”, confessa Mário Russo. “Temos tido contactos para outros concertos e há várias questões em aberto, mas também temos de ver que cada um tem a sua vida. Estamos a ponderar. Mas mesmo que não aconteça mais nada, voltar a estar em palco, 40 anos depois da independência, é emocionante.”