Os primeiros salmões transgénicos já estão no prato dos canadianos

Até agora, foram vendidas quase cinco toneladas de salmão do Atlântico que também tem um gene do salmão do Pacífico. Usando a engenharia genética, este salmão transgénico cresce muito depressa.

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Salmões-do-atlântico com 18 meses: o maior é o transgénico e o mais pequeno é o que costuma ser criado em aquacultura Barrett & MacKay/Reuters

É oficial, já se vende salmão transgénico no Canadá. Não é bem uma surpresa que os primeiros salmões geneticamente modificados tenham chegado à mesa dos canadianos, afinal a sua comercialização tinha sido aprovada em 2016. A empresa norte-americana AquaBounty Technologies, que desenvolveu este peixe, disse que, até ao início deste mês, já tinha vendido cerca de 4,5 toneladas deste salmão no Canadá.

“É a primeira vez que um animal geneticamente modificado está a ser vendido como comida no mercado”, refere uma notícia da revista Nature. Ron Stotish, presidente da AquaBounty, disse àquela revista que cada quilo do salmão transgénico está a ser vendido por 11,7 dólares (9,9 euros).

Mas, afinal, que salmão é este? Foi criado pela primeira vez em 1989 e denominado AquAdvantage pela AquaBounty. Trata-se de um salmão-do-atlântico (Salmo salar) ao qual foi acrescentado um gene do salmão-rei (Oncorhynchus tshawytscha), uma espécie comum no Pacífico. Esse gene regula o crescimento das células musculares e permite que o peixe cresça duas vezes mais depressa. Ao salmão-do-atlântico ainda se juntou um gene do peixe-carneiro-americano (Zoarces americanus), para que o crescimento do salmão não seja apenas sazonal mas durante todo o ano. Com todos estes ingredientes, ele pode atingir o tamanho adulto ao fim de 16 a 18 meses, em vez dos 30 que costumam ser necessários.

O salmão transgénico só pode ser criado em terra, nomeadamente em tanques fechados. A empresa produz estes peixes em instalações no Panamá e no Canadá. Agora também está a desenvolver uma exploração de aquacultura em Albany, nos Estados Unidos. Esta é a sua primeira exploração de aquacultura nos Estados Unidos, que aguarda agora a autorização das autoridades para começar a produção dos salmões.

Eric Hallerman, um especialista em pesca e genética de peixes no Instituto de Tecnologia da Virgínia (Estados Unidos), disse ao jornal The Washington Post que a criação deste salmão, para além de encurtar o tempo total de produção de três anos para um ano e meio, também reduz em cerca de 10% a quantidade de comida que os peixes precisam.

Para Ron Stotish, este salmão transgénico é “bom” para a economia, porque as explorações de aquacultura podem trazer emprego aos Estados Unidos e ao Canadá. Além disso, salientou que este salmão cresce em tanques e não tem parasitas e agentes patogénicos como os salmões do mar. “Penso que o mercado em larga escala está a vê-lo como uma fonte previsível e sustentável de salmão”, disse à Nature o presidente da AquaBounty.

A autorização para venda de salmão transgénico tem sido uma batalha. Depois de quatro anos de estudos, em Maio de 2016, a agência governamental Health Canada e a Agência de Inspecção Alimentar Canadiana acabaram por aprovar o salmão da AquaBounty e consideraram que era tão seguro e nutritivo como o outro salmão. Nessa altura, as autoridades canadianas também consideraram que o salmão transgénico não precisava de uma rotulagem especial. “Há muitos anos que os alimentos geneticamente modificados que têm sido aprovados pela Health Canada têm sido consumidos no Canadá e são seguros e nutritivos”, referia a agência num comunicado de 2016.

Para quando nos EUA?

As autoridades sanitárias dos Estados Unidos também já tinham autorizado, em Novembro de 2015, o consumo deste salmão transgénico em território norte-americano. Num comunicado desse ano, a FDA, a agência federal que regula os medicamentos e a alimentação, referiu que o salmão “preenche as condições regulamentares” e que é “tão apto para consumo e tão nutritivo como os outros salmões não transgénicos do Atlântico e não existem diferenças biológicas notáveis entre o perfil nutricional do salmão AquAdvantage e o dos outros salmões de aquacultura do Atlântico”.

Contudo, grupos de consumidores e de ambientalistas têm considerado que este salmão pode ser perigoso para a saúde humana e que apresenta riscos para as populações selvagens de salmões caso seja libertado. “Os canadianos estão perante o primeiro animal para alimentação geneticamente modificado, aprovado sem consulta pública e sem um rótulo”, dizia em 2016 Lucy Sharratt, da Biotechnology Action Network do Canadá, citada pelo jornal britânico The Guardian.

A AquaBounty tem dito que todos os salmões são estéreis e criados em tanques. E salientado ainda que a produção de salmão transgénico pode ajudar a reduzir a pesca excessiva e a pressão nos stocks de salmões selvagens.

As associações de defesa de consumidores nos EUA também reclamam que este salmão transgénico seja rotulado. Mas segundo a lei norte-americana, o rótulo apenas é obrigatório se existir uma “diferença material, bem como um perfil nutricional diferente”. Segundo a FDA, não há qualquer diferença. Mesmo assim, em 2015, quando foi aprovada a comercialização, um representante da FDA disse à agência de notícias AFP que quem quiser evitar comer salmão transgénico podia sempre comprar salmão que não fosse de criação.

Actualmente, o salmão transgénico ainda não é vendido nos Estados Unidos. Isto porque o orçamento para 2017 dos EUA tinha uma disposição que ordenava à FDA que proibisse a venda de salmão transgénico até que fosse desenvolvido um programa de informação dos consumidores que estariam a comprar peixe transgénico, refere a notícia da Nature. A AquaBounty planeia começar a vender este salmão nos EUA na segunda metade de 2019, disse agora ao Washington Post Dave Conley, um representante da empresa.

O que levanta agora a questão: será que este salmão transgénico vai chegar também à Europa?